Artigo

30/10/2019

ARTIGO | Água, cultura e educação

ARTIGO | Água, cultura e educação

Silvana Gontijo - escritora, jornalista, pesquisadora especialista em midiaeducação e presidente da OSCIP Planetapontocom

Quando fui convidada pelo Felipe Cunha para escrever esse artigo falando sobre “o papel da educação e da cultura para segurança hídrica” imediatamente me lembrei de um garotinho de 8 anos que resumiu a questão em uma única afirmação.

– Tia, isso não é um rio, é um valão. Aqui a gente joga o lixo e ele vai embora.

Zeca parecia horrorizado com a ignorância de sua professora.

Uma semana antes, na escola municipal preparava-se a primeira visita ao rio mais próximo e todos estavam excitadíssimos. Estávamos no segundo bimestre de 2014 e o Rio de janeiro comemorava seus 450 anos.  Queríamos celebrar a data aplicando a tese Educação Com e Através de Causas, um novo modelo de ensino que desenvolvemos a partir da crença de que é preciso, cada vez mais, associar conteúdos curriculares às vivências dos estudantes. Nossa organização, o “planetapontocom”, cuja missão é desenvolver soluções inovadoras para a educação pública brasileira, há algum tempo vem implementando uma série de iniciativas para “capturar” a atenção dos nossos estudantes e engajá-los na aventura do conhecimento. Tarefa cada vez mais complexa levando-se em conta que competimos com as mais instigantes experiências touches ou clicáveis, embarcadas nos diferentes devices do mundo digital.

Além de incorporar essas mídias e suas linguagens no nosso fazer pedagógico percebemos que era preciso mais. Em primeiro lugar, romper com o rigor das disciplinas em suas caixinhas separadas e desenvolver metodologias e estratégias inter e transdisciplinares. Nossa experiência mostrava que causas relevantes despertam o interesse de crianças e jovens pelo aprendizado acadêmico, pelo exercício da cidadania, pela vivência de sua cultura, suas diferentes formas de expressão e, em última análise, sua identidade.

Foi então que vislumbramos a possibilidade de juntar duas oportunidades: implementar uma ação pedagógica inovadora associada a uma causa relevante e salvar o rio da fundação de nossa cidade o rio de todos os cariocas. Rio esse que, por alguns séculos, foi a principal fonte de água potável de seus moradores e de abastecimento dos navios que aqui aportavam: o Carioca.

Motivados a redescobri-lo, crianças e jovens foram à luta, literalmente.  
Pesquisaram, e descobriram muitas histórias encantadoras. Para começar o nome do rio e suas quatro versões para explicar a etimologia da palavra carioca.  Depois foram constatando que os primeiros chafarizes da cidade eram servidos por suas águas cristalinas, às quais os Tupinambás atribuíam o poder de embelezar as mulheres que nelas se banhavam e conferir mais virilidade aos homens que a bebiam. Descobriram também que a maior obra de engenharia, da América Latina, no século XVIII foi a construção do aqueduto da Lapa usado para levar as águas do rio até o largo junto ao Mosteiro de Santo Antônio onde fora instalado o Chafariz do Largo do Carioca, (hoje Largo da Carioca) para abastecer a cidade que crescia desde o Morro do Castelo. Mas o que mais os surpreendeu foi descobrir um legado de valor inestimável: a grande estiagem de 1860 gerou uma crise de abastecimento e justificou o replantio da maior floresta urbana do mundo, a Floresta da Tijuca.

Quanto mais pesquisavam e descobriam histórias, mais o rio Carioca se transformava em sujeito, em personagem e em protagonista.

Finalmente era chegada a hora de conhecer esse ilustre inspirador que foi por tantos artistas e intelectuais pintado, fotografado, poetizado, filmado e descrito em livros, canções e artigos.  E foi quando pudemos registrar a decepção das turmas de 1º. 2º. e 3º. olhando desolados para o que esperavam ser aquele rio de águas puras e cristalinas correndo no seu leito de pedras roliças, rodeado da vegetação exuberante da mata atlântica original tão bem retratada por Felix-Émile Taunay.

O Zeca tinha razão, aquilo não era nada do que a história contava.

O mesmo rio que fornecia água potável aos habitantes do Rio, os cariocas, esquecido e abandonado estava sendo usado como depósito de lixo e esgoto por esses mesmos moradores.

Diante de tanta decepção só restava à coordenadora pedagógica propor uma saída.

