No dia 10 de junho de 2021 aconteceu o lançamento oficial da Força-Tarefa sobre Divulgação das Informações Financeiras relacionadas à Natureza (do inglês Taskforce on Nature-related Financial Disclosures, TNFD). Mas  o que é a TNFD? Em síntese, é uma iniciativa global com o objetivo de proporcionar às instituições financeiras e empresas uma visão completa quanto a riscos ambientais. Ela foi anunciada em julho de 2020 e a partir de setembro do mesmo ano, um grupo de trabalho informal (IWG)[1] se dedicou a elaborar recomendações para o escopo e plano de trabalho da TNFD. O lançamento da iniciativa também contou com a publicação de dois relatórios do IWG: recomendações para o escopo técnico da TFND, e um sumário das necessidades associadas ao escopo, governança, plano de trabalho, captação de recursos e comunicação propostos para a TFND. Seguem abaixo os principais pontos de ambas as publicações.

Por que a TNFD é importante?

De acordo com estimativas do Fórum Econômico Mundial, mais da metade da produção econômica global – ou seja, US$ 44 trilhões em geração de valor econômico – é de moderada a altamente dependente da natureza. Diante do agravamento das crises climática e de biodiversidade, a contínua deterioração da natureza implica riscos socioeconômicos graves enquanto a sua recuperação e regeneração representam oportunidades de soluções para ambas as crises com importantes contribuições para a melhoria de indicadores socioeconômicos.

Qual o objetivo da TNFD?

A expectativa é que a TNFD, ao oferecer para organizações uma metodologia de relatoria e ação (ou framework) sobre riscos crescentes associados à natureza, apoie a transição nas finanças de forma a afastar fluxos financeiros globais de resultados negativos e redirecioná-los a resultados positivos para  a natureza. Tanto os impactos da natureza sobre as organizações quanto os impactos das organizações na natureza fazem parte da framework a ser proposta pela TNFD. Destaca-se como um importante componente dos objetivos da TNFD o melhor alinhamento das atividades econômicas ao progresso em direção aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU; à Convenção da Diversidade Biológica (CBD) no âmbito do Marco Global de Biodiversidade pós-2020; e, finalmente, à proteção aos direitos humanos – principalmente indígenas e comunidades locais que desempenham papel fundamental na conservação da natureza.

A quem interessa os trabalhos da TNFD?

Aos investidores, analistas, empresas, agências reguladoras, bolsas de valores e firmas de contabilidade, entre outros. Isso porque a detalhada caracterização financeira do capital natural através da metodologia e demais trabalhos da TNFD, aliada às contribuições da Força-Tarefa sobre Divulgação das Informações Financeiras relacionadas à Mudança Climática (do inglês Taskforce on Climate-related Financial Disclosures – TCFD), permite a esses atores um entendimento robusto dos riscos, oportunidades e cenários econômicos futuros.

Princípios propostos

São sete os princípios propostos como base da TNFD: utilidade de mercado; fundamentação científica; abordagem holística dos riscos relacionados à natureza; orientação para o propósito de reduzir riscos e fomentar ações positivas para  natureza; potencial de integração às ferramentas já existentes e adaptação às mudanças (políticas, normas e standards, condições de mercado); inclusão da conexão clima-natureza dando escala às soluções baseadas na natureza; e, finalmente,  o princípio da inclusão de forma que a iniciativa – em suas abordagens e metodologias – seja relevante, justa, útil e acessível para todos.

Estrutura

Escopo. O escopo da TNFD tem como foco a ‘natureza viva’ – ou seja, a biodiversidade em suas diversas formas de vida – sendo também inclusivo dos elementos relacionados à esta natureza: o ar, o solo e a água. Ele abrange tanto riscos financeiros de curto quanto de longo prazo representados pelas dependências e impactos diretos, upstream e downstream das organizações em relação à natureza. E não se trata de um novo standard. A proposta é que a TNFD funcione como um agregador das melhores ferramentas e materiais disponíveis de forma a promover uma padronização consistente e de alcance global para relatoria e ação relacionada à natureza.

São quatro os pilares da abordagem da TNFD, estruturados de acordo com a maneira em que as organizações operam: governança, estratégia, gestão de riscos e métricas & objetivos.  A metodologia da iniciativa visa oferecer uma maneira estruturada para que as organizações possam relatar e agir com base nos quatro pilares. Ela também será amparada em orientações quanto a como instituições e organizações – financeiras ou não – podem alinhar suas práticas de negócios e finanças de modo a gerir impactos e dependências em relação à natureza. A intenção é que os resultados obtidos sejam integrados às metodologias de relatoria já existentes, como a GRI. Assim, a ideia proposta é que não será exigido das organizações relatoras um ‘relatório TNFD’.

As organizações devem seguir uma abordagem com robusta fundamentação científica para que possam identificar quais impactos, dependências, riscos e oportunidades financeiras são relevantes para suas práticas de negócios e/ou atividades financeiras. Exemplos incluem orientação inicial para empresas oferecidas pela Science-Based Targets Network (SBTN) abrangendo metas baseadas na ciência para a natureza e as recém-publicadas orientações iniciais para planejamento e monitoramento da performance de biodiversidade corporativa (em inglês) da União internacional para a Conservação da Natureza – IUCN.

