Negociação global do Clima começa em Lima

Data: 01/12/2014
Area: Clima
Autor:
Categoria: COP, Energia e Clima

 

Nas próximas duas semanas, a atenção estará voltada para as negociações de clima na 20ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas (UNFCCC), cujos resultados irão se refletir nos avanços do Novo Acordo de Clima que será assinado no próximo ano, em Paris.

A esperança deste novo acordo é conseguirmos corrigir o gap de compromissos de redução de emissões de gases de efeito de forma a garantir que alcancemos a meta de limitar o aumento da temperatura a 2°C. Os atuais compromissos assumidos nos colocariam em uma realidade a mais de 3°C superior aos níveis pré-industriais. E para isto, todas as Partes da Convenção deverão assumir compromissos no Acordo de Paris e a definição destes já se iniciou por meio da elaboração das Contribuições Nacionalmente Determinadas que deverão ser apresentadas à UNFCCC em março de 2015.

É importante ressaltar que, apesar do mundo precisar de uma solução definitiva para a limitação das emissões de CO2, isto dificilmente será atingido com um novo compromisso. Isto porque, como é sabido, clima e economia estão diretamente relacionados e têm colocado, desde sempre, em lados opostos países desenvolvidos e países em desenvolvimento. Precisaremos, portanto, de bom senso, e muito bom senso.

Não podemos esperar que os compromissos no novo acordo de 2015 salvem o mundo. Mas devemos esperar que os países estejam dispostos a cooperar para, juntos, alcançarmos esse objetivo sim, por meio dos avanços, nos anos subsequentes à 2015, nos compromissos de redução de emissões, nos planos de adaptação à mudança do clima, na cooperação financeira e tecnológica, no aumento da transparência no cumprimento dos compromissos assumidos oficialmente e no desenvolvimento contínuo de capacitação para lidar com a mudança do clima.

Há menos de 30 dias atrás, tivemos um importante movimento dos dois principais emissores mundiais de GEE rumo a uma economia de baixo carbono. Estados Unidos e China assumiram, em um acordo bilateral, compromissos de redução de emissões. Os Estados Unidos assumiram a meta absoluta de redução de suas emissões de GEE entre 26%-28% em relação a 2005. Já a China, se comprometeu a atingir o pico de suas emissões antes de 2030.

Esse movimento certamente traz esperanças e é um sinal muito positivo para os demais países que vão se sentar à mesa de negociações, embora, tenhamos que observar ainda qual será a disposição de ambos em repetir esta pró-atividade em Lima. Deveríamos esperar que se ambos se comprometeram bilateralmente e acreditam que este Acordo seja de fato uma contribuição real aos esforços da UNFCCC, isto provavelmente ser repetirá em um Acordo Multilateral. Certo? Não sabemos. Primeiro porque a marca das negociações em clima tem sido, ao longo de todos esses anos, a polaridade entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento.

E, segundo, não nos esqueçamos de que o congresso americano, recentemente eleito, tem em sua maioria deputados republicanos. Cabe lembrar que foram esses mesmos republicanos os responsáveis pela não ratificação da Convenção, no Governo Bill Clinton, e pela saída dos EUA do Protocolo de Quioto, no Governo Bush. Passaram eles a reconhecer a existência da mudança do clima, dos riscos inerentes à humanidade e da urgência da tomada de decisões? Esta seria, sem dúvida, uma grande contribuição ao mundo!

Devemos também melhor avaliar quais são as contribuições reais desse acordo bilateral para a meta de limitar em 2°C o aumento da temperatura até 2100. Veja bem, todos os esforços em reduzir emissões são necessários, porém, eles devem também ser suficientes para atingir o objetivo dos 2°C e para isto é necessário que as emissões de GEE sejam de 22 gigatoneladas de CO2e em 2020 (hoje estão entre 38-47 Gt de CO2), ou seja, as emissões globais de CO2e deverão atingir o pico antes de 2020!

Só nos resta esperar até março de 2015 os detalhes desse acordo bilateral entre Estados Unidos e China e, enquanto isto, vamos acompanhar os avanços oficiais nas negociações climáticas em Lima nessas próximas duas semanas.

O CEBDS parte para Lima na próxima quinta-feira! E estarão na delegação do CEBDS as empresas Bradesco, Braskem, Cemig, Ecofrotas, Itaú, Schneider e Vale.

Nos encontraremos por aqui!



Raquel Souza

Informações do Autor

Raquel Souza

Raquel Souza é Assessora do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, desde 2012, onde coordena as Câmaras Temáticas de Energia e Mudanças Climáticas e a de Mobilidade Sustentável. Antes disto, foi analista de energia na Energia do Rio S.A., desenvolvendo projetos na área de petróleo e gás e, na analista na Celta Capital Sustentável em projetos de biocombustíveis e desenvolvimento sustentável. Também foi pesquisadora da COPPE em projetos de biocombustíveis, petróleo e gás e transportes. É economista com mestrado e doutorado em planejamento energético.