Uma nova variável no mundo dos negócios

Data: 12/11/2013

Por Marina Grossi e Fernanda Gimenes*

E apenas uma questão de tempo. Em breve estará em vigor uma nova legislação para regular e cobrar o uso dos recursos naturais. O impacto da utilização da biodiversidade e dos ecossistemas será economicamente contabilizado, passando a fazer parte da estratégia de negócios de empresas que tenham a ambição de permanecer no mercado no longo prazo.

A inclusão dessa nova variável ao mundo dos negócios representa mais um desafio no processo de construção do desenvolvimento sustentável. No relatório lançado pela ONU em 2010, “A Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade” (TEEB), especialistas estimaram os impactos negativos de três mil empresas nos recursos naturais em cerca de US$ 2,2 trilhões em 2008. Em outras palavras, essa cifra astronômica foi o prejuízo causado à sociedade global naquele ano com os danos causados a ativos ambientais – como perda de biodiversidade, contaminação da água e do ar, regulação do clima, entre outros.

Para atender a essa nova demanda, ou seja, capacitar as empresas para que saibam aferir o impacto e a dependência de sua atividade no meio ambiente, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) está coordenando o projeto Parceria Empresarial pelos Serviços Ecossistêmicos (Pese), em conjunto com o Centro de Estudos em Sustentabilidadeda Fundação Getúlio Vargas e o WRI (World Resources Institute). A iniciativa tem ainda o apoio da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid, sigla em inglês).

Dessa experiência piloto, participam sete grandes empresas – Anglo American, Danone, Grupo André Maggi, Natura, Pepsico, Votorantim e Wal-Mart. A metodologia escolhida foi a ESR (Corporate Ecosystem Services Review), desenvolvida pelo WRI em parceria com o Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD, sigla em inglês) e Meridian Institute.

A Mondi, maior companhia européia de papel e celulose, utilizou a metodologia em três plantações da empresa na África do Sul, e colheu resultados expressivos. A aplicação da ferramenta indicou estratégias para a empresa ampliar o acesso à água doce, melhorando a qualidade das bacias hidrográficas regionais e diminuindo o risco de estresse hídrico. Além disso, a Mondi estreitou suas relações com a comunidade local e reduziu custos operacionais. O resultado positivo tanto na dimensão econômica como social e ambiental da experiência da Mondi na África do Sul pode explicar por que é cada vez maior o nível de compreensão entre os líderes empresariais de que a integração da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos gera benefícios na cadeia de valor das corporações.

Outro bom exemplo vem da índia. A Syngenta, uma das líderes mundiais na área do agronegócio, aplicou o ESR em pequenas fazendas daquele país. A ferramenta ajudou a empresa a identificar os riscos aos seus clientes devido à degradação do ecossistema local, como o declínio na capacidade dos predadores naturais de conter surtos de pragas e redução da fertilidade do solo.

Essas constatações foram comprovadas por um levantamento feito pelo CEBDS junto a 22 grandes empresas associadas de dez diferentes setores da economia – energia, serviços, mineração, papel e celulose, óleo e gás, holding multissetorial, agrícola, química, equipamentos e cosméticos. Basicamente, são quatro fatores que levam as empresas brasileiras consultadas a incorporar os serviços ecossistêmicos aos seus sistemas de gestão: oportunidades para os negócios (90%); dependência dos negócios em relação aos serviços ecossistêmicos (70%); melhoria da imagem (65%); e redução de riscos (65%).

Não temos dúvidas de que o legado do projeto piloto da PESE será de grande relevância para o setor empresarial brasileiro e para o próprio país. O Brasil, com tantas hotspots de biodiversidade e a maior floresta tropical do mundo, tem amplas possibilidades de encontrar o caminho para um modelo de desenvolvimento que seja lucrativo e sustentável.

 

*Marina Grossi é presidente do CEBDS e Fernanda Gimenes e Coordenadora da Câmara Temática de Biodiversidade e Biotecnologia

 

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CEBDS

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