Órgãos oficiais de monitoramento climático confirmam alta probabilidade de um dos El Niños mais intensos das últimas décadas até o fim de 2026, com efeitos que vão da seca no Norte e Nordeste a chuvas excessivas no Sul, um cenário que exige atenção redobrada de empresas e cadeias produtivas.
O Brasil deve enfrentar um dos episódios de El Niño mais intensos das últimas décadas até o final de 2026, apontam diversos institutos de pesquisa. O El Niño é um fenômeno climático natural associado ao aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, capaz de alterar significativamente os padrões globais de precipitação, temperatura e circulação atmosférica.
Embora seja um fenômeno recorrente, seus impactos vêm se tornando mais severos em um contexto de mudanças climáticas, pressionando sistemas hídricos, cadeias produtivas e ecossistemas estratégicos. Estudos recentes indicam que eventos intensos de El Niño podem gerar perdas econômicas globais de longo prazo, afetando simultaneamente disponibilidade de água, produtividade agrícola, energia, biodiversidade e estabilidade social. É o que apontam o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden) e o Serviço Geológico do Brasil (SGB), que publicaram em conjunto o primeiro boletim oficial de monitoramento do fenômeno em 2026.
De acordo com este documento, os modelos climáticos indicam mais de 90% de probabilidade de o El Niño persistir pelo menos até o início de 2027, com boas chances de atingir a classificação de “muito forte”, quando o aquecimento das águas do Pacífico Equatorial ultrapassa 2°C acima da média histórica. A expectativa é de que o fenômeno atinja seu pico entre outubro e dezembro, período que coincide justamente com o início do plantio da nova safra agrícola brasileira.
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Impactos regionais distintos
O El Niño não afeta o país de forma uniforme. Enquanto Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste tendem a registrar redução de chuvas, temperaturas mais altas e maior risco de estiagens prolongadas, a Região Sul historicamente enfrenta o efeito oposto: excesso de chuvas, encharcamento do solo e maior incidência de doenças fúngicas nas lavouras um padrão que já começou a se manifestar, com o volume de chuvas acima da média registrado no Rio Grande do Sul em julho.
Já para agosto, a previsão é de dias quentes e secos no Sudeste e Centro-Oeste, com umidade relativa podendo cair abaixo de 20% em estados como Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal e no oeste de Minas Gerais e da Bahia.

Um fenômeno com histórico de impacto econômico relevante
Os El Niños de 1997/1998 e 2015/2016 ambos classificados como muito fortes deixaram marcas importantes na economia brasileira: estiagens prolongadas, redução da geração hidrelétrica, queda nos níveis de reservatórios e aumento de queimadas em áreas de vegetação mais suscetíveis à seca. O episódio de 2026 preocupa autoridades justamente pela possibilidade de intensidade comparável.
Entre os setores mais sensíveis está o energético: por depender fortemente de fontes hídricas, o Brasil pode ter a geração de energia impactada em bacias estratégicas, com reflexos em toda a cadeia produtiva. A agricultura também está no centro das atenções, já que o fenômeno atinge diretamente culturas de sequeiro, aquelas sem sistema de irrigação justamente no início do ciclo da nova safra. Some-se a isso um efeito que chega ao bolso do consumidor: o Banco Central já reconhece o potencial inflacionário do fenômeno sobre os preços de alimentos in natura.
Por que isso importa para as empresas
Fenômenos climáticos extremos deixaram de ser apenas uma pauta ambiental para se tornar uma questão direta de gestão de risco, planejamento e competitividade para as empresas brasileiras. Segurança hídrica, resiliência energética e estabilidade das cadeias agroalimentares são temas que já estão no centro da agenda das Câmaras Temáticas do CEBDS especialmente as de Água, Clima e Energia, e Sistemas Agroalimentares e reforçam a importância de o setor privado antecipar cenários, e não apenas reagir a eles.
A atuação coordenada entre governo, ciência e setor produtivo é apontada pelos próprios órgãos oficiais como fundamental para reduzir os impactos do fenômeno sobre a população e a economia brasileira, um princípio que está no centro da atuação do CEBDS como articulador entre empresas, governo e sociedade.

