Como o setor empresarial vê a transição energética?

Data: 05/09/2019
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A transição energética e o seu papel na migração para uma economia de baixo carbono foi tema de um dos paineis do Seminário CEBDS 2019, realizado no último dia 5, em São Paulo. O debate contou com a participação de Solange Ribeiro, diretora-presidente adjunta da Neoenergia; André Araujo, CEO da Shell no Brasil; e Otávio Carvalheira, presidente da Alcoa Brasil; e de Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), que também foi mediadora.

A transição para uma economia de baixo carbono já é uma realidade até nas empresas mais tradicionais de combustíveis fósseis, que já estão investindo em energias renováveis. A necessidade de Brasil retomar o crescimento econômico sustentado nos próximos anos demandará mais energia, uma vez que expansão do PIB e consumo energético estão correlacionados.

A questão fundamental para o futuro, portanto, é a consolidação dos investimentos em fontes energéticas limpas, reduzindo a participação de combustíveis fósseis, a fim de atender à urgente demanda por crescimento, sobretudo se for superior às atuais projeções. 

“Uma forma de descarbonizar a economia é a eletrificação. O Brasil tem uma vantagem competitiva de ter fontes renováveis de energia e um potencial de crescer. As renováveis estão quebrando fronteiras nos leilões. Também é preciso investir em eficiência energética. A Neoenergia já tem investimentos de R$ 500 milhões, principalmente no consumidor de baixa renda e projetos de educação”, disse Solange Ribeiro, da NeoenergiaBR.

Propostas para a transição energética

Cabe ao governo um papel fundamental na realização de projetos de infraestrutura necessários para o país, garantindo a sustentabilidade da nova matriz energética brasileira nos próximos anos. A partir dessa premissa, o CEBDS lançou durante as eleições presidenciais do ano passado a Agenda CEBDS por um País Sustentável, que contém propostas para os próximos quatro anos destinadas a diversos setores, entre eles o de energia. 

O documento defende a inclusão da variável climática no planejamento energético como fator fundamental para que o crescimento econômico não aumente as emissões de gases de efeito estufa (GEE). Para que isso aconteça, o engajamento do governo federal no processo será decisivo. 

Para assegurar mais participação das fontes renováveis na matriz energética, as lideranças empresariais associadas ao CEBDS propõem uma Lei de Transição Energética para o Crescimento como instrumento para atingir os objetivos definidos.

Nessa lei estaria contemplada a matriz elétrica e todo o sistema energético, assim como a energia gerada e consumida na indústria, no setor de transportes e em edificações.

O aumento da participação de combustíveis fósseis é um dos principais responsáveis pelo aumento das emissões emissões de GEE no setor energético brasileiro, sobretudo no segmento de transporte, maior fonte de pressão e responsável por 48,2% das emissões, em 2017. 

Isso ocorre em função da concentração no modal rodoviário, com intenso uso do diesel. Para se ter uma ideia da dimensão desse impacto, o transporte de caminhões respondeu por 84,5 milhões de toneladas de CO2, volume superior ao de todas as termelétricas fósseis em operação no País, que foi de 54,2 milhões de toneladas.

Eletrificação em substituição aos combustíveis fósseis

Para reverter o atual cenário, propõe-se investimentos na transição desse tipo de transporte para modais elétricos. Os benefícios são claros e mensuráveis. A eletrificação de veículos, sobretudo os de transportes de cargas, pode reduzir o consumo de combustíveis fósseis em 20% até 2040. 

Além disso, mudanças do modal permitirão diminuição de 83% no total de GEE emitidos pelo transporte de cargas, projetados até 2050. Apenas com a eletrificação do modal ferroviário e desenvolvimento de sistemas híbridos de propulsão em embarcações, é possível reduzir o consumo energético destes modais em até 33%. O processo mais racional e sustentável de transporte envolve, ainda, o aproveitamento do modal hidroviário com uso de fontes renováveis.

Por essa razão, a Agenda reforça a relevância do papel de programas e políticas que reconheçam e reestruturem a cadeia de valor de bioprodutos e produtos de baixa pegada de carbono, de forma a fomentar pequenos e médios produtores.

Propostas para a Transição Energética na Agenda CEBDS

A matriz energética brasileira apresenta participação relevante de fontes de energias renováveis, de 43,2% em 2017, com destaque para a geração a partir da cana (17,4%) e hidroeletricidade (11,9%). Embora esse valor seja alto, se comparado à média mundial (cerca de 15%), observou-se uma tendência de queda recentemente. Em 2010, a participação de energia renovável na matriz do País atingiu 47,5%. 

