As relações entre a biodiversidade e a proliferação de doenças, como a Covid-19, podem ser mais próximas do que podem parecer em uma primeira análise. O tema, inclusive, já vinha recebendo atenção da comunidade científica antes da pandemia provocada pelo novo coronavírus.

Entre as pesquisas mais recentes, por exemplo, um estudo divulgado em meados do ano passado pela Universidade de Auburn, nos Estados Unidos, tem como hipótese a maior probabilidade de doenças transbordarem da vida selvagem para os seres humanos em habitats desmatados.

A afirmação parte do princípio conhecido como “efeito de diluição”, segundo o qual fragmentos de florestas e seus respectivos hospedeiros da vida selvagem agem como ilhas. Na medida em que a ação humana destrói esses habitats, os micróbios causadores de doenças que vivem dentro deles sofrem uma rápida diversificação.

A tese é corroborada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que considera a hipótese de um animal ter sido a provável fonte de transmissão do coronavírus. Estudos já constataram que a Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars, na sigla em inglês), foi transmitida de gatos domésticos para seres humanos, bem como a Síndrome Respiratória do Oriente Médio passou de dromedários para humanos.

Essas doenças têm em comum a Covid-19 o fato de serem transmitidas por coronavírus, que são zoonóticos, ou seja, transmitidos de animais para pessoas. Assim sendo, da mesma maneira que a destruição da biodiversidade pode estar relacionada à disseminação de doenças, a preservação se torna um fator para a cura.

 

Impacto da Covid-19 nas pesquisas sobre biodiversidade

Em artigo publicado na revista Biological Conservation, pesquisadores de diversos países chamam a atenção para o comprometimento de possíveis pesquisas sobre a relação entre a Covid-19 e a biodiversidade. Com as paralisações causadas pela pandemia, o trabalho de campo e de laboratório estariam amplamente interrompidos. Os impactos poderiam se estender a médio e longo prazos, uma vez que as carreiras de funcionários efetivos sobreviverão se suas instituições sobreviverem.

“Cientistas no início da carreira, como estudantes de graduação e pós-doutorado, precisam desses empregos, tanto como fonte de renda quanto pelas diversas experiências que proporcionam. Para esses jovens cientistas da conservação, as preocupações financeiras interagem com o problema da pesquisa de campo ou de laboratório perdida. Para alguns, essas oportunidades perdidas podem ser compensadas, embora possam levar a atrasos de muitos meses; para outros, os danos serão irreversíveis, devido à natureza de suas pesquisas ou às restrições de financiamento”, afirma o artigo.