Água e falta de participação social

Data: 17/07/2017

Por MARINA GROSSI, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS)

O Brasil sempre viveu em uma cultura de abundância de água, muito estimulada pelo fato de determos 13% da água doce do mundo, mal distribuída entre suas regiões geográficas. Isso se soma à má gestão, que gera números impressionantes com média geral de desperdício de distribuição de água tratada de aproximadamente 37%. Apenas 42,6% do esgoto é tratado no país e há baixo índice de cobertura florestal nas bacias hidrográficas, o que afeta a regulação do insumo.

Mesmo com esses números, e com os constantes problemas de escassez na Região Nordeste, a atenção dos diversos setores da sociedade e da mídia só foi despertada com a crise do Sudeste em 2014 e 2015 e atualmente também no Distrito Federal. Embora muito alarme tenha sido acionado, hoje a agenda enfraqueceu, justo quando deveria ser tema central, uma vez que a água será o recurso mais afetado pelas mudanças climáticas. A ONU estima que, até 2030, o deficit entre demanda e oferta deve alcançar 40%.

Nas grandes agendas globais, temos o Acordo de Paris para a Agenda Climática e os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU para a agenda socioambiental. A água se transforma em importante conexão, possuindo não só um ODS específico, o de número 6 (água e saneamento para todos), mas impactando também 13 dos 17 outros, entre eles, pobreza, saúde, emprego, alimentos, proteção à natureza.

O Brasil conta com grande e única oportunidade de sediar o principal evento global sobre o assunto, o 8º Fórum Mundial da Água (FMA), que ocorrerá em Brasília em 2018. Poderemos ser os grandes protagonistas e propositores de uma agenda que se aproveite da vinda de grandes especialistas para buscar soluções práticas para a água, por meio de novas tecnologias, ganho de escala para as já existentes, políticas públicas.

No Brasil, o 8º FMA criou o Grupo Focal de Sustentabilidade, liderado pelo CEBDS e pelo WWF Global (World Wildlife Fund), visando vincular sua agenda à do Acordo de Paris e respectivos ODS, aumentando o engajamento do setor empresarial, sem deixar de ouvir também a sociedade. Para cumprir essa missão, foram realizados alguns pré-eventos, como o Fórum Água de Engajamento Empresarial, ação do Grupo Focal de Sustentabilidade, e o recente Global Water Summit 2017, em parceria entre CEBDS, Coca-Cola Brasil e o 8º FMA.

Buscou-se nesses eventos entender os principais desafios para a agenda de água global e regional, para empresas e sociedade, e para os resultados que se esperam do 8º FMA. Esses encontros foram muito esclarecedores, porque mostraram que, apesar de aparente falta de consenso entre os diversos atores da agenda, os pontos colocados por empresas e sociedade civil foram comuns e indicam a necessidade de aumentar o diálogo intersetorial e o protagonismo de ações coletivas sobre as individuais, quebrando barreiras que impeçam a construção de soluções conjuntas.

É preciso melhorar a comunicação e a qualidade da informação para que o real problema seja identificado e leve a maior empoderamento e participação social no controle e no monitoramento da gestão desses recursos. Isso não será possível sem inclusão da juventude, mulheres, populações tradicionais e indígenas nas grandes discussões como parte da solução.

A participação coletiva e compromissos de médio e longo prazos também não serão suficientes sem que os resultados de ações, como o 8º FMA, sejam orientados a ações e soluções práticas e imediatas, evitando que problemas sociais e conflitos de interesses ganhem escala, priorizando a boa gestão. Precisamos compartilhar soluções e tecnologias que já existem, incentivando as empresas a colocarem seu know how a serviço de outras organizações e da sociedade em geral, empreendendo esforços para dar destaque a bons trabalhos, sem deixar de lado a inovação.

Outras agendas delicadas também merecem ser consideradas tendo em vista o senso de urgência necessário e valor para a sociedade sobre o uso dos recursos hídricos, a exemplo da precificação ou da criação de uma cúpula global de alta liderança no âmbito das Nações Unidas. O 8º FMA é oportunidade para o país que detém grande parte da água no mundo sobressair e liderar uma agenda que, em pouco tempo, será fator social e econômico tão ou mais crítico que as mudanças climáticas.

**Artigo publicado originalmente no Correio Braziliense, nesta segunda-feira (17/07).

Marina Grossi

Informações do Autor

Marina Grossi

Marina Grossi é economista e assumiu a presidência do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) em 2010. No CEBDS desde 2005, Marina atuou como diretora-executiva e coordenadora das Câmaras Temáticas de Mudança do Clima e Energia, Construção Sustentável e Finanças Sustentáveis. Possui um vasto currículo ligado à área governamental, atuando como negociadora do Brasil na Conferência das Partes (COP) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP do Clima) entre 1997 a 2001, e como coordenadora do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas entre 2001 e 2003. Participou das negociações do Protocolo de Kyoto e representou o Grupo dos 77 (G77) mais China na área de Mecanismo Financeiro na COP 6 ½ (segunda fase da COP 6) que ocorreu em Bonn, Alemanha. Foi assessora do Ministério da Ciência e Tecnologia, na Coordenação de Pesquisa em Mudanças Globais, e na Coordenadoria de Comunicação Social e chefiou a Assessoria Internacional da Televisão Educativa (Funtevê).

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