Resiliência na produção e consumo de alimentos 

Data: 09/08/2019
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O Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável – CEBDS lançou uma publicação sobre o Workshop de alimentos resilientes, realizado em junho. O encontro reuniu atores de diversos elos da cadeia de alimentos no país.

O workshop faz parte do programa de Inteligência Agroclimática (IAC), que pretende aumentar em 50% a disponibilidade de alimentos. Ao mesmo tempo, busca reduzir em 50% as emissões de  gases do efeito estufa.

 

Sistemas Resilientes de Alimentos no Brasil

 

Inovação com foco na resiliência

A busca da resiliência por meio da inovação é o principal caminho para garantir a disponibilidade de alimentos em um cenário que prevê crescimento populacional de 26% até 2050. A conclusão é do líder da divisão Crop Science da Bayer, Gerhard Bohne, que apontou a integração entre os elos da cadeia de alimentos como o principal desafio para garantir suprimentos suficientes para alimentar a população mundial.

Bohne reforça que o setor trabalha, nos últimos anos, para desenvolver tecnologias que garantam maior produtividade alinhada a uma produção mais sustentável.

“A inovação é primordial para o sistema de alimentos. Temos que, cada vez mais, desenvolver soluções personalizadas para garantir que seremos capazes de alimentar quase 10 bilhões de pessoas em 2050. Para isso, precisamos harmonizar produção, distribuição e consumo”, reforça Bohne, que participou do Workshop. 

A cadeia do agronegócio é hoje a maior emissora de GEE ao mesmo tempo em que é a atividade mais suscetível às mudanças climáticas. A diretora de Desenvolvimento Técnico do CEBDS, Ana Carolina Szklo, alerta que as mudanças climáticas é um desafio sem precedentes, principalmente para um setor tão ligado ao clima.

“Hoje, 40% das terras usadas no mundo são destinadas ao agronegócio. Isso equivale a 30% das emissões mundiais e 70% do consumo de água. Precisamos, com urgência, tornar a cadeia mais resiliente. Nosso futuro depende da capacidade de criar sistemas de alimentos para garantir a nutrição da população”, afirma.

As mudanças climáticas afetam não só a capacidade produtiva, mas, segundo a Diretora de Comunicação e Relações Governamentais da DSM Latam, Zenaide Guerra, estão causando danos aos alimentos na forma nutricional. Para Zenaide, o desperdício precisa ser combatido com urgência.

“Da produção de alimentos destinada ao consumo humano, cerca de 30% é desperdiçado. Isso responde por 8% de gases do efeito estufa e 20% da água utilizada pela agricultura. O desperdício é real e causa sérios prejuízos aos seres humanos. Temos que ser capazes de entender as culturas locais de cada país e fortificar os alimentos básicos dessas dietas”, acredita.

 

Tecnologia aliada à cadeia de alimentos

O entendimento acerca do impacto da cadeia é um dos caminhos para torna-la mais resiliente. “O processo de mudanças climáticas passa por uma discussão muito grande sobre o acesso as informações. Munidos de dados, os consumidores conseguirão fazer escolhas mais sustentáveis”, afirma Juliana Lopes, diretora de sustentabilidade da Amaggi.

Outro caminho é a aplicação de tecnologias disruptivas, como a Integração lavoura, pecuária e floresta (ILPF). A modalidade, que prevê produção integrada, aumenta a produção por hectare ao mesmo tempo que reduz as emissões. A aplicação da técnica esbarra em algumas barreiras: assistência técnica e acesso ao crédito.

Renato Rodrigues, presidente da rede ILPF, destaca que, no Brasil, as áreas com utilização de técnicas de ILPF saltaram de dois milhões de hectares, em 2005, para 15 milhões, em 2018. A expectativa é de que, até 2030, 35 milhões de hectares estejam aplicando a tecnologia.