 _ Zeca, ele está um valão, mas ele é um rio, o nosso Carioca.  Ele virou um depósito de lixo, mas podemos mudar isso, se quisermos. Lembra da música dos Saltimbancos? “Todos juntos somos fortes não há nada a temer”.

E para ajudá-los a equipe do planetapontocom estava ali. Nosso primeiro passo foi mobilizar docentes e gestores das vinte e sete escolas públicas e privadas instaladas na bacia do Carioca para conhecerem o seu rio mais próximo. Em seguida liderar a ação das comunidades na sua recuperação e identificar os apaixonados pelo Carioca: escritores, historiadores, fotógrafos, músicos, cineastas, artistas plásticos, designers, atores, acrobatas e o principal, os técnicos e cientistas – sanitaristas, biólogos, hidrologistas, urbanistas, engenheiros florestais, engenheiros civis, economistas, comunicadores, especialistas em patrimônio histórico e cultural e ecologistas de diferentes áreas.

Na sequência convidamos a imprensa e foi aí que o movimento ganhou visibilidade e força. Hoje o Carioca, o rio do Rio, é um movimento da sociedade civil organizada, que luta pela recuperação e renaturalização do rio que dá nome a quem nasce na cidade do Rio de Janeiro. Foram muitas atividades e também muitas conquistas. Realizamos mais de 40 encontros e dois seminários que resultaram na definição de um plano de ação e em metas a serem alcançadas. Mapeamos e reunimos em um acervo próprio documentos, teses, artigos, mapas, fotos, vídeos e podcasts sobre a história e o monitoramento socioambiental da bacia. Conseguimos a canalização dos esgotos da parte visível do rio, fizemos três mutirões de limpeza dos resíduos sólidos, apoiamos a criação da cooperativa de reciclagem dos jovens da favela dos Guararapes, levantamos as condições do patrimônio histórico e cultural e hoje, em parte graças ao nosso trabalho, o reservatório da Mãe D’água foi restaurado. Empreendemos inúmeras ações de educação ambiental e recentemente conseguimos o tombamento do rio Carioca como patrimônio histórico e cultural, em parceria com o INEPAC.

Pessoalmente participei de muitas atividades como algumas feiras de ciência, exposições de arte, mostras de trabalhos de crianças e jovens usando uma variedade de formas de expressão como a música, a poesia, o teatro, desenhos, vídeos e  textos, muitos textos.

Mas a maior conquista, a meu ver, foi o aprendizado significativo de nossas crianças e jovens ao descobrirem que aprender conteúdos como geografia, história, matemática, língua portuguesa e ciências da natureza não era inútil e tinha tudo a ver com seu cotidiano e sua realidade. Graças a isso puderam protagonizar e liderar aquele processo de transformação social: o salvamento do rio Carioca. E descobriram, na prática, que também podem mudar o mundo defendendo suas causas. 

Ganhando escala

O passo seguinte foi sistematizar essas experiência para disseminar nas redes públicas transformando-as em políticas públicas[1] e produzir os objetos de ensino e aprendizagem e os conteúdos de formação continuada dos professores. 

Criamos o programa Cidades salvem seus rios, um novo método de ensino que contempla a educação infantil, o Ensino Fundamental 1 e o Ensino Fundamental 2 que começa a ser aplicado no próximo ano letivo, em nossa cidade, com o nome Esse Rio É Meu. O Cidades, salvem seus rios enquadra-se na filosofia central que é a de criar uma motivação para o aprendizado, o trabalho em equipe e estimular o sentimento de pertencimento e importância. 

Hoje o município do Rio de Janeiro está se preparando para que cada uma das 1537  escolas, da rede municipal de ensino possa trabalhar na recuperação e preservação de seu rio mais próximo, ao mesmo tempo em que desenvolve as competências sócio emocionais de seus estudantes e integra currículo, com a Base Nacional Comum Curricular e com o exercício da cidadania.

Faltam recursos financeiros e humanos, mas não falta vontade de mudar.

Vamos em frente e, como diria o Betinho, o tripé mídia, cultura/educação e sociedade civil organizada é imbatível.


[1] Em 22 de abril de 2019 foi votada pela Câmara Municipal do rio de Janeiro e sancionada a Lei nº 6.535 que dispõe sobre a criação do Projeto Esse Rio é Meu no âmbito das escolas da Rede Municipal de Ensino.