O setor empresarial e o oceano: o potencial transformador da economia circular azul

Data: 25/06/2021
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Na sabedoria popular diz-se que “tudo que vai, volta”. Na natureza a semente germina e gera planta, flores e frutos que retornam outras sementes. O ciclo da água, que abordamos no texto anterior desta série “O Setor Empresarial e o Oceano”, mostra que as águas dos rios desaguam no oceano que, por sua vez, regula o clima e as chuvas que alimentam as nascentes dos rios. Nesta mesma lógica está a economia circular como uma das grandes prioridades para o setor empresarial: desenvolver processo produtivos que minimizem resíduos e restaurem sistemas naturais, valorizando a sociobiodiversidade e, desta forma, garantindo um futuro sustentável e de negócios promissores. Se o desenvolvimento sustentável nos demanda a tomada de decisão eficiente e inovadora, nesta discussão quero trazer o diferencial para a economia circular: que ela incorpore o azul.

A economia circular envolve uma mudança dos processos produtivos e da mentalidade, valores e cultura empresarial, que passam também por uma mudança da relação com os clientes e das políticas públicas. Enquanto para empresas do setor marinho a economia circular pode estar associada aos processos de origem do pescado, considerando a aquicultura sustentável, o bem-estar animal e a pesca artesanal; todas as empresas podem atuar na diminuição da poluição e dos resíduos urbanos e os plásticos nos corpos d’água, um exemplo clássico da relação entre economia circular e oceano. As ações podem ocorrer desde mudanças através de reciclagem, como o Centro de Reciclagem Nespresso, até o desenvolvimento de matérias primas ecológicas e substituição de componentes por resíduos coprocessados, como os exemplos da Braskem e Votorantim Cimentos. Ainda, considerando os diferentes elos da cadeia e as questões sociais, ações como da Ambipar que integram gestão de resíduos em parceria com cooperativas e setores da reciclagem trazem caminhos para o desenvolvimento da economia circular que geram impacto positivo para o oceano.

Porém, desenvolver a economia circular azul vai além das questões de poluição e representa uma oportunidade visionária e ambiciosa na tomada de decisão de negócios. Enquanto a economia circular demanda soluções baseadas na natureza, o design necessário para a economia circular demanda investimento em ciência, tecnologia e inovação para o desenvolvimento de novos sistemas e materiais. O oceano ocupa 70% da superfície do planeta e possui uma ampla diversidade de recursos renováveis e não renováveis. Portanto, o oceano é uma fonte de recursos inexplorados que podem servir de fonte para design inovadores e sustentáveis. Direcionar o planejamento estratégico empresarial em ciência, tecnologia e inovação para a ciência oceânica trará novas oportunidades para uma transformação em longo prazo que beneficia não apenas a sustentabilidade do oceano, mas permite a restauração de recursos terrestres e dulcícolas comumente explorados.

A ‘Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável’ convida para uma visão de futuro a partir de ciência, tecnologia e inovação empresarial (ODS9) para a transformação sistêmica necessária para a economia circular. A Década do Oceano traz uma oportunidade de inovação no modelo de negócios a partir de uma agenda multisetorial (ODS17) e com decisões cientificamente embasadas para o desenvolvimento sustentável e que beneficia a saúde e bem-estar humano. Esta oportunidade propõe o consumo e produção sustentáveis (ODS12), ao mesmo tempo que promove trabalho decente e crescimento econômico (ODS8) a partir de processos sustentáveis (ODS6, ODS7) que promovem cidades resilientes (ODS11) e atuam no combate às mudanças climáticas (ODS13), com restauração dos ambientes aquáticos (ODS14) e terrestres (ODS15). Enquanto os planos de restauração econômica pós-pandemia indicam a economia circular como prioridade, investir na economia circular azul atende a um plano de desenvolvimento sustentável global, maximizando os investimentos e oportunidades no processo de restauração econômica com impactos a longo prazo. Se “tudo que vai, volta”, investir agora na economia circular azul é garantia de atingir a Visão 2050 do CEBDS com sucesso.

 

Esse texto é resultado da parceria entre o CEBDS, UNESCO e Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, ambos os órgãos que estão liderando a implementação da Década da Ciência Oceânica da ONU no Brasil.      

 

 Texto de autoria de:

Ronaldo Christofoletti

Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo

Coordenador do Programa Maré de Ciência

Membro do Communication Advisory Group for the UN Ocean Decade – IOC UNESCO