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30/10/2019

Workshop debate reúso de água além da regulamentação

Workshop debate reúso de água além da regulamentação

Aquasfera

A necessidade de um novo marco regulatório para reúso de água no Brasil, atualmente em discussão no Congresso, é praticamente uma unanimidade entre especialistas como fator de segurança jurídica para investimentos nesse mercado. Porém, muito pode ser feito por empresas usuárias e operadoras do setor de água e saneamento, sem a necessidade de intervenção do setor público, de forma que essa tecnologia se consolide no país como fator de segurança hídrica.

Essa foi uma das principais conclusões do Workshop sobre Reúso de Água, realizado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), nesta terça-feira (29), na sede administrativa da Natura (Nasp), em São Paulo.

“Existe uma percepção de que, uma vez estabelecido o novo marco regulatório para reúso de água no Brasil, os investimentos vão imediatamente começar a acontecer, e não é bem assim. A questão é mais complexa, e envolve também o quanto a escassez está inserida como fator de risco nas empresas”, disse André Ramalho, especialista em Sustentabilidade na Braskem.

Durante o encontro, Ramalho apresentou resultados alcançados pelo Aquapolo, que é o maior empreendimento para a produção de água de reúso industrial na América do Sul, resultado de parceria entre a BRK Ambiental e a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). O empreendimento fornece por contrato 650 litros de água de reúso por segundo ao Polo Petroquímico da Região do ABC Paulista, e tem a Braskem entre os seus principais usuários.

Segundo Ramalho, por não ainda terem um entendimento claro sobre o risco da escassez de água para os seus negócios, as empresas não perceberam o retorno proporcionado pelo investimento em projetos de reúso. O custo ainda baixo da água no Brasil, observou, aumenta ainda mais essa dificuldade.

“É importante caracterizar o cenário Brasil, em não em países que já tem uma escassez natural. Como fazer alguém pagar mais caro? É mostrando o quanto ele perderia se não tivesse o recurso”, disse.

Oportunidade de investimentos em reúso

O Aquapolo foi a principal referência utilizada pela Firjan em estudo sobre oportunidades de investimento em reúso no estado do Rio de Janeiro. Os resultados do trabalho foram apresentados por Isaque Ouverney, assessor do Conselho Empresarial de Infraestrutura da Firjan.

O estudo levou em consideração um cruzamento de informações sobre demanda de água por instalações industriais e a da oferta de águas residuais em um raio de 10 quilômetros a partir das maiores estações de tratamento de esgoto no estado. O resultado foi a identificação de projetos que poderiam somar investimentos da ordem de R$ 2,2 bilhões.

“Existem oportunidades como um todo, concentradas principalmente na região metropolitana, como em Santa Cruz, e no norte fluminense. Temos muitas demandas industriais e grandes estações de tratamento. A gente tem usado esse trabalho para mostrar às empresas que existem um risco com a escassez, mas em áreas com polos industriais podemos pensar em soluções compartilhadas”, disse o assessor da Firjan.

Papel da regulamentação e do poder público

A coordenadora do Grupo de Recursos Hídricos do Banco Mundial no Brasil, Stela Goldenstein, afirmou que nem todos os aspectos envolvendo água de reúso precisam de regulação do poder público para serem implementados.

“O papel do estado é não atrapalhar e ampliar essa percepção da escassez do risco e da necessidade de investimento. No caso dos contratos entre empresas para utilização de água de reúso, por exemplo, não vejo essa razão para isso ser tratado no marco regulatório porque se trata de um contrato entre entes privados”, disse Stela Goldenstein.

O diretor do Departamento de Recursos Hídricos e de Revitalização de Bacias Hidrográficas da Secretaria Nacional de Segurança Hídrica do Ministério do Desenvolvimento Regional, Renato Saraiva Ferreira, disse que o reúso é um dos temas considerados na elaboração do Plano Nacional de Recursos Hídricos para o período de 2021 a 2040. Segundo Ferreira, a criação de estímulos para o reúso de água para projetos está mais relacionada à disponibilidade do recurso.

“Temos que ver em cada região do país onde o reúso vai ser utilizado, que tipo de regulamentação vai ser feita. Vai ser um debate com todos os setores. Tivemos um debate muito bom recentemente com a CNI. A questão não é a água ser cara ou barata. Nesse debate vamos escutar os setores e ver o estresse hídrico vamos ver o incentivo onde for maior”, disse.

Inovação tecnológica

A inovação tecnológica como fator de estímulo para o reúso de água no Brasil foi um dos assuntos abordados durante o workshop. A O2eco apresentou uma solução que consiste em placas constituídas por hidrocarbonetos inertes em água, que contém nanomateriais. O sistema promove a despoluição por meio da proliferação de bactérias benéficas que consomem materiais orgânicos e inorgânicos.

“A grande barreira da inovação de um modo geral é o custo, tanto do desenvolvimento do projeto quanto do benefício. Reúso envolve análise de riscos e nessa questão da inovação da tecnologia também. Mas, se eu tenho uma tecnologia que torna o uso dessa água viável, eu tenho uma redução de consumo e, portanto, uma inovação factível de acontecer”, analisou.

O local da realização do workshop também é um caso bem-sucedido de água de reúso. O Natura Nasp conta com duas cisternas com capacidade para armazenar até 500 mil litros de água de chuva, utilizada no sistema de irrigação e de vasos e mictórios. O sistema proporciona redução de 100% da água potável usada no paisagismo e diminuição de 60,5% de água potável para sanitários e vestiários.

Ao final do evento, o coordenador da Câmara de Água do CEBDS, Felipe Cunha, fez um balanço dos temas tratados e resumiu algumas das ações que serão realizadas pela organização no ano que vem, algumas delas em parceria com o World Business Council for Sustainable Development (WBCSD).

“A gente avançará nessa agenda de reúso no ano que vem. A ideia é que a gente tenha um roadmap sobre o tema, nesse mesmo caminho de políticas, incentivos econômicos e inovação tecnológica, além de novos modelos de negócios e como o Brasil pode avançar. Hoje foi um primeiro esboço disso que a gente vai desenvolver, também conectado ao roadmap global feito pelo WBCSD, do qual o Brasil foi convidado entre os países que vão fazer parte”, disse.