Em busca da resiliência dos sistemas de alimentos

Data: 13/11/2019

As mudanças climáticas globais provavelmente estão entre os maiores desafios que a humanidade já presenciou e ainda irá enfrentar. A pergunta que persiste é: como os arranjos produtivos vão se preparar e se adaptar para esse futuro desafiador mantendo a capacidade de suprimento das necessidades humanas?

Precisamos reconhecer os desafios comuns e aumentar a capacidade de superar as adversidades. Não há mais dúvida de que a crise climática é real e, em grande parte, causada pela atividade humana e já estamos vivendo eventos climáticos extremos com mais frequência, além de uma série de efeitos já comprovados, como perdas de biodiversidade, aumento do nível do mar, crises de abastecimento hídrico, dentre outros.

Nesse contexto, vale destaque especial a cadeia de produção da agroindústria brasileira, que aparece como uma das maiores emissões de gases de efeito estufa (GEE) do país, representando 70% do total das emissões, quando considerada a mudança de uso do solo, sendo assim, o conjunto de atividade que mais contribui para aceleração dos cenários mencionados acima. E ao mesmo tempo, por ser o setor da economia mais intimamente ligado ao clima, até mesmo um fator de produção, está se tornando cada vez mais vulnerável às mudanças climáticas. Problemas fitossanitário, mudança na geografia dos cultivos, eventos extremos, como secas e tempestades, ondas de calor, veranicos, perda de polinizadores e mudanças abruptas do regime hídrico, são alguns dos efeitos práticos e locais das mudanças climáticas globais que afetam a agroindústria. De todos estes uma coisa é certa: são riscos alarmantes para a sobrevivência do agronegócio brasileiro.

Somado a este imenso desafio, será necessário garantir alimentos nutritivos para uma população crescente de mercados globais e hábitos pouco sustentáveis. Sendo assim, não apenas é necessário aumentar a produtividade, mas também reduzir perdas e desperdícios após a colheita, promover uma mudança de hábitos, repensar quadros regulatórios e incentivos econômicos, desenvolver uma base produtiva que gere impacto ambiental e social positivo e construir uma cadeia de valor para novos produtos da bioeconomia. Hoje, por exemplo, 8% das emissões de GEES’s da cadeia de alimentos e 24% da água consumida pelo setor advém de perdas e desperdícios.

A visão integrada da cadeia sobre os riscos, oportunidades e soluções é fundamental para tornar o sistema de alimentos como um todo ainda mais forte para este futuro de incertezas. Muitos dos desafios são compartilhados entre os diferentes elos dessa cadeia e muitas das soluções, existentes e futuras, podem aumentar significativamente o potencial individual de cada um. Por isso, é altamente necessário ativar a inteligência coletiva dos diferentes setores representados na cadeia de alimentos para alcançar transformações sistêmicas.

Com o intuito de reunir a cadeia do agronegócio na construção de soluções, o programa Inteligência Agroclimática (IAC) do CEBDS busca promover o debate sobre os riscos climáticos que pesam sobre o setor de agricultura e alimentos, com objetivo de aumentar em 50% a disponibilidade de alimentos nutritivos enquanto reduz em 50% as emissões de GEEs. A IAC também busca construir uma visão estratégica que desenvolva maior resiliência para o sistema. Nesse sentido, em Junho o CEBDS realizou um workshop com diferentes elos da cadeia sobre os desafios e oportunidades para o setor. Mais recentemente, lançamos uma publicação sobre Agricultura 4.0 e suas contribuições para produzir mais, emitindo menos e se tornando mais resiliente às mudanças que estão por vir.

Mais do que entender o como e o que fazer com a tecnologia disponível, precisamos entender aonde vão acontecer essas inevitáveis mudanças e como dar escala as boas práticas existentes. O momento agora é de entender os principais desafios relacionados à crise climática, a partir de uma visão integrada da cadeia de alimentos, e desenvolver os cenários de soluções buscando caminhos prioritários que tornem o agronegócio ainda mais sustentável.

Felipe Cunha

Informações do Autor

Felipe Cunha

Assessor Técnico para Água e Agricultura do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS)

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