Coronavírus explicita a desigualdade social no Brasil

Data: 26/03/2020

O coronavírus, tão minúsculo, veio explicitar o que já estava na nossa frente há muito tempo e que, de tão banalizada, tornara-se uma situação com a qual aprendemos a conviver: a desigualdade social.

Como impor a moradores de uma favela, o distanciamento social, ou isolamento, quarentena, qualquer um desses termos com os quais estamos nos familiarizando agora com o avanço do vírus ao país? Como pedir para que um porteiro faça home office? Como dizer para pessoas que se aglomeram e moram em cubículos apertados, que isolem o paciente infectado em um cômodo para não contaminar os demais?

O Covid-19 chegou ao Brasil na bagagem dos mais abastados. Não surgiu das bacias de água esquecidas em quintais ou terrenos baldios, como a dengue. Não carrega em si o DNA dos menos favorecidos economicamente. Não será agravado no Brasil pela falta de cuidados sanitários que nos trazem outros males, mas sim pela falta de infraestrutura, educação, higiene pessoal e consciência do coletivo.

Problemas que foram negligenciados nas últimas décadas ficam mais claros agora. A vulnerabilidade da população que vive em submoradias, sem água encanada ou esgoto, que viaja apertada em transporte público e está acostumada a enfrentar longas filas para ser atendida no sistema de saúde, será evidenciada nos telejornais das próximas semanas como nunca.

Neste contexto fica ressaltada a importância do saneamento universal, condição básica para os cuidados corretos de higiene, mas também a das vantagens do Sistema Único de Saúde (SUS).

Nessas próximas semanas ou meses que virão, as companhias brasileiras terão que repensar não somente sua forma de trabalhar, liberando funcionários para home office, como rever uma série de processos, a exemplo de seus pares em outros países.

Conectados, podemos continuar nosso trabalho remotamente e utilizar as tecnologias ao nosso favor, comunicando os riscos e prevenções mais rapidamente. Globalizados, espalhamos e contagiamos mais pessoas do que outrora, e sentimos os efeitos econômicos de uma recessão mundial, afetados por bolsas de valores interconectadas.

Além das medidas de prevenção já conhecidas, vemos belos exemplos de pessoas que se oferecem para fazer compras para idosos, entre outros muitos casos de exemplar solidariedade. Estamos vendo também a conscientização vir das empresas.

Os turnos alternados, funcionários em home office ou até mesmo a suspensão integral de linhas de produção (com garantia de manutenção de empregos) são algumas das medidas que vimos serem adotadas aqui e em outros países.

Canais da TV paga foram abertos para serem mais acessíveis a toda a população, companhias de telefonia garantiram ampliar o sinal para atender melhor áreas residenciais sobrecarregadas.

No Brasil, Banco do Brasil, Caixa e BNDES estão equacionando dívidas de pequenas empresas e criando novas linhas de crédito. Funcionários idosos em várias empresas estão sendo liberados e já há empresas pagando transporte privado para funcionários indispensáveis irem para o trabalho. Algumas de nossas empresas estão destinando suas linhas de produção para fabricação de máscaras, álcool em gel e a Vale chegou a encomendar da China milhões de testes de validação do coronavírus para aplicar para a população.

O coronavírus evidencia a interdependência e a colaboração que temos que ter para sanarmos nossos principais desafios. Explicita que a parte mais frágil da sociedade sempre será a maior vítima das fatalidades. sem populismos, integrando sistemas produtivos, agindo coletivamente, atacando os problemas de frente e colocando na perspectiva de negócios o combate sistêmico à desigualdade social, estou certa de que sairemos maiores e melhores desta longa quarentena.

Texto publicado originalmente na Folha.

Marina Grossi

Informações do Autor

Marina Grossi

Marina Grossi é economista e presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) desde 2010 e membro do CPLC (Carbon Pricing Leadership Colalition) do Banco Mundial desde 2018. No CEBDS desde 2005, Marina atuou como diretora-executiva e coordenadora das Câmaras Temáticas de Mudança do Clima e Energia, Construção Sustentável e Finanças Sustentáveis. Possui um vasto currículo ligado à área governamental, atuando como negociadora do Brasil na Conferência das Partes (COP) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP do Clima) entre 1997 a 2001, e como coordenadora do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas entre 2001 e 2003. Participou das negociações do Protocolo de Kyoto e representou o Grupo dos 77 (G77) mais China na área de Mecanismo Financeiro na COP 6 ½ (segunda fase da COP 6) que ocorreu em Bonn, Alemanha. Foi assessora do Ministério da Ciência e Tecnologia, na Coordenação de Pesquisa em Mudanças Globais, e na Coordenadoria de Comunicação Social e chefiou a Assessoria Internacional da Televisão Educativa (Funtevê).

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