A queda nos últimos anos pode ser considerada pequena, mas vai na contramão da proposta da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, da sigla em inglês) brasileira, que definiu participação de 45% de fontes renováveis, em 2030. O consumo e a produção de energia no país foram responsáveis, em 2016, pela emissão de 423,5 milhões de toneladas, de dióxido de carbono equivalente (CO2e), sendo responsável por 19% do total nacional. 

“Para falar de transição energética, precisamos também falar do crescimento da economia. Precisamos investir em novas tecnologias para reduzir as emissões. A Alcoa tem projetos de inovação para reduzir suas emissões e o impacto de suas atividades no meio ambiente. Essa é nossa preocupação e um caminho para revolucionar a indústria”, declarou Otávio Carvalheira, da Alcoa.

Do total das emissões brasleiras, o setor de transportes representa 48% (204 milhões de tCO2e); o setor industrial 17% (71 milhões de tCO2e); o setor de produção de combustíveis 9% (37 milhões de tCO2e) e o setor elétrico 10% (43 milhões de tCO2e).

Uma das propostas contidas na Agenda CEBDS por um País Sustentável para o setor é é o aprimoramento do perfil renovável e limpo do sistema energético, superando a meta de 45% de fontes renováveis em 2030 proposta pela NDC brasileira. 

Outra proposta é a adoção de um sistema de governança definido e funcional que tenha como objetivo a realização de mudanças estruturais que redirecionarão o desenvolvimento do setor de forma a atender à crescente demanda por energia com baixas emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE).

“Precificar o carbono por meio de um mercado global é uma oportunidade de financiar essa transição energética. Faz bem para os negócios e para o meio ambiente. Temos que difundir que sustentabilidade é fator de competitividade, não de atraso”, disse Marina Grossi, presidente do CEBDS, durante o painel.

As lideranças empresariais associadas ao CEBDS também defendem a promoção dos biocombustíveis, não só na matriz de transportes quanto na elétrica, e o financiamento para fontes renováveis no que se refere à biomassa e solar.

Empresas têm buscado novas formas de minimizar o impacto ambiental 

Em todo mundo, as empresas têm buscado cada vez mais novas formas de minimizar o impacto ambiental de seu consumo de energia além de reduzir seus custos com energia. Um deles é o Power Purchase Agreement (PPA). Com o objetivo de proporcionar uma visão mais ampla do funcionamento dos PPAs, o CEBDS lançou este ano a publicação Por que a Compra Corporativa de Energia Renovável é um Bom Negócio.

O PPA é um contrato de energia elétrica, similar a um contrato regular no mercado livre. Estes acordos são assinados entre o comprador, também denominado off-taker, e o desenvolvedor do projeto e contêm todas as condições negociadas (preços, volume, período de entrega da energia, prazo de pagamento, garantias/seguros, etc.).

PPAs com compradores corporativos em geral são relacionados a novos ou a expansão de projetos de energia renovável, ou seja, empreendimentos que serão financiados baseados no fluxo de receitas do contrato. Dados os requisitos para financiar grandes projetos de infraestrutura, em geral, o termo de duração de um PPAs é de 8 a 20 anos, como forma de possibilitar o financiamento pelos desenvolvedores.

Além de reduzir o uso de energia por meio de ações de eficiência energética, a compra corporativa de energia renovável desempenha um papel importante para atingir este objetivo. A eletricidade proveniente de fontes limpas apresenta-se como uma boa opção, por ser uma solução acessível para o Comércio e a Indústria (C&I), sendo a forma escolhida por muitas empresas para reduzir custos de energia, reduzir sua pegada de carbono e auxiliar no alcance de suas metas em sustentabilidade.

Há uma série de possibilidades para consumir energia renovável que vão desde o investimento em ativos de geração de energia, a compra direta de contratos de desenvolvedores através de PPAs de energia renovável ou ainda a compra de certificados de energia renovável. A compra corporativa de energia renovável permite maior segurança para desenvolvedores e financiadores do projeto, bem como previsibilidade de preço aos consumidores.

No Brasil, grandes consumidores de energia elétrica, com demanda contratada igual ou superior a 500 kW, podem negociar energia renovável no Mercado Livre. Geralmente, esses contratos possuem um prazo de 1 a 5 anos. 

“O efeito social que as renováveis tem causado no sertão do Nordeste é excepcional. As pessoas estão voltando em função da movimentação que os parques eólicos tem trazido para o Nordeste”, avaliou Solange Ribeiro, da Neoenergia.