Entre as recomendações do IWG para a consolidação da TNFD está a priorização e adoção do processo em etapas. Resumidamente, isso quer dizer que existe a sugestão para entidades relatoras de que prioridade em termos de divulgação das informações financeiras relacionadas à natureza seja dada às organizações que dependam e/ou impactem a natureza de forma mais significativa. E considerando este grupo de organizações, entidades relatoras devem priorizar os principais tipos de riscos associados à natureza, bem como aqueles para os quais há dados suficientes e de qualidade prontamente disponíveis. Quanto ao processo em etapas, o IWG reconhece que relatar dependências e impactos upstream e downstream implica grandes desafios em relação às práticas de relatoria atuais. Portanto, a ‘divisão’ do processo em etapas visa balancear os desafios com a consideração de que a inclusão das dependências em relação à natureza é essencial para uma cobertura razoável dos riscos financeiros associados à natureza e, também, com o fato de que os impactos mais significativos na natureza tendem a ocorrer upstream nas cadeias de valor. Assim, dependências e impactos em toda a cadeia de valor seriam requisitados apenas para tipos prioritários de riscos relacionados à natureza em organizações consideradas prioritárias ema uma ‘etapa 1’ ou ‘estágio básico’, com potencial de extensão para demais impactos em outras organizações em um ‘estágio intermediário’ e, finalmente, todas as dependências e impactos em todas as organizações em um ‘estágio avançado’.

Resultados propostos. Entre os vários produtos do trabalho da TNFD entre 2021-2023, são esperados: divulgação de definições quanto à terminologia pertinente de forma clara, precisa, e com base científica; mapeamento de stakeholders; divulgação dos princípios do usuário para que a metodologia possa ser adaptada às diferentes realidades dos usuários; divulgação de um sistema de classificação setor-específico para riscos e oportunidades relacionados à natureza; divulgação, em detalhes, da metodologia (e.g. métricas e suas especificidades em relação ao ‘estágio’ de divulgação das informações financeiras relacionadas à natureza) e orientações técnicas para sua implementação; divulgação de oportunidades-piloto; engajamento com entidades que estabelecem standards bem como com a ‘comunidade de dados’ (e.g. provedores de dados, analistas de dados, etc..).

Plano de Trabalho. O Plano de Trabalho proposto é apresentado de forma a colocar o objetivo, princípios e escopo da TNFD em ação entre 2021 e 2023 seguindo cinco fases (elaboração, testagem, consulta, disseminação e adoção). A fase preparatória, denominada fase 0, incluiu orientações do IWG, o lançamento da TNFD, e estudos preliminares.

As cinco fases contam com detalhes para o desenvolvimento da metodologia da iniciativa, ou TNFD framework, que se dará com base nas melhores contribuições com base científica robusta possíveis, será testada de forma abrangente globalmente, será sujeita a consultas exaustivas com todos stakeholders interessados e, eventualmente, será lançada para adoção massiva do mercado a partir de 2023.

Governança. A estrutura de governança da TNFD é otimizada e se encaixa melhor como uma iniciativa liderada pelo mercado com medidas e responsabilização e balizadores apropriados. Inclui presidência compartilhada (a saber, Elizabeth Maruma Mrema, secretária executiva da Convenção da Diversidade Biológica da ONU; e David Craig, CEO da Refinitiv e líder da divisão Data & Analytics da London Stock Exchange Group – LSEG), representando o setor público e o privado, países desenvolvidos e emergentes, e expertise nos temas natureza e finanças. Inclui, também, um Grupo de Pesquisa (TRG), um Grupo de Membros (cerca de 30, representando corporações financeiras e não-financeiras organizados em Grupos de Trabalho), um Grupo de Administração/Supervisão (principalmente parceiros fundadores da TNFD – Global Canopy, UNDP, UNEP FI e WWF – e potencialmente representantes dos principais financiadores da iniciativa) e um Grupo de Stakeholders.

Com o apoio dos líderes do G7 ao lançamento da TNFD, fica claro o “sinal para os negócios globais e governos da necessidade de ação urgente para frear a degradação da natureza. O declínio da natureza segue em uma escala nunca observada na história da humanidade, o que representa riscos jamais vistos para corporações e instituições financeiras, então a hora é agora para ações decisivas que possam garantir um futuro sustentável” (Elizabeth Maruma Mrema, secretária executiva da Convenção da Diversidade Biológica da ONU e co-presidente da TNFD).

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WBCSD destaques:

Nature Action project: para membros WBCSD interessados que queiram uma visão mais clara, para negócios, de como soluções baseadas na natureza beneficiam a biodiversidade e natureza, além de oferecer valor climático, em saúde e social

Dasgupta Review – WBCSD business brief: síntese do relatório comissionado pelo Tesouro Nacional britânico para dar forma à resposta internacional à perda de biodiversidade e embasar a ação global a partir de contribuições de todos stakeholders. Descreve os custos ocultos do esgotamento do capital natural como o maior obstáculo para criação de valor a longo-prazo, propondo 3 transições abrangentes e interconectadas como soluções à crise sistêmica que vivemos. São elas o balanceamento das demandas da humanidade com o suprimento da natureza, aumentando o suprimento em relação aos níveis atuais; a alteração das atuais métricas de sucesso econômico; e, finalmente, a transformação de instituições e sistemas financeiros e educacionais

Accelerating business solutions for climate and nature. Publicação que esclarece definições importantes, apoiando o alinhamento entre Soluções Climáticas Naturais com Soluções Baseadas na Natureza para acelerar investimentos e escala. Auxilia, ainda, na navegação das agendas de natureza e climática ao mapear as principais iniciativas, plataformas e convenções para ação coletiva

[1] O IWG foi composto por representantes de instituições financeiras e não-financeiras, autoridades reguladoras, ONGs e governos. Foi também assessorado por um grupo técnico de especialistas.

Priscilla Santos
Assistente de Sustentabilidade voluntária – CEBDS