Valoração dos serviços ambientais é caminho para o setor de alimentos

Data: 23/07/2020
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A pandemia da Covid-19 acelerou o senso de urgência para a transformação dos sistemas alimentares. A complexidade de se fornecer alimentos com qualidade nutricional, acessíveis e respeitando os limites do planeta para uma população mundial projeta em 10,9 bilhões de pessoas é grande. Principalmente para o Brasil que, além de ser um dos maiores produtores de alimentos do planeta, tem uma dependência da exportação de produtos agropecuários, que responde por 42% das exportações nacionais.

Produzir mais utilizando os mesmos – ou menos – recursos, é um dos objetivos desse novo agronegócio. O pesquisador da Embrapa, Renato Rodrigues, acredita que a intensificação sustentável na produção permite aumentar a produção exponencialmente. “A produção de grãos cresceu 400% nos últimos 40 anos com um acréscimo de 60% na área. A ideia é produzir mais em uma área menor e liberar a terra para outros fins, como reflorestamento, por exemplo. Estamos entrando no que vai ser a década mais verde. É um caminho sem volta e até 2030 teremos toda uma agenda verde como prioridade”.

A valoração dos serviços ambientais é uma das possibilidades de transformação dos sistemas alimentares, considerando a complexidade da agricultura brasileira. Segundo o diretor executivo do IPAM, André Guimarães, mais de 90% da agricultura nacional não é irrigada, além do país ser um dos únicos que consegue de duas a três safras anuais, uma característica das condições climáticas do Brasil. O desafio é tornar os serviços ambientais em uma vantagem competitiva. “Precisamos remunerar ou incorporar esses serviços ambientais que tornam a agricultura tão vigorosa”.

Os modelos atuais de produção precisam se adequar a essas mudanças que reforçam a sustentabilidade como um bom negócio. “Precisamos de novos modelos de produção mais adequados a essas novas demandas da sociedade. Temos a oportunidade de reconstruir a nossa economia, em um movimento análogo ao pós-guerra, com foco em infraestrutura e políticas sociais. É uma oportunidade de revistar nossas prioridades e investir em modelos produtivos que priorizem uma produção mais sustentável”, destacou.

O debate sobre a transformação dos sistemas alimentares ocorreu na terça-feira, 21, durante evento promovido pelo projeto A Economia do Ecossistema e da Biodiversidade para Agricultura e Alimentos (TEEBAgriFood), realizado em parceria com o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) e a Capitals Coalition, com apoio da União Europeia. A mesa redonda virtual reuniu especialistas e representantes do setor privado para desenhar caminhos para um agronegócio mais sustentável.

Para o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Peter May, um dos trajetos passa pela recuperação de pastagens degradadas. No país, mais de 90 milhões de hectares de pastagens estão abaixo da sua capacidade produtiva. “Pensar na restauração dos sistemas agropecuários é uma ideia simples. Esse movimento agrega valor à terra e às populações, além de garantir que o uso do solo seja mais sustentável e forneça serviços ambientais na totalidade da sua capacidade”, defendeu.