Bioeconomia é caminho para desenvolvimento sustentável na Amazônia

Carlos Nobre, pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP, apresenta projeto que propõe explorar potencial econômico da biodiversidade por meio das novas tecnologias

Qual o potencial econômico da floresta amazônica em pé? Esse valor ainda não foi mensurado, embora existam alguns exemplos que permitam ter uma ideia das oportunidades de negócio em jogo. O valor anual da produção de carne e soja, por exemplo, é de R$ 604,00 por hectare; no caso do açaí, cacau e castanha, esse valor chega a R$ 12,3 mil. “Um grama do veneno de uma cobra surucucu vale 4 mil dólares, por exemplo. Mas o potencial não está no que a gente vê; está no que a gente ainda não conhece”, disse o cientista Carlos Nobre, em palestra sobre o projeto Amazônia 4.0, em evento promovido pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) na manhã desta sexta-feira (25), no Rio de Janeiro. 

Na visão do pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP, a exploração econômica e social do potencial de uma inovadora bioeconomia baseada na biodiversidade é a terceira via para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. “A primeira via foi a da proteção. A Amazônia é a floresta tropical com a maior área e a mais protegida do mundo (47% são áreas protegidas). Mas isso é suficiente? O avanço da agropecuária sobre a área protegida mostra que não”, afirmou Nobre. A segunda via, explicou, foi o aumento da eficiência da produção de commodities. “Essas são condições necessárias, mas estão longe de serem suficientes para assegurar o desenvolvimento sustentável da Amazônia. Então, só fazer o alerta não é suficiente. Por isso, a partir de 2016, começamos a olhar o potencial econômico da Amazônia”, completou.

O projeto Amazônia 4.0 prevê realizar a 4.ᵅ revolução industrial para a Amazônia, por meio das novas tecnologias, como sistemas ciberfísicos, Internet das Coisas, redes de comunicação e outras. “Há urgente necessidade de implementar soluções disruptivas. “O caminho é combinar o mundo dos ativos biológicos e biomiméticos (aprender como a natureza resolveu um problema) com tecnologias avançadas num círculo virtuoso”, disse Nobre.

Presente no evento, a presidente do CEBDS, Marina Grossi, reforçou a mensagem de que preservar e produzir não são verbos antagônicos e acrescentou que algumas das grandes empresas com presença e atuação na Amazônia vêm apresentando soluções e modelos de negócios que partem da bioeconomia. “Esse é modelo que deve vigorar numa sociedade que exige maior valor agregado, incluindo a rastreabilidade confiável desse produto”, disse Marina.

Hoje, mais de 245 espécies da flora brasileira já são base de produtos cosméticos e farmacêuticos e ao menos 36 espécies botânicas nativas possuem registros de fitoterápicos. Cerca de 80 famílias e 469 espécies de plantas são cultivadas em sistemas agroflorestais. Nesse contexto de grande potencial econômico, na visão do cientista, o que falta é industrialização, mas dentro de um modelo descentralizado. “A Amazônia Legal tem 4.438 localidades. E as tecnologias modernas permitem desenvolver modelos industriais descentralizados”, defendeu.

Atualmente, o Amazônia 4.0 tem três projetos em desenvolvimento na região. Os Laboratórios Criativos da Amazônia funcionam em tendas ou em plataformas flutuantes para experimentação inovadora em comunidades amazônicas, desenvolvendo capacidades para uma transformação socioeconômica inclusive e baseada na biodiversidade da Amazônia. O Desenvolvimento de Capacitação Local é realizado em território Yanomami e voltado para a cadeia do cupuaçu e do cacau. Só no território indígena Yanomami tem mais de 400 variedades de cacau. “Há um terceiro projeto, que é o Genômica, voltado para o potencial de recursos genéticos. É um laboratório que tem um sequenciador portátil e faz registro de blockchain. Isso tem um enorme potencial econômico”, afirmou o cientista.

Na visão do pesquisador, se ganhar escala industrial, essas oportunidades de negócio podem transformar o Brasil na primeira potência mundial em bioeconomia.

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