O desafio da mobilidade sustentável

Data: 15/03/2016

“Não faz sentido dividir as cidades nessas duas categorias [felizes ou infelizes], mas em outras duas: aquelas que continuam ao longo dos anos e das mutações a dar forma aos desejos e aquelas em que os desejos conseguem cancelar a cidade ou são por esta cancelados”. Cidades invisíveis, Italo Calvino

 A cidade é o habitat por excelência do Homem contemporâneo. As projeções da ONU estimam que, até 2050, entre 85% e 90% da população do planeta habitarão zonas urbanas. As cidades são um território que condiciona o estilo de vida, os desejos e as expectativas de cada um de nós. O Homem de nosso tempo é essencialmente um Homo Urbanus. Segundo dados da ONU de 2014, o Brasil possui 174,5 milhões de habitantes nas cidades (85,7% do total de habitantes) e a previsão para 2050 é que 91% residam nas cidades, representando mais de 210 milhões de habitantes, o que faz do Brasil um dos 50 países mais urbanos do mundo.

Esse movimento traz enormes desafios. Um dos mais significativos é a questão da mobilidade. Com o crescimento dos territórios urbanos e proliferação de regiões periféricas, dentro de um movimento exponencial e com histórica falta de planejamento, temos cidades cada vez mais espraiadas e onde as distâncias entre os serviços, locais de trabalho e moradia crescem na proporção da expansão urbana. Isso afeta tanto a provisão de serviços e infraestrutura quanto a efetividade e a capacidade da cidade gerir as intermináveis massas humanas que se deslocam diariamente entre pontos do território. Quando imaginamos que a metade desse movimento se dá entre a moradia e o trabalho e que, sobretudo nos países em desenvolvimento, esse deslocamento acontece em veículos movidos a motores altamente poluentes – ônibus, automóveis, motos – temos um conjunto urgente de desafios.

Gastamos cada vez mais tempo no trânsito. Os congestionamentos têm custos muito elevados para o planeta, para o país, para cada um de nós. Estima-se que os custos relacionados com o tempo perdido no trânsito, em 2012, em São Paulo, giraram em torno de R$ 45 bi. Cerca de 5,7% do PIB da cidade. No mesmo ano, o Rio foi a cidade mais “lenta” do país, com 49 minutos em média, nos deslocamentos casa-trabalho-casa, ou 7,5% acima do tempo médio gasto em São Paulo. Esses custos representam 5,9% do PIB, de acordo com um estudo da Firjan. Outro dado aponta que 27% da população brasileira utilizam o automóvel para se deslocar, respondendo por 71% do consumo energético no setor de transportes e 59% dos poluentes locais emitidos (ANTP, 2013). Este desequilíbrio demostra claramente que há algo de muito errado com este modelo.

Estima-se que os custos relacionados com o tempo perdido no trânsito, em 2012, só em São Paulo, giraram em torno de R$ 45 bi

Estima-se que os custos relacionados com o tempo perdido no trânsito, em 2012, só em São Paulo, giraram em torno de R$ 45 bi.

Os custos do trânsito também impactam as empresas. Diminuição de produtividade, gastos com transporte dos seus funcionários e com a manutenção de frotas são cada vez mais elevados. Com os números alarmantes de acidentes de trânsito no Brasil, existe ainda um conjunto de custos que, quando considerados, exigem uma mudança urgente de paradigma. As empresas do setor automotivo vêm se reinventando dentro do novo quadro de demanda de mobilidade, e soluções que melhoram a vida das cidades são soluções que impactam a qualidade de vida de cada um, na produtividade do setor empresarial e no meio ambiente como um todo. Os deslocamentos casa-trabalho estão estimados em cerca de 50% dos deslocamentos urbanos. Assim, empresas são ao mesmo tempo causadoras de demanda de viagens e acabam sofrendo as consequências dos congestionamentos e da situação atual de mobilidade. Mas também são elas que nos trazem muitas soluções dentro deste quadro.

As crises também proporcionam espaço para reflexão e possibilidades concretas de mudança de modelo; e este é um momento importante para atuar. As mudanças estão acontecendo e podemos modificar a situação atual a partir de três movimentos principais – reduzindo a nossa demanda por transporte e deslocamentos, incentivando a mudança para modais de transporte mais sustentáveis (maior capacidade, menor emissão/per capita e menor demanda de espaço nas vias, ou modais não motorizados como a bicicleta) e melhorando a eficiência energética, reduzindo os poluentes dos veículos que circulam nas vias.

O World Business Council Sustainable Development (WBCSD) desenvolveu, em seis cidades do mundo, o Projeto de Mobilidade Sustentável (SMP) por meio do qual as empresas, com o uso de ferramentas e indicadores especialmente desenvolvidos, sugerem soluções sustentáveis de mobilidade, respeitando as características de cada cidade. No Brasil, o projeto foi implantado, em parceria com o CEBDS, na cidade de Campinas, onde de acordo com uma pesquisa realizada pelo projeto, aproximadamente 51,7% da população afirmam usar o transporte público (no caso do Rio de Janeiro, esse número sobre para 71% (PDTU, 2013)).

Não existem modelos padrão de mobilidade e qualquer diagnóstico deve ser feito em função das características de cada cidade. Baseado nessa premissa duas publicações resultaram do projeto. Um relatório que apresenta possíveis mecanismos de financiamento para a mobilidade sustentável, trazendo ferramentas para o setor público viabilizar economicamente os investimentos em infraestrutura e serviços de transporte.  E uma segunda publicação que fornece indicadores para identificar as principais demandas de mobilidade nas cidades contemplando diversos temas como conforto, congestionamento, eficiência energética e acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida.

A Política Nacional de Mobilidade Urbana, normatizada pela Lei 12.587/2012 exige que todos os municípios com mais de 20.000 habitantes apresentem o seu plano de mobilidade. O prazo de entrega dos planos foi estendido para 2018, uma vez que mais de 2000 municípios, dos cerca de 3300 que deveriam entregar seus planos, ainda não os desenvolveram. O principal motivo é a carência de qualificação técnica e de instrumentos de planejamento.  Nesse sentido, o Projeto de Mobilidade Sustentável cumpre uma importante função quando se propõe a aproximar o planejamento municipal do conhecimento técnico das empresas. O setor privado pode assim contribuir para a melhoria das nossas cidades, trabalhando próximo aos governos municipais ainda na fase de planejamento, mostrando um caminho possível de aceleração de processos em prol de cidades mais sustentáveis, onde o direito de ir e vir se pauta por soluções de baixo carbono e por altos níveis de eficiência e integração.

Marina Grossi

Informações do Autor

Marina Grossi

Marina Grossi é economista e assumiu a presidência do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) em 2010. No CEBDS desde 2005, Marina atuou como diretora-executiva e coordenadora das Câmaras Temáticas de Mudança do Clima e Energia, Construção Sustentável e Finanças Sustentáveis. Possui um vasto currículo ligado à área governamental, atuando como negociadora do Brasil na Conferência das Partes (COP) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP do Clima) entre 1997 a 2001, e como coordenadora do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas entre 2001 e 2003. Participou das negociações do Protocolo de Kyoto e representou o Grupo dos 77 (G77) mais China na área de Mecanismo Financeiro na COP 6 ½ (segunda fase da COP 6) que ocorreu em Bonn, Alemanha. Foi assessora do Ministério da Ciência e Tecnologia, na Coordenação de Pesquisa em Mudanças Globais, e na Coordenadoria de Comunicação Social e chefiou a Assessoria Internacional da Televisão Educativa (Funtevê).

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