Ciclos Viciosos

Data: 14/09/2021
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Conexões entre negócios, mudança do clima, biodiversidade – e além

O entendimento e ações dos negócios e das empresas quanto às crises climática e de biodiversidade são questões estratégicas. Isso porque elas não só dependem como impactam o clima e a biodiversidade. Trata-se de uma relação complexa que, muitas vezes, acaba em escanteio justamente por não ser simples de entender e agir a respeito. Contudo, uma noção mais sistêmica, simplista  porém útil, pode ajudar a entender melhor do que se trata esta relação – bem como tomar decisões e agir de forma efetiva diante das dependências e impactos que a caracterizam.

Entendendo mudanças climáticas

As mudanças climáticas são resultado da intensificação do efeito estufa. O efeito estufa ocorre naturalmente no planeta e garante as condições de vida de que precisamos, já que gases na atmosfera ajudam a reter o calor do sol e assim as temperaturas da superfície são mais propícias para as várias formas de vida que habitam na Terra – plantas, animais e microrganismos. A intensificação do efeito estufa como resultado da atividade humana, principalmente a queima de combustíveis fósseis como carvão e derivados de petróleo, faz com que muito mais calor acabe retido na atmosfera. Esse calor extra acaba afetando a dinâmica da Terra de várias formas já que influencia, por exemplo, movimentos de massas de ar e correntes marítimas que, por sua vez, afetam as condições atmosféricas a curto prazo (ou seja, o que a gente vê na previsão do tempo). A longo prazo, as alterações do tempo devido a intensificação do efeito estufa acabam mudando também os padrões ‘normais’ observados, que constituem o clima. Assim, a longo prazo, o efeito estufa vai alterando as condições climáticas de forma que, por exemplo, estações secas podem durar mais e ser mais intensas em alguns anos em relação a outros, e os anos muito secos acabam acontecendo em intervalos cada vez mais curtos.

Uma característica muito particular das mudanças climáticas é que não se trata de cenário de ‘fim do mundo’ que atinge a todos ao mesmo tempo: o mundo todo não vai virar, de repente, um deserto escaldante. Trata-se, na verdade, de uma mudança gradual de condições climáticas  que acaba lembrada e discutida com mais intensidade durante eventos extremos. Estes podem ser estiagens como descrito acima, mas também inundações, tempestades (inclusive de neve), furacões e queimadas. Às vezes, múltiplos eventos ocorrem ao mesmo tempo em regiões diferentes do mundo e, em outras vezes, diferentes eventos ocorrem no mesmo local mas em períodos distintos porque as estações do ano seguem o seu curso.

Os impactos das mudanças climáticas

Olhemos agora para a atual estiagem que acontece no Brasil e afeta a todos de várias formas. Trata-se de uma  condição de tempo que vem alterando o dito ‘padrão normal’ por acontecer cada vez mais frequentemente ao longo do tempo recente e, portanto, caracteriza uma mudança do clima do país. Sem as  chuvas esperadas, a geração de energia hidrelétrica fica prejudicada e é preciso acionar termelétricas, o que encarece a conta de luz para todo mundo – inclusive empresas que precisam repassar estes custos extras ao consumidor de seus produtos e serviços. Ou seja, produtos e serviços ficam mais caros por causa da falta de chuvas. Falta água para uso doméstico,  na indústria e no campo. Alimentos e commodities não só ficam mais caros para o consumidor brasileiro mas também para o comprador estrangeiro, afetando portanto a balança comercial e a economia do país.  Em resumo: a mudança climática por causa da queima de combustíveis fósseis faz chover menos no Brasil, que tem menos água tanto para abastecimento quando para a geração de eletricidade nas hidrelétricas, o que leva ao acionamento das usinas termelétricas que não só dependem de água para seu resfriamento como também queimam combustíveis fósseis e aumentam a concentração dos gases que intensificam o efeito estufa, impulsionando a mudança climática.

As mudanças climáticas e o desmatamento

Mas será que chove menos só por causa da mudança climática diretamente ligada à queima de combustíveis fósseis? A resposta é não, pois o efeito da mudança climática sobre o regime de chuvas é também agravado por outro fator: o desmatamento. Principalmente na Amazônia. A floresta em pé absorve grande quantidade de carbono, inclusive aquele associado à intensificação do efeito estufa por causa da queima de combustíveis fósseis pela atividade humana. Ela regula, também, o ciclo da água em escala local e regional (através dos corredores aéreos de umidade, ou rios voadores, que se estendem até o centro-sul do país). Porém, a partir de um certo ponto  estimado pelos cientistas em 20-25% de desmatamento na Amazônia, a degradação resultante faz com que a região se transforme em um dos ‘fatores’ que produzem a mudança climática ao invés de atenuar suas causas e efeitos. Isso porque na devastação além do ponto de não-retorno (do inglês tipping point), a emissão dos gases que intensificam o efeito estufa é maior do que a capacidade de absorção deles pela floresta – o que já é realidade.

