Lideranças femininas discutem como tornar o mercado de trabalho mais inclusivo

Data: 06/09/2019
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A garantia da igualdade de gênero, além de direito fundamental, é base necessária para a construção de um mundo pacífico, próspero e sustentável, conforme indica o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5. Esse foi um dos consensos no painel Liderança Feminina, realizado no Seminário CEBDS 2019, que contou com a participação de Adriana Carvalho (ONU Mulheres), Ana Bavon (Business for People), Ana Lúcia Salmeron (Schneider Electric) e Maite Schneider (Trans Empregos). O debate teve a moderação da jornalista Flavia Oliveira.

A questão perpassa por diversos temas da agenda Visão 2050 e, além de legislação específica, demanda engajamento de toda a sociedade. O propósito é garantir a participação plena das mulheres e a igualdade de oportunidades para a liderança em todos os níveis de tomada de decisão na vida política, econômica e pública.

“Como podemos caminhar mais rápido para acabar com a desigualdade? O primeiro segredo é trabalhar em rede. Precisamos juntar todos os atores, pois um mundo mais igual é melhor para todos”, avalia Adriana Carvalho, gerente de projetos da ONU Mulheres.

Pesquisa divulgada pela Ipsos em 2018, realizada com 20 mil pessoas em 27 países, incluindo o Brasil, mostrou que para a maior parte das entrevistadas (32%) o maior problema enfrentado pelas mulheres é o assédio sexual, seguido de violência sexual (28%) e violência física (21%).  No Brasil, os maiores problemas apontados são os mesmos apresentados no resultado global, mas a ordem é diferente. 

Violência sexual lidera o ranking (47%), seguida por assédio sexual (38%) e violência física (28%). Chama atenção o fato de que para 61% das mulheres consultadas os relatos de assédio sexual são ignorados, gerando uma sensação de impunidade. A questão da igualdade salarial aparece em quinto lugar no ranking mundial, lidera em países desenvolvidos e no Brasil é o sexto problema mais importante enfrentado pelas mulheres.

Os dados comprovam, portanto, que há um longo caminho a ser percorrido. Dados da Women in Business, que ouviu mais de 5 mil executivos das 36 principais economia mundiais, apontaram que apenas 25% dos cargos de CEOs de empresas internacionais são ocupados por mulheres. No Brasil, são 16%.  

 “Tudo isso passa por uma palavra: respeito. Estamos longe, mas vejo avanços em respeito dentro das empresas. Precisamos convencer as lideranças a apoiar a equidade dentro das empresas”, disse Ana Lúcia Salmeron, diretora da Schneider Electric para a América Latina.

Desigualdade alarmante entre as mulheres negras

Segundo o IBGE, elas também são minorias em cargos de gerência (37%) e nos comitês executivos de grandes empresas (10%). A situação é ainda mais alarmante quando se trata de mulheres negras.  Pesquisa do Instituto Ethos mostrou que apenas 0,4% dos cargos executivos das empresas são ocupados por mulheres negras. Três em cada quatro profissionais de RH afirmam não haver demanda por profissionais negros para ocupar altos cargos nas empresas. 

Dados do IBGE divulgados em abril de 2018 mostram que as mulheres receberam apenas 77,5% dos rendimentos pagos aos homens  —  eles receberam R$ 2.410 e elas R$ 1.868. Há ainda o agravante de que, entre 2016 e 2017, essa diferença aumentou, ao invés de diminuir. Quando pensamos nas mulheres negras, a diferença é ainda maior: uma negra graduada recebe 43% do salário de um homem branco.

“Para falar de liderança feminina e equidade de gênero, precisamos entender que estamos falando de pessoas. O aprisionamento dos estereótipos é perigoso e aniquila a diversidade”, avaliou Ana Bavon, da Business for People.

A empregabilidade também é uma questão preocupante. No Brasil, 78% dos homens e apenas 56% das mulheres possuem emprego remunerado, segundo estimativas da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Porém, nem sempre ficar em casa é uma escolha da mulher. Outra pesquisa da OIT demonstra que a grande maioria das brasileiras gostaria de ter trabalho remunerado. Eliminar a diferença na taxa de participação laboral entre mulheres e homens acrescentaria 382 bilhões de reais à economia do país, ou 3,3% do PIB, diz a OIT.

Inclusão, equidade e diversidade nas organizações 

O CEBDS lançou este ano a publicação Quebrando muros e construindo pontes: inciativas empresariais de inclusão, equidade e diversidade.  Uma reunião de cases de empresas associadas ao CEBDS com iniciativas voltadas para a inclusão, a equidade e a diversidade, o que gera um ecossistema inclusivo. O trabalho é resultado de duas edições do Quebrando Muros, projeto do CEBDS de um espaço de diálogo entre empresas e sociedade, que abordaram a temática.

“A gente continua colocando rótulos, dando forças as palavras. Até quando daremos tanto peso e importância para as palavras e não para pessoas? Muitas pessoas nos procuram querendo colocar diversidade, sem trabalhar o ecossistema inclusivo”, afirmou Maite Schneider, co-fundadora do portal TRANSempregos.