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Setor empresarial aponta integração de ações como saída para crise hídrica

Data: 26/04/2017

Área: Água

O Fórum Água de Engajamento Empresarial foi realizado nesta terça-feira (25/04), em Brasília (DF), e reuniu especialistas e empresas de diferentes setores para discutir um tema-chave: a gestão eficiente dos recursos hídricos em um cenário de escassez. Os debatedores trouxeram uma série de experiências que vem sendo desenvolvidas com este propósito, mas foram unânimes em apontar que é preciso uma maior integração entre sociedade civil, governos e iniciativa privada para que as ações já em curso sejam aprimoradas, ganhem escala e sirvam de base para a criação de novas soluções.

O evento, que atraiu cerca de 110 pessoas ao Centro de Convenções Ulysses Guimarães, foi uma iniciativa do Grupo Focal de Sustentabilidade do 8º Fórum Mundial da Água, realizada pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) com patrocínio da Braskem e Coca-Cola.

Na abertura, a presidente do CEBDS e também líder do Grupo Focal de Sustentabilidade do Fórum, Marina Grossi, destacou que o dilema de abundância e da falta de água, advindo dos problemas climáticos-ambientais ou de má ou falta de gestão, se aprofunda no Brasil, fazendo com que este tema seja cada vez mais discutido.

“Sabemos que grande parte do desafio se encontra não necessariamente no campo do desenvolvimento de tecnologias, mas sim no campo da comunicação, do compartilhamento e da capacitação. Por isso, realizamos este evento para aproximar o setor empresarial e, ao mesmo tempo, engajá-lo no 8º Fórum Mundial da Água, que acontecerá em 2018 no Brasil. Este são espaços ideais para se discutir como ampliar o potencial dessas soluções”, afirmou.

O presidente do Conselho Mundial da Água, Benedito Braga, também participou da abertura e ressaltou a importância do setor empresarial. “Dada a escala dos desafios hídricos o setor empresarial precisa se engajar no sentido de considerar práticas sustentáveis no uso da água tais como, reciclagem, reúso, aumento da eficiência do uso da água nos seus processos produtivos”, disse.

Após a abertura do evento, foram realizados três painéis: Segurança Hídrica (riscos, acesso e mudanças climáticas); Alocação e Oferta (cenário e projeções, economia circular e cidades); e Desenvolvimento (finanças, água na agricultura e na indústria).

Confira a abertura e o primeiro painel do evento:

Segurança Hídrica

No primeiro painel, mediado pela jornalista Giuliana Morrone, o gerente de Desenvolvimento Sustentável da Braskem, Mário Pino, falou sobre o projeto Aquapolo que, entre 2014 a 2016, permitiu a companhia reutilizar 25 milhões de m³ de água, liberando o consumo de água potável para a região do Grande ABC, em São Paulo, em um volume equivalente a 10 mil piscinas olímpicas. Pino, porém, afirmou que ainda são necessários muito mais esforços para a garantia da segurança hídrica. “A pior solução é não fazer nada, a melhor solução é envolver todos”, destacou.

O professor titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), José Antônio Marengo, ressaltou que os fenômenos naturais estão acontecendo com mais frequência e é necessário que a população não ache que a água é infinita. “Se não nos preparamos para o presente, imagine o futuro” refletiu.

O Diretor de Valor Compartilhado da Coca-Cola do Brasil e diretor do Instituto Coca-Cola Brasil, Pedro Massa, destacou a importância da cooperação no setor privado e citou o trabalho integrado entre Coca-Cola e Ambev, concorrentes no mercado de bebidas, mas que trabalham juntas na proteção de nascentes nas bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ). “Essa é uma causa maior do que qualquer vaidade empresarial. O setor tem o potencial de elaborar uma agenda única”, sustentou.

Alocação e oferta

No segundo painel do evento, também moderado por Morrone, a coordenadora de Projetos do 2030 Water Resources Group /International Finance Corporation (IFC), Júlia Cadaval, apresentou a ferramenta de análise hidro-econômica utilizada pelo projeto 2030 Water Resorces Group para criar um portfólio de soluções envolvendo intuições financeiras. “Não queremos que a plataforma seja apenas de discussão, mas sim que possa gerar ações e resultados concretos que ajudem a engajar de forma integrada governos e empresas ”, acrescentou.

