Artigo

25/09/2019

ARTIGO | Escassez da água: avaliação de riscos e de oportunidades

ARTIGO | Escassez da água: avaliação de riscos e de oportunidades

André Villaça Ramalho – Especialista de Sustentabilidade na Braskem

De todas as alterações potenciais previstas para os próximos anos devido às Mudanças Climáticas, a escassez da água é provavelmente a mais fácil de se observar e a mais transversal entre diferentes tipos de negócio (agronegócio, indústria química, bebidas e alimentos, energia, etc.). Como insumo básico, ela faz parte de processos e produtos (muitas vezes parte e outras o próprio produto), portanto sua manutenção em quantidade e qualidade é essencial para a sustentabilidade empresarial e da economia.

E é justamente essa manutenção que vem sendo ameaçada por fatores como aumento de demanda, aumento da carga de poluentes, desmatamento em nascentes e em margens de rios e alterações climáticas regionais ou globais, entre outros.

Por mais óbvia que seja a nossa conexão com esse bem e considerando que há na sociedade e nas empresas uma noção mínima do risco quanto ao seu uso, o que se observa é que essa noção, na grande maioria dos casos, não se traduz em ações transformacionais de processos internos ou externos (cadeia e partes interessadas regionais) e tampouco levado à construção de soluções coletivas significativas. Com base em minha experiência de alguns anos nessa agenda e atendendo a fóruns nacionais e internacionais, concluo que muito se deve ao não conhecimento, conexão e concretização dessa noção de risco em algo tangível.

Escassez da água e produtividade

A não tangibilização do risco causado pela escassez da água, sob o ponto de vista da produtividade e do rendimento dos negócios, somado a uma visão de curto prazo e a uma agenda ainda muito individualizada (herança da competitividade comercial), impede que as empresas invistam, inicialmente, em eficiência e gestão do uso. E, mais que isso, impede que elas avancem em agendas coletivas pré-competitivas junto à sociedade civil e que beneficiam a bacia hidrográfica como um todo, adotando o conceito “da nascente ao mar”.

Países em desenvolvimento como o Brasil ainda trazem um desafio adicional que incluem: baixa estrutura de gestão institucional das bacias, falta de dados e clareza da captação geral de água pelos seus diversos usuários e o baixo custo da água em si (para além do tratamento e distribuição). Esse último aspecto é o que torna tão desafiador implementar projetos como os de reúso de água tendo esgoto como insumo ou projetos de dessalinização.

Como mudar esse panorama de risco hídrico?

Entendo que o primeiro passo é um real conhecimento do risco hídrico e não mais uma noção superficial. É preciso olhar para o futuro, construir e compartilhar cenários climáticos (2030, 2040, 2050) e cruzar esses dados com as previsões de vazão, uso, demanda e qualidade da bacia, já que água é uma questão extremamente regionalizada. Usar e calibrar modelos futuros, e não somente basear em dados de ocorrências passadas, já que cada vez mais essas informações não estão servindo de base para projeções.

Mas, além disso, o que aprendemos na Braskem é a necessidade de se calcular a potencial perda de produtividade e a consequente perda financeira devido a problemas de redução de disponibilidade hídrica, para antecipar problemas e criar ações de adaptação. Para isso, é preciso que, além de um modelo climático, sejam assumidas premissas como a seguinte situação: se eu tiver nos próximos 10 anos uma restrição de 30% de água em 12 meses (não necessariamente seguidos) qual o impacto de perda de produção – 10%, 20%, 100%, por exemplo – e o quanto esse percentual afeta meus ganhos?

A Braskem calculou uma perda potencial de mais de R$ 200 milhões que foi evitada pelo projeto Aquapolo de reúso de água durante a crise de 2014/15 no Sudeste. Esse modelo agora baliza a avaliação de outros investimentos em fontes alternativas de água, considerando não uma lógica de retorno de investimento, mas sim uma de seguro, ou seja, o quanto eu posso pagar para evitar uma perda potencial futura maior que o investimento? Essa lógica pode ser aplicada com ajustes a qualquer linha de negócio.

Gestão de dados sobre o uso da água

O que ocorre é que nem sempre as empresas possuem estrutura, conhecimento, pessoas dedicadas e recursos para realizar essas análises sobre o uso da água. Aqui acredito estar a próxima oportunidade de atuação das grandes empresas que lideram o assunto. São elas que podem dar o suporte e capacitação necessária à sua cadeia ou àqueles que compartilham seu polo industrial ou bacia hidrográfica.

