O protagonismo do Brasil na economia de baixo carbono

Data: 15/01/2019
Area: Clima
Autor:
Categoria: Clima, Economia

Artigo publicado originalmente no Projeto #Colabora.

Desde cedo, na escola, aprendemos sobre os nossos rios caudalosos, a biodiversidade única, a Amazônia como pulmão do mundo, os aquíferos subterrâneos e, mais recentemente, como a nossa abundância de sol e vento também podem ser fontes de energia. Não foi à toa que, em 1992, o Brasil sediou a ECO 92, Conferência da ONU que gerou frutos como a Agenda 21 e favoreceu a criação de instituições como o World Business Council for Sustainable Development, e, consequentemente, o seu braço brasileiro, o CEBDS (Conselho Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável). Já eram sinais do setor produtivo dialogando com o movimento ambientalista e os governos, em todas as suas instâncias.

Mais de 10 anos se passaram desde que o filme “Uma Verdade Inconveniente” ganhou o Oscar de melhor documentário, ampliando significativamente entre o público em geral não só o conhecimento do tema, mas a percepção mais clara sobre o tamanho do problema que todos nós temos pela frente. Tivemos em 2018 o quarto ano mais quente da história e as pesquisas científicas sobre os perigos da mudança climática se tornam mais convincentes a cada dia. Isso posto, vemos que a inexorável transição para a nova economia de baixo carbono já é realidade para muitas empresas, a despeito de discussões políticas que ainda existam, suscitando dúvidas a respeito deste caminho irreversível.

Se por um lado chegamos à porta da COP24, a Conferência do Clima, que aconteceu nas duas primeiras semanas de dezembro, em Katowice, na Polônia, lamentando a desistência do Brasil de ser a sede da próxima conferência em 2019, pudemos ali conhecer experiências edificantes das nossas associadas, debater profundamente os artigos do Acordo de Paris e ampliar nossa compreensão sobre a imensa complexidade da sustentabilidade em nossos dias.

Não tratamos mais apenas de emissões de carbono, economia circular ou desmatamento. Falamos disso, e muito mais. Falamos de empregos, reputação, negócios, diversidade. E tudo ao mesmo tempo.  Nossas empresas assumiram um papel de liderança nas transformações pelas quais nossos principais sistemas econômicos estão passando. Na Polônia, contrastamos as experiências relatadas pelo setor empresarial e pela certeza de que, trabalhando juntos – empresas, governo e sociedade; nossos interesses em comum podem se reunir para uma mudança sistemática, transformadora e poderosa, com a percepção de que há muito para ser feito para atender às metas pré-estabelecidas no Acordo de Paris.

Vimos em 2018 que o Relatório Especial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) sobre o Aquecimento Global de 1,5 °C, sinaliza que a chamada transição para a economia de baixo carbono precisará ser ampliada exponencialmente, além de acelerada. O relatório é o texto científico mais importante sobre a mudança climática, que orienta a tomada de decisões dos governos no aprimoramento de seus compromissos climáticos nacionais em relação ao Acordo de Paris e é aprovado por 195 governos, inclusive o Brasil.

O relatório destaca como uma ação climática ambiciosa pode trazer muitos benefícios para a economia – mais empregos, aumento do acesso a energia, transporte sustentável e melhorias na saúde, para nomear alguns. A análise do New Climate Economy, por exemplo, mostra que ações climáticas ambiciosas podem gerar US$ 26 trilhões em benefícios econômicos até 2030, criando mais de 65 milhões de postos de trabalho e evitando 700 mil mortes prematuras por poluição do ar.

E é justamente a partir desta perspectiva e reconhecendo este momento, que devemos enxergar o capital natural que tanto nos distingue do resto do mundo, como um fator que pode tornar o Brasil, de fato, um líder global em negócios sustentáveis.

Na COP de 2018, o principal objetivo era finalizar as regras que governarão o Acordo de Paris, a entrar em vigor em 2020. As regras foram feitas, em polêmicas reuniões, mas o novo acordo vem mais forte do que muitos negociadores esperavam. Com nove regras para estabelecer e monitorar planos nacionais de redução de emissões, o novo acordo inclui diretrizes relacionadas a novas metas financeiras para ajudar os países em desenvolvimento a reduzir suas emissões a partir de 2025.

De nossa parte, continuamos a trabalhar para garantir transparência e consistência no uso de mercados sob esses instrumentos e mecanismos que permitam a transferência de reduções de emissões, com a nova economia sendo financiada pela velha economia.

Num ano polêmico como 2018, fugimos de ativismos e de polarizações. Nossa Agenda CEBDS por um País Sustentável, construída ao longo das reuniões de nosso Conselho de Líderes, formado pela alta liderança empresarial do País e levada aos presidenciáveis, será uma ferramenta imprescindível para nos orientar em nossos diálogos com autoridades executivas, legislativas e reguladoras em 2019. Usaremos os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) como bússola, e os nossos negócios como motores para promover as mudanças necessárias que possam viabilizar a implementação das dez propostas que compõem essa agenda. Podemos fazer a diferença, trabalhando para ampliar os diálogos.

Há ainda muito por fazer. E o tempo é agora. É hora de, não só arregaçar as mangas, mas fazer de fato acontecer a mudança que queremos e que podemos. Juntos. Amparados em nossas sinergias, e nossas diferenças. Fazendo um novo ano focado na abertura do diálogo, na transparência das ações, e na valorização das riquezas nacionais que a nova economia proporciona.



Marina Grossi

Informações do Autor

Marina Grossi

Marina Grossi é economista e presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) desde 2010 e membro do CPLC (Carbon Pricing Leadership Colalition) do Banco Mundial desde 2018. No CEBDS desde 2005, Marina atuou como diretora-executiva e coordenadora das Câmaras Temáticas de Mudança do Clima e Energia, Construção Sustentável e Finanças Sustentáveis. Possui um vasto currículo ligado à área governamental, atuando como negociadora do Brasil na Conferência das Partes (COP) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP do Clima) entre 1997 a 2001, e como coordenadora do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas entre 2001 e 2003. Participou das negociações do Protocolo de Kyoto e representou o Grupo dos 77 (G77) mais China na área de Mecanismo Financeiro na COP 6 ½ (segunda fase da COP 6) que ocorreu em Bonn, Alemanha. Foi assessora do Ministério da Ciência e Tecnologia, na Coordenação de Pesquisa em Mudanças Globais, e na Coordenadoria de Comunicação Social e chefiou a Assessoria Internacional da Televisão Educativa (Funtevê).