“A ILPF é uma tecnologia completa. Através dela fomos capazes de alcançar as metas do plano de agricultura de baixo carbono (ABC) antes do prazo. É um conjunto de técnicas que permite aumentar a produção garantindo a sustentabilidade do agronegócio”.

 

ONU pede mudanças na produção

Com a previsão de que a população mundial chegue a quase 10 bilhões em 2050, um novo relatório da ONU aponta que o sistema global de alimentos deve passar por mudanças urgentes para garantir que haja comida adequada para todos, sem destruir o planeta.

O “Relatório de Recursos Mundiais: Criando um Futuro Alimentar Sustentável” revela que enfrentar esse desafio exigirá o fechamento de três lacunas: uma “lacuna alimentar” de 56% entre o que foi produzido em 2010 e os alimentos que serão necessários em 2050; uma “lacuna de terra” de quase 600 milhões de hectares entre a área agrícola global em 2010 e a expectativa de expansão agrícola até 2050; e um “gap de mitigação de gases de efeito estufa” de 11 gigatoneladas entre as emissões esperadas da agricultura em 2050 e o nível necessário para atender o Acordo de Paris para o clima.

O documento foi Produzido pelo World Resources Institute em parceria com Banco Mundial, ONU Meio Ambiente, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e agências francesas de pesquisa agrícola CIRAD e INRA. O relatório apresenta soluções para reformular a forma como o mundo produz e consome alimentos de forma a garantir uma sustentabilidade para o sistema alimentar até 2050.

O relatório solicita ajustes significativos na produção de alimentos, bem como mudanças no consumo da população. As ações vão desde o manejo da pesca silvestre até a quantidade de carne a ser consumida. Fornece aos formuladores de políticas, empresas e pesquisadores um roteiro abrangente sobre como criar um sistema alimentar sustentável da fazenda até o prato.

“Milhões de agricultores, empresas, consumidores e todos os governos do planeta terão que fazer mudanças para enfrentar o desafio alimentar global. Em todos os níveis, o sistema alimentar deve estar vinculado a estratégias climáticas, bem como proteções do ecossistema e prosperidade econômica”, disse Andrew Steer, presidente e CEO do World Resources Institute. “Embora a escala do desafio seja maior do que se imagina, as soluções que identificamos têm um potencial maior do que muitos imaginam. Há razão para ter esperanças de que podemos alcançar um futuro sustentável em alimentos”.

“A oportunidade de transformar o sistema alimentar não deve ser ignorada. Recompensar os fazendeiros por produzir alimentos mais diversificados e nutritivos de uma maneira muito mais sustentável ajudará a aumentar sua renda e criar empregos, construir sociedades mais saudáveis, reduzir as emissões de gases de efeito estufa e apoiar a recuperação dos serviços ecossistêmicos essenciais”, disse Laura Tuck, vice-presidente de Desenvolvimento Sustentável no Banco Mundial.

“A tecnologia será uma das chaves para o sucesso futuro do sistema alimentar. Não há potencial realista para criar um futuro sustentável de alimentos sem grandes inovações”, disse Tim Searchinger, pesquisador sênior do WRI e principal autor do relatório. “Precisamos de mais financiamento para pesquisa e desenvolvimento e regulamentação flexível para incentivar o setor privado a inovar”.

“O chamado à ação desse relatório pode ser resumido em três palavras: produzir, proteger e prosperar. Estes não são interesses concorrentes”, disse Achim Steiner, administrador do PNUD. “É possível produzir mais alimentos com a mesma quantidade de terra agrícola de hoje, proteger os ecossistemas e fazer isso de uma maneira que garanta que os agricultores e outros possam prosperar. Criar um futuro de comida sustentável não será fácil, mas pode ser feito.”

O novo relatório contém as conclusões completas que sustentam a síntese da criação de um futuro alimentar sustentável, que foi lançado em dezembro de 2018 na COP24 na Polônia. Confira o relatório completo aqui.