O projeto A Economia do Ecossistema e da Biodiversidade para Agricultura e Alimentos (TEEBAgriFood) apresentou, nos últimos dias 21 e 23 de julho, uma proposta de boas práticas para o setor de alimentos brasileiro. A iniciativa faz parte de parceria firmada entre a TEEB-PNUMA, a Capitals Coalition e o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), com apoio da União Europeia.

O documento foi apresentado durante mesa redonda online, que contou com a participação de representantes de empresas, da área acadêmica e de organizações ligadas ao setor, além de especialistas em geral. As orientações buscam estabelecer diretrizes para avaliação dos capitais naturais, humano e social fundamentais para o desenvolvimento do setor no país.

De acordo com informações levantadas pelo projeto, as cadeias de valor associadas ao agronegócio brasileiro são responsáveis por gerar cerca de 21% do produto interno bruto do país. A atividade está profundamente relacionada à saúde do meio ambiente: depende dos recursos naturais, como terra, água, minerais e organismos vivos e, ao mesmo tempo, afeta a quantidade e qualidade destes recursos.

“As diretrizes buscam estabelecer práticas, orientar investimentos e dar apoio a decisões que transformem a produção global de alimentos, fornecendo às empresas as ferramentas necessárias para identificar e medir os impactos e dependências do capital natural, social e humano”, explica Denise Hamú, Representante do PNUMA no Brasil.

Técnicas avançadas para o setor de alimentos

Os princípios propostos se baseiam em técnicas avançadas para o setor de alimentos, desenvolvido por institutos de pesquisas e empresas agroalimentares para aplicação em todo o mundo. O Brasil faz parte do grupo de sete países nos quais o projeto TEEBAgriFood está sendo implementado, formado também por China, Índia, Indonésia, Malásia, México e Tailândia.

“Uma série de tendências que já vinham acontecendo no setor de alimentos está sendo acelerada com a pandemia. A principal delas é a produção de alimentos para todos, mas com prioridade na acessibilidade e na qualidade. Ainda existe no Brasil uma cultura de abundância que resulta no desperdício de 37 milhões de toneladas de alimentos por ano. A racionalidade também é uma tendência que está sendo aprimorada. Essa parceria é, portanto, uma iniciativa que busca colocar todas essas transformações em termos práticos”, avalia Marina Grossi, presidente do CEBDS.

A parceria com o projeto TEEBAgriFood se insere em um conjunto de ações desenvolvidas pelo CEBDS no setor alimentar, que têm como eixo principal o programa Inteligência Agroclimática (IAC), lançado em 2018. A iniciativa busca agir sobre um paradoxo do agronegócio: ao mesmo tempo em que é um dos principais responsáveis pelas emissões de GEE no país, é proporcionalmente mais vulnerável aos impactos das mudanças climáticas.

O IAC tem suas origens no conjunto de propostas da iniciativa global Low Carbon Technologies Partnerships Inititative (LCTPi), desenvolvido pelo World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), representado no Brasil pelo CEBDS. Entre as ações incluídas na iniciativa, está o Climate Smart Agriculture (CSA), que tem como ambição reduzir em 50% as emissões de gases de efeito estufa (GEE) até 2030. Além da redução de emissões, o CSA tem como objetivo aumentar a produtividade e a resiliência do produtor às mudanças climáticas.

Pandemia aumentou senso de urgência para o setor

Uma das conclusões do encontro foi de que a pandemia da Covid-19 acelerou o senso de urgência para a transformação do setor de alimentos. Além de ser um dos maiores produtores do planeta, o Brasil tem uma dependência da exportação de produtos agropecuários, que responde por 42% das exportações nacionais.

“A produção de grãos cresceu 400% nos últimos 40 anos com um acréscimo de 60% na área. A ideia é produzir mais em uma área menor e liberar a terra para outros fins, como reflorestamento, por exemplo. Estamos entrando no que vai ser a década mais verde. É um caminho sem volta e até 2030 teremos toda uma agenda verde como prioridade”, avaliou Renato Rodrigues, pesquisador da Embrapa.

O diretor executivo do IPAM, André Guimarães, lembrou que mais de 90% da agricultura nacional não é irrigada, além do país ser um dos únicos que consegue de duas a três safras anuais, uma característica das condições climáticas do Brasil. O desafio, observou Guimarães, é tornar os serviços ambientais em uma vantagem competitiva. “Precisamos remunerar ou incorporar esses serviços ambientais que tornam a agricultura tão vigorosa”.

Os modelos atuais de produção precisam se adequar a essas mudanças que reforçam a sustentabilidade como um bom negócio. “Precisamos de novos modelos de produção mais adequados a essas novas demandas da sociedade. Temos a oportunidade de reconstruir a nossa economia, em um movimento análogo ao pós-guerra, com foco em infraestrutura e políticas sociais. É uma oportunidade de revistar nossas prioridades e investir em modelos produtivos que priorizem uma produção mais sustentável”, destacou.

Para o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Peter May, um dos trajetos passa pela recuperação de pastagens degradadas. No país, mais de 90 milhões de hectares de pastagens estão abaixo da sua capacidade produtiva. “Pensar na restauração dos sistemas agropecuários é uma ideia simples. Esse movimento agrega valor à terra e às populações, além de garantir que o uso do solo seja mais sustentável e forneça serviços ambientais na totalidade da sua capacidade”, defendeu.