ESG: as três letras que estão mudando os investimentos

Data: 23/05/2019
  • Marina Grossi, presidente do CEBDS
  • Luke Blower, representante do programa de redefinição de valores do WBCSD

 

Melhores práticas ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês, como são conhecidas internacionalmente) vêm recebendo atenção mundial por estarem associadas a negócios sólidos, baixo custo de capital e melhor resiliência contra riscos associados a clima e sustentabilidade.

Companhias e investidores no Brasil estão finalmente começando a prestar atenção a esse tema, e por boas razões, principalmente após o acidente da Vale em Brumadinho (MG), no início deste ano.

Mas o que isso significa para o ambiente de negócios no Brasil?

Isso não significa, é claro, que os conselheiros das empresas começarão a abraçar árvores ou adotar outros estereótipos ecológicos. ESG é um termo que está sendo cada vez mais utilizado por consultores financeiros, bancos e fundos de investimento para avaliar empresas de acordo com seus impactos e desempenho em três áreas: meio ambiente, sociedade e governança.

Governança e sustentabilidade

De acordo com recente pesquisa, investidores estão contando cada vez mais com informações ESG na procura por dados de grau de investimento para apoiar seus processos de tomada de decisões, com foco em governança, direitos humanos e mudanças climáticas. E utilizando esses parâmetros como lente para investimento futuro potencial.

Isso acontece porque os critérios ESG ajudam a prover investidores com mais informações sobre as companhias onde eles estão alocando capital. Métricas ambientais ajudam o investidor a entender o relacionamento da empresa com o mundo natural e a sua dependência de recursos naturais. Métricas sociais ajudam os investidores a entender onde potenciais preocupações podem em relação a direitos humanos, relações trabalhistas, comunidades e com o público. Companhias com boa governança são mais confiáveis e menos propensas a ceder para corrupção ou coerção.

Os riscos relacionados a ESG não são novos.

Indicadores de sustentabilidade

Por muito tempo, grandes empresas, organizações, governos e investidores consideraram os riscos “G” (governança), com foco em aspectos como contabilidade financeira e relatos de práticas, o papel de liderança do conselho e sua composição, corrupção, éticas de negócios e remuneração de executivos. Porém, na última década, a influência da parte “ES” (ambiental e social) aumentou consideravelmente.

Em complemento ao crescimento no número e na qualidade de questões ambientais e sociais que as empresas têm que reportar, a quantidade de indicadores internos relacionados a governança que também devem ser observados também aumentou.

Em 2018, 85% das companhias listadas no índice S&P 500, da Bolsa de Nova York, produziram alguma forma de relato ESG. Houve também um aumento de requerimentos regulatórios relacionados a tais parâmetros, totalizando mais de 1 mil em 63 países.

Assim sendo, reguladores e mercados de ações também estão respondendo às crescentes demandas de investidores por informações ESG padronizadas associadas a desempenho financeiro.

Em 2017, as Diretrizes de Relatórios Não-Financeiros da União Europeia passaram a requerer empresas com operações nos estados membros a preparar uma declaração contendo informações sobre proteção ambiental, responsabilidade social e tratamento de funcionários, respeito a direitos humanos e combate a corrupção.

No mesmo ano, Cingapura introduziu regras para preparo de relatório anual de sustentabilidade, com identificação de fatores ESG, políticas, práticas, desempenhos, metas e declaração dos conselhos de administração. As bolsas do Nasdaq Nórdico e do Báltico lançaram orientações voluntárias em março de 2017.

ESG no Brasil

No Brasil, os parâmetros ESG estão em seu estágio inicial. As áreas que cuidam do assunto nas empresas são pequenas, quando existem, e a maior parte delas respondem a demandas de investidores globais localizados fora do Brasil, que estão integrando esses parâmetros em seus próprios processos de investimento.

Historicamente, investidores têm se concentrado em assuntos reputacionais e escândalos de corrupção. Consequentemente, a principal área de interesse para investidores brasileiros tem sido a governança corporativa.

Essa abordagem, contudo, começa a evoluir, e empresas que não consideram questões ambientais e sociais podem se submeter a impactos negativos em curto, médio e longo prazos.

Pesquisa recente do Instituto CFA sugere que nos próximos cinco anos, até 2022, os temas ambientais e sociais se tornarão significativamente próximos dos relacionados aos de governança em termos de importância.

O Brasil tenta um movimento na direção certa. A legislação garante proteção ao meio ambiente e existem uma série de iniciativas apoiando o desenvolvimento. Porém, há uma oportunidade para ir além. Companhias precisam entender seus impactos e a sua dependência da natureza e da sociedade e gerenciar riscos e oportunidades relacionados, enquanto se comunica de forma consistente com investidores.

Diretrizes da TCFD

Nesse contexto, as recomendações da Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD, na sigla em inglês) são um passo crucial. A TCFD ajuda empresas a dirigir atenção aos riscos físicos e de transição e oportunidades relacionadas às mudanças climáticas e como relatar esses riscos e oportunidades, bem como os esforços para gerenciá-los, para agentes financeiros.

Com o apoio do Conselho Mundial Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD), o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) realizou recentemente uma série de discussões e workshops para aumentar o entendimento das empresas brasileiras sobre essa transparência e as mudanças no gerenciamento de riscos, enquanto esboça potenciais soluções.

Com o CEBDS, a implementação da TCFD tem sido explorada na Câmara Temática de Finanças Sustentáveis, que inclui bancos públicos e privados (Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Santander, Caixa Econômica Federal, BNDES, BACEN, Banco Votorantim), mas tem sido abraçada por empresas que identificaram a TCFD como prioridade para este ano.

Em abril, o CEBDS, a Bloomberg e o WBCSD convocaram um diálogo para empresas do agronegócio sobre impactos relacionados a mudanças climáticas, bem como as mudanças associadas à implementação das recomendações da TCFD. Os temas-chave surgidos foram finanças e resiliência. Como as soluções inovadores podem ser comunicadas e financiadas? Como pode o agronegócio se preparar, adaptar e responder às mudanças climáticas?

O que ficou claro nas tendências globais recentes, bem como nas conversas nos workshops das últimas semanas é que os negócios que são líderes globais estão integrando riscos ESG, oportunidades, impactos e dependências relacionadas no processo de tomada de decisões e estão avisando seus stakeholders que eles estão em um caminho estratégico.

A oportunidade para os negócios brasileiros estão claras e significativas. O tempo de agir é agora. Visite o site www.wbcsd.org para saber mais.

Marina Grossi

Informações do Autor

Marina Grossi

Marina Grossi é economista e presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) desde 2010 e membro do CPLC (Carbon Pricing Leadership Colalition) do Banco Mundial desde 2018. No CEBDS desde 2005, Marina atuou como diretora-executiva e coordenadora das Câmaras Temáticas de Mudança do Clima e Energia, Construção Sustentável e Finanças Sustentáveis. Possui um vasto currículo ligado à área governamental, atuando como negociadora do Brasil na Conferência das Partes (COP) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP do Clima) entre 1997 a 2001, e como coordenadora do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas entre 2001 e 2003. Participou das negociações do Protocolo de Kyoto e representou o Grupo dos 77 (G77) mais China na área de Mecanismo Financeiro na COP 6 ½ (segunda fase da COP 6) que ocorreu em Bonn, Alemanha. Foi assessora do Ministério da Ciência e Tecnologia, na Coordenação de Pesquisa em Mudanças Globais, e na Coordenadoria de Comunicação Social e chefiou a Assessoria Internacional da Televisão Educativa (Funtevê).

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