A assessora da presidência da Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento (Sanasa), Adriana Leles, falou do trabalho de sua empresa em Campinas, cidade que hoje trata 92% de seu esgoto, índice bastante elevado para os padrões brasileiros. Adriana Leles defendeu a criação de metas e padrões para o saneamento. “Atualmente o Brasil não possui [metas]. A regularização poderia ajudar a minimizar as desigualdades entre as cidades nessa área”, explicou.  

O assessor sênior do World Business Council For Sustainable Development (WBCSD), Philippe Joubert, explicou a conexão entre água e energia. “A água é fundamental para energia, principalmente para as termoelétricas. Na Índia, já se fecha termoelétricas por causa da falta de água e não de carvão”, exemplificou. Outro tema destacado por Joubert foi o problema de poluição nos lençóis freáticos, cuja responsabilidade é compartilhada por distintos atores que, muitas vezes, não dialogam entre si. “A situação é dramática, não temos dados e os lençóis não possuem fronteiras. Esse é um tema que sugiro para discussão do Grupo Focal de Sustentabilidade que vejo como fundamental e urgente”, apontou durante o painel.

A água na agricultura, na indústria e finanças
Com a moderação do coordenador da Rede de Recursos Hídricos da Indústria da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Percy Soares, o último painel foi aberto pela fala do presidente da Câmara Setorial de Equipamentos e Irrigação da Abimaq, Marcus Henrique Tessler, que destacou a agricultura consome bastante água, mas o retorno dado pelo gasto é positivo. “20% da área irrigada corresponde a 40% de alimentos produzidos” explicou.

Tessler afirmou que o aumento da discussão em torno do tema água e a série de iniciativas concretas que tem sido desenvolvidas em todo o mundo são razões para deixa-lo otimista. “Existem empresas hoje que tem dentro delas divisões agronômicas que cuidam apenas do uso correto dos recursos hídricos”, exemplificou.

A gerente de Sustentabilidade do Itaú, Maria Eugênia Taborda, apontou que a crise hídrica brasileira de 2014 e 2015 ajudaram os bancos a avançarem nos estudos dos impactos causados pela escassez de água. “Segundo o estudo feito pelo Itaú o impacto econômico da seca no país seria de 1% no PIB brasileiro” disse. Ela salientou que o setor financeiro está incorporando cada vez mais a avaliação do risco hídrico em seus negócios e falou sobre o uso da ferramenta Water Stress Testing, em projeto desenvolvido pela GIZ com colaboração do CEBDS. “Concluímos que, no Brasil, de 60 a 90% das empresas teriam um down rating [se o risco hídrico fosse computado]”.

Para que esses processos de avaliação sejam aperfeiçoados, Maria Eugênia Taborda defendeu que as empresas e governos evoluam em suas metas, indicadores e reportes para a gestão hídrica. “Precisamos de mais transparência e dados para que possamos olhar, não só o histórico, mas também medir a evolução dessa gestão”, declarou.

A gerente de sustentabilidade da Ambev, Andrea Matsui, salientou que sua empresa alcançou o patamar de cervejaria com o uso de água mais eficiente do Brasil, chegando a reduzir em 25% a captação de água em uma unidade fabril em Jaguariúna (SP). “Em seguida chegamos à conclusão que o próximo passo era o compartilhamento de soluções e disponibilizamos online gratuitamente, para pequenas e medias empresa de vários setores, o Sistema de Autoavaliação de Eficiência Hídrica (Saveh)”, disse. Andrea Matsui também falou sobre o projeto Água Ama, onde 100% do lucro obtido com a venda de água mineral é reinvestido na geração de água para comunidades carentes.

Ao final do evento, a diretora de Águas do WWF Global, Karin M. Krchnak, agradeceu a participação de todos no evento, elogiou as iniciativas ali expostas e a disposição do setor empresarial em contribuir com uma questão tão urgente em todo o mundo. “O setor privado deve ser visto como parte da solução. A água é um bem comum e encontraremos soluções sustentáveis em ação coletiva”, concluiu.

 



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