Posicionamento da Business For Nature em relação ao primeiro rascunho do Marco – Tradução do Sumário Executivo

A Business for Nature dá as boas-vindas à publicação do primeiro rascunho do Marco Global de Biodiversidade pós-2020 (o Marco), uma etapa-chave no processo de adoção de um acordo global de biodiversidade transformador. Um Marco Global de Biodiversidade ambicioso e efetivo tem o potencial de acelerar, de forma significativa, a transformação dos sistemas econômicos e financeiros em direção a equidade e neutralidade de carbono em um mundo positivo para a natureza (do inglês nature-positive). O Marco pode acelerar e dar escala às ações e investimentos necessários, por parte do setor privado, para propiciar crescimento sustentável, geração de empregos e potencialmente destravar trilhões de dólares em oportunidades econômicas.
Nós saudamos as muitas melhorias e especificidades incluídas neste primeiro rascunho, com destaque ao reconhecimento do papel dos negócios na co-liderança das transformações necessárias. Nós também felicitamos as Partes por reconhecerem a necessidade de valorizar e incluir a natureza em todos os processos de tomada de decisão através da integração – ou mainstreaming – da natureza em todos os setores. Nós saudamos em especial a meta sobre o papel dos negócios como um primeiro passo na concepção destes como atores para mudanças positivas. Contudo, estes elementos-chave ainda precisam ser fortalecidos, melhorados e refinados.
Permanecemos aflitos uma vez que a ambição geral e o senso de urgência do texto do Marco não são fortes o suficiente para estancar e reverter a perda da natureza até 2030, garantir um futuro nature-positive e assegurar que as pessoas vivam em harmonia com a natureza em 2050. Existem, ainda, muitas deficiências neste primeiro rascunho que comprometem o sucesso do Marco. Nós devemos aprender com o fracasso no alcance das Metas de Aichi: as Partes precisam concordar com um objetivo global ambicioso para a natureza e definir o que é preciso para estancar e reverter a sua atual e catastrófica perda, começando agora. O Marco deve refletir os claros sinais políticos de lideranças, inclusive do G7 Nature Compact e dos 88 chefes de Estado e da União Européia que assinaram o Leaders Pledge for Nature (o Compromisso dos Líderes para a Natureza). Juntamente à ambição, precisam estar presentes metas SMART amparadas por uma framework de monitoramento exaustiva que contenha indicadores apropriados, apoiadas em sistema de implementação robusto e transparente contendo um ‘mecanismo de catraca’ .
O Marco Global de Biodiversidade pós-2020 é a nossa última e melhor chance de alterar o curso da história quanto a perda da natureza e fortalecer significativamente nossas respostas coletivas aos desafios interconectados que enfrentamos atualmente. A perda da natureza, as mudanças climáticas e a desigualdade social precisam ser enfrentadas de forma conjunta para alcançarmos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Apelamos aos governos para que construam um Marco Global de Biodiversidade pós-2020 transformador, relevante, aplicável e executável. Para tal, é necessário vontade política global, um conjunto de metas prioritárias executáveis que são também fortes e mensuráveis, clareza nas obrigações dos diferentes atores para incorporar o valor da natureza nos processos de tomada de decisão, alinhamento de todos os fluxos financeiros com os objetivos do Marco, e ferramentas de implementação e monitoramento para diferentes atores.
Nas negociações iminentes, os governos devem:
– Definir uma missão global para a natureza capaz de impulsionar ação dos negócios: A missão proposta no primeiro rascunho não reflete a urgência e clareza necessárias. Precisamos de uma missão clara, simples e mobilizadora que direcione o caminho a ser percorrido e, portanto, se apresente como: “adotar ações urgentes em toda a sociedade para estancar e reverter a perda de biodiversidade até 2030 de forma a alcançarmos um mundo positivo para a natureza (nature-positive world) para o benefício do planeta e das pessoas”.
A ciência é clara: temos menos de 10 anos para enfrentarmos a perda da natureza. Isto significa que em 2030, precisamos ter estancado e revertido a sua perda para que vivamos em um mundo positivo para a natureza.
Empresas e negócios precisam e esperam que os governos ofereçam direcionamento e senso de urgência no mais alto nível político, definindo o rumo para ações positivas dos negócios em relação à natureza. Segurança a longo-prazo é vital no encorajamento da adoção de modelos de negócios positivos para natureza, garantindo que investimentos e processos de tomada de decisão no âmbito dos negócios estimulem a proteção, restauração e uso sustentável dos recursos naturais.
A liderança governamental em relação à natureza vem crescendo exponencialmente ao longo do último ano. Porém, o nível de ambição no Leaders Pledge for Nature e G7 Nature Compact não está refletido no primeiro rascunho do Marco, e esta ambição não está – ainda – traduzida em ação.
