Impacto social e o valor além do lucro

Data: 03/06/2015

 

Toda empresa gera um impacto na sociedade, independente do setor em que atua e do serviço ou do produto que comercializa. Empresas mais intensivas localmente, como mineradoras, químicas ou de geração de energia, são historicamente mais cobradas e por isso já avançaram quanto à avaliação e gestão de seus impactos nas operações, afinal o dano causado à sociedade local é visível. Outros setores, por outro lado, não conseguem identificar e avaliar esse impacto com a mesma profundidade; uma empresa do setor de bebidas, por exemplo, pode ter impacto na sociedade relacionado ao consumo de seu produto eventualmente causando obesidade infantil ou embriaguez no volante pelo uso inadequado. O fato é que toda empresa deve se preocupar em entender como as pessoas são afetadas por suas operações, pois se a sociedade for contra o seu negócio, ele não irá prosperar.

Historicamente, a interface social do setor empresarial, um dos tripés da sustentabilidade, foi tratada como filantropia ou investimento social privado, como algo quase que independente do negócio principal da empresa. Até as décadas de 1990 e 2000, a relação da empresa com a sociedade era feita por meio de fundações empresariais ou parcerias com ONGs, sob a missão de “devolver” seu valor à sociedade.

Entretanto, tem ficado cada vez mais clara a importância de se adotar uma estratégia de negócio que esteja verdadeiramente vinculada às populações por ela afetadas, com retorno financeiro, mas também com o retorno social e ambiental das suas ações.

Fundações e ONGs já estão se reinventando. Ou a empresa consegue enquadrar sua atuação perante a sociedade ao que é de fato seu impacto social ou sua atuação social vai ficar cada vez mais esvaziada, tornando-se apenas um apêndice. Em tempos de crise, o apêndice é o primeiro a ser cortado.

O setor empresarial vem repensando a forma como atua socialmente e como as empresas são avaliadas perante a sociedade. O comportamento da empresa deve ser o de identificar seus impactos positivos e negativos e convidar a população impactada a construir conjuntamente uma estratégia de ação.

Algumas empresas de ponta já adotam estratégias de relacionamento social e de valor compartilhado, porque acreditam que não faz sentido produzir algo que não gere valor tanto para a empresa, quanto para a sociedade.

Nesse momento, no Brasil, existe uma demanda social por um maior engajamento e retomo social visível e tangível. Um grupo de empresas já atuantes neste segmento que querem ampliar o debate sobre novas práticas para o impacto social e querem aumentar o conhecimento sobre o tema, trazendo atores como o governo e representantes da sociedade para o diálogo, a fim de construir conjuntamente novas estratégias. Obter um consenso sobre o que é o impacto social é um primeiro passo para que as formas de avaliá-lo possam avançar. Também será preciso discutir e definir melhores ferramentas, metodologias e ações para mensurar o impacto social e disseminar melhores práticas.

A cooperação com o poder público e com o setor financeiro ajuda a criar um ambiente de sintonia entre as estratégias corporativas, seu financiamento e a legislação no que tange às relações com as comunidades impactadas pelo negócio.

Todos os negócios deveriam ter um propósito social que fosse além do retorno financeiro e mensurar o impacto social é fundamental para avançarmos em direção de um mundo mais sustentável e, portanto, mais justo. Esse conceito, ainda que incipiente, deixa claro que os negócios que não adotarem essas práticas vão perder competitividade. É preciso acreditar no valor além do lucro.

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Marina Grossi

Informações do Autor

Marina Grossi

Marina Grossi é economista e presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) desde 2010 e membro do CPLC (Carbon Pricing Leadership Colalition) do Banco Mundial desde 2018. No CEBDS desde 2005, Marina atuou como diretora-executiva e coordenadora das Câmaras Temáticas de Mudança do Clima e Energia, Construção Sustentável e Finanças Sustentáveis. Possui um vasto currículo ligado à área governamental, atuando como negociadora do Brasil na Conferência das Partes (COP) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP do Clima) entre 1997 a 2001, e como coordenadora do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas entre 2001 e 2003. Participou das negociações do Protocolo de Kyoto e representou o Grupo dos 77 (G77) mais China na área de Mecanismo Financeiro na COP 6 ½ (segunda fase da COP 6) que ocorreu em Bonn, Alemanha. Foi assessora do Ministério da Ciência e Tecnologia, na Coordenação de Pesquisa em Mudanças Globais, e na Coordenadoria de Comunicação Social e chefiou a Assessoria Internacional da Televisão Educativa (Funtevê).

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