O setor empresarial e o oceano: a biodiversidade marinha como oportunidade de negócios

Data: 17/05/2021
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A biodiversidade tem recebido destaque nos processos produtivos de diferentes setores empresariais. Porém, apesar do oceano concentrar a maior biodiversidade do planeta, muito menos atenção temos dado ao ambiente marinho em nossas discussões. Para promover a discussão das metas da Agenda 2030, a ONU declarou a ‘Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável’, onde ações em prol de todos os 17 ODS podem ser realizadas considerando os mares, oceano e a zona costeira. A Década do Oceano, como é popularmente conhecida, não é mais uma agenda ou demanda para os grupos. Ela é uma oportunidade de organizar os processos existentes, inovando em ações que se relacionam com todos os ODS em um cenário costeiro onde se concentram as maiores cidades, fluxos turísticos e oportunidades de negócios. Este é o primeiro texto da série “o setor empresarial e o oceano”, um convite para o engajamento do setor empresarial na Década do Oceano. 

A Década considera o papel fundamental da ciência para a tomada de decisão, dos indivíduos, governos e empresas, uma característica essencial destacada durante a pandemia e presente nos discursos de lideranças globais, como o presidente Joe Biden dos EUA. E como isso se relaciona com a biodiversidade? É no oceano que está a maior biodiversidade e de serviços ecossistêmicos no planeta e, por consequência, o maior potencial de novos negócios sustentáveis. Além da manutenção do funcionamento dos ecossistemas, fluxo de energia, regulação climática, alimentos (17 a 50% do consumo de proteína animal mundial vem do oceano), bem estar humano e aspectos culturais, existe um enorme potencial de uso sustentável da biodiversidade marinha, em especial de aspectos biotecnológicos que trazem oportunidade de inovação e ampliação de negócios sustentáveis. 

O Brasil possui a Amazônia Azul, com uma estimativa de que mais de 20% do PIB nacional venha do oceano e zona costeira. Esta economia azul necessita de ações interdisciplinares, que integre diferentes setores da sociedade e que desenvolva a ciência, tecnologia e inovação, como a inteligência artificial associado a coleta de dados, contribuindo para a conservação e uso sustentável do oceano. Porém, existe muito sobre a biodiversidade marinha a ser descoberto, e as empresas podem investir neste conhecimento que será a base para o desenvolvimento sustentável. 

Conhecer mais sobre a biodiversidade e seus serviços ecossistêmicos amplia também as fontes de obtenção de recursos e as oportunidades de inovação de produtos ao mesmo tempo que minimiza os impactos de sobre-exploração das mesmas espécies. A biodiversidade marinha é uma das mais impactadas pelo acúmulo de impactos ambientais costeiros, como a sobrepesca, poluição e perda de habitats. A avaliação de como os processos produtivos impactam na biodiversidade e, por consequência, no funcionamento dos ecossistemas, é uma etapa essencial para atingir a meta da Década do Oceano de termos ‘um oceano limpo’ em 2030. Enquanto a poluição por plásticos é a mais abordada na discussão atual, muitos outros poluentes (fertilizantes, resíduos químicos, efluentes industriais) impactam a zona costeira. Um desafio dado pela ONU é apresentar soluções inovadoras que integrem as ações empresariais em prol da biodiversidade às agendas globais e demandas sociais. 

Para o setor empresarial, alinhar suas ações sobre biodiversidade e biotecnologia à Década do Oceano é uma oportunidade de destaque em um movimento global. Este alinhamento não traz mais uma demanda, ele traz a oportunidade de atualizar os processos existentes junto à principal agenda global mundial.      Este é o momento para que as empresas possam avaliar as oportunidades e assumir o papel destaque em um movimento global que está se iniciando. No Brasil, inúmeras ações têm sido realizadas sob a liderança da UNESCO e Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações que envolvem desde políticas públicas a programas de engajamento social. Considerar o oceano, a biodiversidade costeira e marinha e a economia azul são oportunidades que farão a diferença na recuperação após a pandemia e ao longo da próxima Década. O setor empresarial brasileiro tem o potencial de assumir a liderança e destaque nesse processo a partir das ações que já realiza e que podem se alinhar aos objetivos da Década do Oceano.  

 

Ronaldo Christofoletti

Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo

Coordenador do Programa Maré de Ciência

Membro do Communication Advisory Group for the UN Ocean Decade – IOC UNESCO