– Valorizar e incorporar a natureza em todos os processos de tomada de decisão: o Marco Global de Biodiversidade deve empenhar os governos para que exijam dos negócios a incorporação, ou mainstreaming, do valor da natureza nos processos de tomada de decisão e divulgação (do inglês disclosure). Governos, empresas e instituições financeiras tomariam decisões melhores se baseados em informações que vão ‘além lucro a curto prazo e PIB’. Apesar deste aspecto já estar refletido nas metas mutuamente complementares 14-15-16 neste primeiro rascunho, respaldando o mainstreaming, estas metas precisam ser melhor elaboradas para garantir o suporte dos governos, exigindo que empresas e instituições financeiras mensurem, divulguem e relatem os valores de suas dependências e impactos em relação à natureza.
– Eliminar ou redirecionar todos subsídios e incentivos prejudiciais à biodiversidade: o Marco Global de Biodiversidade deve incluir uma meta 18 mais clara e ambiciosa que comprometa as Partes a eliminarem ou redirecionarem todos os subsídios danosos. Precisamos fechar uma lacuna de financiamento para a biodiversidade de 711 bilhões de dólares, enfrentar distorções de mercado, estabelecer condições equitativas para a operação dos negócios e cessar o incentivo à superexploração dos recursos naturais. Para que isso aconteça, há uma necessidade urgente de reformar e adaptar financiamentos existentes para garantir que todos os fluxos de financiamento, públicos e privados, estejam alinhados com atividades positivas para a natureza. Subsídios prejudiciais à biodiversidade distorcem preços e decisões sobre alocações de recursos, alterando padrões de produção e consumo, bem como afetam decisões quanto a investimentos.
A transição para um mundo nature-positive que assegure às pessoas uma vida em harmonia com a natureza é tanto necessária quanto alcançável. A Business for Nature encontra-se disposta e pronta para o trabalho conjunto no auxílio à construção de um Marco Global de Biodiversidade que acelere a liderança coletiva quanto à natureza e que garanta um futuro saudável, equitativo e próspero para todos nós.
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WBCSD destaques:
Nature Action Project: para membros WBCSD interessados que queiram uma visão mais clara, para negócios, de como soluções baseadas na natureza beneficiam a biodiversidade e natureza, além de oferecer valor climático, em saúde e social
The Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD), juntamente ao Nature Action Project, elaborou o relatório Accelerating business solutions for climate and nature
– Publicações:
-> Dasgupta Review – WBCSD business brief: síntese do relatório comissionado pelo Tesouro Nacional britânico para dar forma à resposta internacional à perda de biodiversidade e embasar a ação global a partir de contribuições de todos stakeholders. Descreve os custos ocultos do esgotamento do capital natural como o maior obstáculo para criação de valor a longo-prazo, propondo 3 transições abrangentes e interconectadas como soluções à crise sistêmica que vivemos. São elas o balanceamento das demandas da humanidade com o suprimento da natureza, aumentando o suprimento em relação aos níveis atuais; a alteração das atuais métricas de sucesso econômico; e, finalmente, a transformação de instituições e sistemas financeiros e educacionais
-> COVID-19: A Dashboard to Rebuild with Nature. Propõe um ‘painel de controle’ baseado nos dois principais limites planetários da mudança climática e perda da natureza. Conclui que um sistema alimentar nature-positive é a maneira mais efetiva de construir resiliência contra choques futuros – inclusive pandemias
-> Accelerating business solutions for climate and nature. Esclarece definições no suporte do alinhamento entre Soluções Climáticas Naturais com Soluções Baseadas na Natureza para acelerar investimentos e escala. Auxilia, ainda, na navegação das agendas de natureza e climática ao mapear as principais iniciativas, plataformas e convenções para ação coletiva

Leia também:
O preço das dependências e impactos dos negócios em relação à natureza, uma síntese das publicações Recomendações para o escopo técnico da Força-Tarefa sobre Divulgação das Informações Financeiras relacionadas à Natureza (TNFD) e Sumário das necessidades associadas ao escopo, governança, plano de trabalho, captação de recursos e comunicação propostos para a TNFD, produzidas pelo grupo de trabalho informal que deu início às atividades desta força-tarefa
Entre solucionar a crise de biodiversidade e a crise climática, ou se enfrentam ambas ou nenhuma será resolvida, uma síntese do relatório conjunto da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) e do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) que trata das conexões entre as crises climática e de biodiversidade.

Priscilla Santos

Assistente de Sustentabilidade voluntária – CEBDS