Urgências para o Brasil sustentável

Data: 05/06/2018
Area: Institucional
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Categoria: Institucional

Neste Dia Mundial do Meio Ambiente, proponho uma pausa para reflexão sobre os avanços que estamos promovendo, os gargalos que nos demandam alternativas, e ainda o que nos desafia no futuro bem próximo para que possamos construir uma vida mais sustentável, seja no núcleo dos nossos negócios, seja no aspecto individual. Pelo menos três pontos são cruciais e merecem nossa atenção e o foco dos nossos debates atuais, especialmente no Brasil.

O primeiro deles é a questão do clima, e de que forma suas mudanças nos afetam diretamente. É consenso que, para cumprir as metas de redução de 2 graus centígrados na temperatura do planeta, conforme o Acordo de Paris, teremos que rever o uso dos atuais combustíveis, promovendo uma transição até a adoção de energias renováveis como nossa principal fonte. Adotar mecanismos que coloquem um preço sobre o impacto ambiental desses combustíveis pode ser uma alternativa para financiar a nova energia renovável.

Nas últimas semanas, a paralisação dos caminhoneiros evidenciou nossa total dependência em relação aos combustíveis fósseis e às rodovias, e como ainda temos uma longa trajetória para reverter isso, pensando, por exemplo, em vincular novas concessões à expansão de ferrovias, ou adoção de combustíveis menos poluentes. A paralisação deixou ainda mais evidente a relação direta do diesel com as emissões de Gases do Efeito Estufa (GEE): Informações de Qualidade do Ar da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) apontaram para a queda de 50% da poluição na capital paulista durante a greve. Diante dessa realidade, criar um mercado de carbono no Brasil é mais do que necessário, urgente.

O segundo ponto, que já vem sendo absorvido pelas grandes representantes do setor industrial, mas precisa ser multiplicado Brasil afora, é a urgência de maior atenção na captação de água, uso eficiente e, principalmente, adoção de técnicas de reúso. Os desperdícios contabilizados ao longo da história e a impressão de recursos fartos e inacabáveis, já não fazem parte do nosso cenário atual. Nossas preocupações sobre a real finitude da água são realidade inquestionável. Incluir no cálculo dos investimentos os riscos da escassez cada vez mais presente, e os custos para tratamento da água no processo industrial, bem como formas de reutilização, são processos já absorvidos por parte da indústria, ainda que o Brasil não tenha uma legislação nacional para regulamentar essa prática. Providenciar uma lei nesse sentido é outra de nossas urgências, tanto quanto promover um choque de saneamento básico no País. Já não é cabível trabalharmos com tecnologias de reúso do século XXI (que devem ser ampliadas), e em outra frente estarmos estacionados no século XIX, no que diz respeito ao tratamento dos nossos esgotos.

Na mesma linha, a terceira das nossas urgências é a nossa relação com a economia circular como um todo, e não somente em relação à água. O consumo consciente, o uso eficiente dos recursos naturais, a reciclagem possível de todos os materiais, a reutilização de produtos, seja nos processos industriais ou na vida individual, devem ditar as regras de um país que mira a sustentabilidade. Esse conceito já deveria ter deixado de ser urgente para ser presente e constante em nossa realidade. Temos visto em muitos casos a substituição da propriedade pelos serviços, como os carros por exemplo, que nos aponta ser uma tendência irreversível e a ser expandida para os mais diversos setores.

Essas três urgências fazem parte de documento mais amplo que o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) está preparando para levar aos presidenciáveis como pontos fundamentais a serem enxergados para preparar o País para um mundo sustentável. Um mundo que não é só de futuro, mas que se faz urgente no presente.

* Artigo originalmente publicado no Jornal do Brasil.



Marina Grossi

Informações do Autor

Marina Grossi

Marina Grossi é economista e assumiu a presidência do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) em 2010. No CEBDS desde 2005, Marina atuou como diretora-executiva e coordenadora das Câmaras Temáticas de Mudança do Clima e Energia, Construção Sustentável e Finanças Sustentáveis. Possui um vasto currículo ligado à área governamental, atuando como negociadora do Brasil na Conferência das Partes (COP) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP do Clima) entre 1997 a 2001, e como coordenadora do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas entre 2001 e 2003. Participou das negociações do Protocolo de Kyoto e representou o Grupo dos 77 (G77) mais China na área de Mecanismo Financeiro na COP 6 ½ (segunda fase da COP 6) que ocorreu em Bonn, Alemanha. Foi assessora do Ministério da Ciência e Tecnologia, na Coordenação de Pesquisa em Mudanças Globais, e na Coordenadoria de Comunicação Social e chefiou a Assessoria Internacional da Televisão Educativa (Funtevê).