Além disso, a interrupção da dinâmica dos corredores aéreos de umidade torna tanto algumas áreas amazônicas quando do centro-sul ainda mais secas, diminuindo o nível dos reservatórios de água e dificultando a geração de eletricidade nas hidrelétricas. Estas áreas mais secas também ficam mais susceptíveis às queimadas, principalmente criminosas. Estas não só se espalham sem controle causando prejuízos biológicos, ecológicos, econômicos, humanos e sociais, mas também aumentam a emissão dos gases que intensificam o efeito estufa e causam a mudança climática. Quando existem menos árvores transpirando e assim liberando umidade na atmosfera alimentando os rios voadores que descem do norte para o centro-sul do país, consequentemente chove menos no centro-sul.

O desmatamento na Amazônia vem batendo recorde atrás de recorde. A exploração de madeira ilegal bem como a expansão ilegal da área de atividade agropecuária são dois grandes fatores por trás do desmatamento amazônico. Já no centro-sul, a substituição (histórica e recente) de vegetação natural por monoculturas e pastagens também agrava os efeitos da estiagem uma vez que a vegetação nativa e diversa possibilita uma maior capacidade do solo em reter umidade, funcionando como esponja. Ou seja, o solo ‘incha’ com água durante as estações chuvosas e durante as estações secas libera para áreas vizinhas, aos poucos, a água armazenada. Ao chover menos, aumentam também as chances de queimadas naturais que não só são um indicador dos efeitos das mudanças climáticas por acontecerem de forma mais frequente e em maior escala, mas também contribuem para a mudança climática em si já que entre os produtos da combustão estão gases que intensificam o efeito estufa.  Ou seja, a seca extrema e o fogo associado são, ao mesmo tempo, consequência das mudanças climáticas e fatores que a impulsionam.

O dilema preservação x produção

Parece um beco sem saída: com o crescimento da população, mais área para agricultura e pecuária é necessária, o que leva ao desmatamento, que causa a mudança climática, o desmatamento e a mudança climática afetam o regime de chuvas, a falta de chuvas prejudica a geração de energia hidrelétrica e é preciso acionar termelétricas que queimam combustíveis fósseis que emitem gases que causam a mudança climática, o desmatamento e a mudança climática afetam o regime de chuvas, a falta de chuvas prejudica a agricultura que alimenta a população que está crescendo…

Acontece que não necessariamente é preciso mais área, e o Brasil traz exemplos de tecnologias no campo que aumentam a produtividade nas áreas já existentes ou nas degradadas. Além disso, a atuação efetiva na perda e desperdício de alimentos tem capacidade de impactar o acesso à alimentação principalmente àqueles em situações de insegurança alimentar, reduzindo a fome. E em escala mundial, a situação é muito parecida.

Sistemas alimentares são responsáveis por mais de um terço das emissões globais de gases resultantes da atividade humana e que intensificam o  efeito estufa. E os sistemas alimentares são, ao mesmo tempo, muito dependentes dos processos da natureza (os serviços ecossistêmicos), que são afetados pela mudança climática e desmatamento. Isso acontece, por exemplo, quando predadores como onças – que precisam de grandes áreas naturais e contínuas para viver – não encontram mais essas áreas porque foram desmatadas ou queimadas, e acabam desaparecendo. As onças ajudam no controle de populações de roedores que, na ausência do predador, se multiplicam sem controle a acabam prejudicando plantações. Trata-se de plantações que alimentariam uma população crescente, mas que sofrem, também, com a falta d’água, que é resultado do desmatamento e da mudança climática, que faz com que as onças desapareçam…

Há luz no fim do túnel? Regenerando a relação do homem com a natureza

A natureza funciona em ciclos: ciclo da água, ciclo do carbono, ciclo dos nutrientes, as estações do ano. Como somos parte da natureza, as nossas ações também constituem processos cíclicos. Da mesma forma que o ‘ciclo do mal’ da mudança climática, desmatamento, falta de água e assim por diante compromete a existência humana a longo prazo, devemos e podemos atuar no ‘ciclo do bem’: regenerando áreas degradadas, que por sua vez passam a sequestrar os gases em excesso que exacerbam o efeito estufa e restabelecem os rios voadores, não só trazendo a chuva de volta ao centro-sul do país também permitindo que a onça possa se alimentar de roedores à vontade. Assim, há segurança hídrica para geração de energia elétrica e também no campo, onde não é preciso se preocupar tanto assim com pragas que surgem por conta do desequilíbrio ambiental e há possibilidade de alimentar uma população crescente de forma sustentável. Uma população que prospera em um ambiente em regeneração.

O primeiro melhor momento para arregaçar as mangas e promover o ciclo do bem foi há pelo menos 30 anos, na sequência da Cúpula da Terra. O segundo melhor momento é agora.

 

Priscilla Santos

Assistente de Sustentabilidade voluntária – CEBDS