IPCC prevê oceanos com temperaturas mais altas e menos oxigênio

Data: 27/09/2019
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O Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC), órgão da ONU para lidar com o aquecimento global, apresentou na última quarta-feira (25) relatório O Oceano e a Criosfera num Clima em Transformação. O documento trata  sobre os efeitos das alterações climáticas nos oceanos e nas massas de gelo permanentes da Terra. A devastação dos mares e regiões geladas devido às alterações climáticas é o grande problema apontado no documento.

De acordo com o especialista em ecologia marinha e gerenciamento costeiro do Instituto Oceanográfico da USP, Alexander Turra, o relatório mostra que o problema com as mudanças climáticas é sério, real e urgente. “Os resultados são amparados em dados científicos inequívocos. Não há margem de erro para essas conclusões. Estamos longe de remeter a qualquer tipo de conspiração internacional. A visão brasileira, passada pelo discurso do presidente na Assembleia-Geral das Nações Unidas, reforçou o entendimento do governo federal de que a ciência climática não seria fato, de que seria uma abordagem ideológica e conspiratória. Não é. E isso é provado”, declarou ele.

A alta das temperaturas contribui para queda nas populações de peixes de diversas regiões, e os níveis de oxigênio do oceano estão em queda, o que representa risco para importantes ecossistemas marinhos. As águas mais quentes nos oceanos, se combinados a uma alta no nível do mar também fomentam ciclones tropicais e inundações ainda mais poderosos, complementa o relatório. O que coloca regiões costeiras em risco e agrava o fenômeno que já está contribuindo para tempestades, como o furacão Harvey. 

“Os oceanos estão nos enviando muitos sinais de alerta de que precisamos colocar as emissões sob controle”, disse Hans-Otto Pörtner, biólogo marinho do Instituto Alfred Wegener, da Alemanha, e um dos autores do relatório.”Os ecossistemas estão mudando, as redes de alimentação estão mudando, os estoques de peixes estão mudando, e todo esse tumulto afeta os seres humanos”.

Os oceanos vêm servindo como proteção contra o aquecimento global, absorvendo cerca de um quarto de dióxido de carbono que são emitidos pelos seres humanos em usinas de energia, fábricas e carros, e absorvendo mais de 90% do calor excedente aprisionado na Terra pelo dióxido de carbono e outros gases causadores do efeito estufa. Sem essa proteção, as áreas terrestres estariam se aquecendo muito mais rápido.

Mas, o Relatório aponta que os oceanos estão esquentando, e perdendo oxigênio. Caso os seres humanos continuem emitindo gases causadores do efeito estufa para a atmosfera em ritmo cada vez mais intenso, os riscos para a segurança alimentar humana e para as comunidades costeiras irão se acentuar, especialmente porque os ecossistemas marinhos já enfrentam ameaças da poluição por lixos, práticas de pesca insustentáveis e outros desgastes causados pelo homem.

“Somos um mundo oceânico, dirigido e operado por um único oceano, e estamos levando esse sistema de apoio à vida ao seu limite extremo por meio do aquecimento, da desoxigenação e da acidificação”, disse Dan Laffoley, da União Internacional pela Conservação da Natureza, uma importante organização ecológica que acompanha a situação de espécies vegetais e animais, em resposta ao relatório.

Os oceanos e a vida humana

Para o oceanógrafo, Jonas Santos, os oceanos passaram a receber atenção por conta das mudanças climáticas e elevação dos níveis dos mares. “O oceano tem e continuará a ter uma influência significativa na regulação do clima, através da absorção, armazenamento e transporte de calor, dióxido de carbono e água. As alterações na circulação do oceano podem produzir mudanças consideráveis, anômalas e talvez irreversíveis no clima da terra”, avalia.

Diversos recursos minerais são extraídos do mar, como o magnésio, utilizado em ligas metálicas. O elemento químico bromo é utilizado em diversas indústrias, como a farmacêutica e alimentar. O sal, que utilizamos na cozinha, é o mineral mais importante obtido diretamente da água do mar. O oceanógrafo Jonas ainda mostra que as algas marinhas produzem cerca de 55% do oxigênio do mundo. “O excesso de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera é absorvido pelas águas. Por meio da fotossíntese as algas produzem muito mais oxigênio do que precisam, e quando há gás demais na água, ele é liberado para a atmosfera”, explica o oceanógrafo.

Devido à importância dos oceanos para os seres humanos, o oceanógrafo lembra que todos são responsáveis por protegê-los. “Ele sustenta a vida na Terra e o ser humano tem de viver de forma a contribuir para essa sustentabilidade. Ações individuais e coletivas são necessárias para gerir de modo eficaz os recursos do oceano, para que cheguem a todos”, ressalta.