Acelerar o caminho da eficiência energética

Data: 20/03/2015

No Brasil, as edificações são responsáveis por 50% do consumo de energia e pela emissão de 1/ 3 dos gases de efeito estufa de uma cidade. Apesar do expressivo número, pouco vem sendo feito ainda. A grande maioria das edificações desperdiça relevantes oportunidades de poupar energia e incorre em custos por não considerar de maneira efetiva a eficiência energética em todas as fases da construção desde o projeto arquitetônico, passando pela construção até a utilização final. Dessa forma, não utiliza importantes avanços em novos conceitos, materiais, equipamentos e tecnologias construtivas, vinculados à eficiência energética.Esse tema está em discussão há pelo menos três décadas, quando entrou em pauta a formulação dos conceitos de sustentabilidade. No Brasil, há iniciativas relativamente antigas para estimular a eficiência energética, como o Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel), criado na década de 80, e o Programa Estadual de Conservação de Energia nas Edificações do Rio Grande do Sul, no início dos anos 90.Um pouco mais tarde, surgiram etiquetagens de qualidade de eficiência energética, primeiro para prédios comerciais e de serviços públicos, e depois para prédios residenciais. É o caso do selo LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), que comprova o grau de sustentabilidade em vários quesitos, entre os quais a eficiência energética.

No setor privado, além de reduzir o risco de investimento, a adoção de medidas de eficiência energética pode trazer resultado expressivo no curto prazo. De acordo com o relatório do Programa de Eficiência Energética do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), os prédios sustentáveis são 5% mais caros para serem construídos, mas proporcionam economia de cerca de 30% de recursos. Esses dados podem ser ilustrados com o caso da Lafarge que, após ter criado o My Low – Office Energy Project, estabeleceu uso médio de energia para 85% dos seus escritórios. Com ações simples, como ajustar o ar-condicionado, aproveitamento da luz natural e troca de lâmpadas, foi possível economizar 12% em menos de um ano. O tempo de retorno para o investimento feito foi de três meses.

Apesar de todas essas iniciativas, há muito a avançar para tornar o consumo de energia mais eficiente nas edificações já existentes e não há justificativa para não incluir em novas, num contexto de crise que deixa claro o valor dos recursos naturais. Com o objetivo de contribuir para que projetos como esses ganhem escala, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds) realizará em abril deste ano, no Rio de Janeiro, o Laboratório de Eficiência Energética em Edificações (EEB, na sigla em inglês).

Em parceria com o WBCSD, liderança da Lafarge e participação expressiva da Siemens e Schneider, o laboratório reunirá cerca de 40 especialistas, para diagnosticar as barreiras que bloqueiam a prática da eficiência energética nas edificações. As discussões vão focar em cinco áreas estratégicas: investimentos e financiamento, políticas e regulação, capacitação da mão de obra, retorno do investimento e compartilhamento/difusão de conhecimento. O objetivo desse trabalho é ter um plano de ação com os diferentes atores envolvidos para ser adotado na cidade do Rio Janeiro, escolhida por estar em um momento de grande visibilidade e novas construções por conta das Olimpíadas.

Essa iniciativa teve êxito em outras cidades do mundo, como São Francisco, Shangai, Varsóvia e Houston, e já apresentou resultados que mostram que 40 % de melhorias de eficiência energética podem ser alcançadas com um tempo de retorno de cinco anos, e adicional de 12%, com 10 anos de retomo. Essa experiência no mundo e a que vai acontecer por aqui podem ser replicadas e adaptadas a qualquer cidade brasileira. Assim como em outras áreas da atividade econômica, o modelo de construção civil sustentável precisa ser competitivo para aliar o custo e a qualidade de nossas edificações, reduzindo a níveis aceitáveis o consumo de energia, água e outros recursos naturais.

Com o objetivo de contribuir para que projetos como esses (sustentáveis) ganhem escala, o Cebds realizará em abril, no Rio, o Laboratório de Eficiência Energética em Edificações

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Marina Grossi

Informações do Autor

Marina Grossi

Marina Grossi é economista e presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) desde 2010 e membro do CPLC (Carbon Pricing Leadership Colalition) do Banco Mundial desde 2018. No CEBDS desde 2005, Marina atuou como diretora-executiva e coordenadora das Câmaras Temáticas de Mudança do Clima e Energia, Construção Sustentável e Finanças Sustentáveis. Possui um vasto currículo ligado à área governamental, atuando como negociadora do Brasil na Conferência das Partes (COP) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP do Clima) entre 1997 a 2001, e como coordenadora do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas entre 2001 e 2003. Participou das negociações do Protocolo de Kyoto e representou o Grupo dos 77 (G77) mais China na área de Mecanismo Financeiro na COP 6 ½ (segunda fase da COP 6) que ocorreu em Bonn, Alemanha. Foi assessora do Ministério da Ciência e Tecnologia, na Coordenação de Pesquisa em Mudanças Globais, e na Coordenadoria de Comunicação Social e chefiou a Assessoria Internacional da Televisão Educativa (Funtevê).

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