É algo que não precisa necessariamente envolver grandes custos, pois hoje já temos várias ferramentas gratuitas que dão um suporte inicial, como o Aqueduct, Aquarisk Filter, Water Risk Monetizer e o SaveH – essa última desenvolvida pela Ambev justamente com o propósito de dar esse suporte à sua cadeia e que se estende a qualquer empresa interessada.

Em 2018, a Braskem realizou um piloto com seus fornecedores utilizando essas ferramentas para aumentar o nível de awareness e ajudá-los na criação de um case interno para a alta liderança.

Engajamento da liderança na gestão hídrica

Mas não basta números e ferramentas de apoio à gestão hídrica. Outro aprendizado da Braskem é que o engajamento da alta liderança é um fator crítico de sucesso e que esse só é atingido quando o risco é tangibilizado e monetizado, o que significa colocar a questão água na linguagem do negócio.

Esse processo permite que metas sejam traçadas e que sejam permeadas pelos diversos atores que participam da gestão desse bem/insumo, desde as estruturas corporativas até as operacionais. Desse momento em diante, é possível criar um plano de ação para lidar com potenciais crises futuras, mitigando ou se adaptando a uma nova realidade, garantindo a perenidade do negócio. Traduzindo: é questão de sobrevivência e competitividade.

É importante ressaltar, no entanto, que olhar só para dentro não resolve.

Uso eficiente da água entre fornecedores

A empresa mais eficiente no uso da água pode ainda sofrer o mesmo impacto financeiro pela não adaptação de seus fornecedores (quebra nos insumos) ou de seus clientes (quebra na demanda). O ideal é que as empresas líderes (aquelas com maior conhecimento, recursos e impacto) monitorem ou passem a monitorar a situação da sua cadeia, usando ferramentas como o CDP Supply Chain para avaliar a gestão hídrica e também a maturidade dos fornecedores quanto ao entendimento do risco a que estão expostos.

A Braskem já verificou fornecedores, operando em bacias onde tem presença e consideradas de risco alto, não reportando nenhum risco. Isso liga um alerta sobre a necessidade de aproximação com o resto da cadeia e da construção de metas e planos de ação com parceiros que atuem em áreas com potencial de impacto alto.

Autoconhecimento sobre o risco hídrico

Por fim, o autoconhecimento de exposição ao risco hídrico de forma tangível, quantificada e com apoio da alta liderança aumenta o grau de maturidade e gestão das empresas. Isso permite que elas se abram às necessárias, porém ainda incipientes, ações coletivas pré-competitivas, sejam elas soluções baseadas na natureza (Green) ou soluções de infraestrutura mais tradicionais (Grey).

Até que se tenha uma real dimensão do que está em jogo é difícil imaginar uma predisposição para investimento na recuperação da vegetação de uma bacia hidrográfica ou pagar mais caro no m³ de uma água de reúso, ou ainda investir em processos como irrigação por gotejamento.

Há uma necessidade iminente de se investir na recuperação das bacias unindo Grey e Green, da mesma forma que há a necessidade de se buscar investimentos Grey de forma coletiva (plantas de reúso coletivo ao invés de individuais) e Green como solução alinhada a operação/negócio, ao invés de responsabilidade social. Contudo, essa necessidade só será atendida quando as empresas, de todos os portes, entenderem que ela existe e que ela é condição essencial para o seu negócio.

Concluo enfatizando a necessidade de ampliação do diálogo com a cadeia, que hoje está, de modo geral, fora do circuito dos grandes eventos nacionais e internacionais de clima, água e sustentabilidade. Falta levarmos para essa cadeia o que grandes empresas e líderes na agenda de água debatem e compartilham entre si. Ou seja, pegar todo esse rico conteúdo e conhecimento e democratizar nas regiões onde elas atuam, visando aumentar a resiliência de todos os atores, o que resultará em benefícios para a economia e para a sociedade, de maneira alinhada com as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Muito esforços já estão em curso, mas precisamos rapidamente aumentar o nível de coordenação, atração e participação de todos os setores acelerar a transição do pensar global agir local, com foco no agir!