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Ciência e visão de futuro

  • Publicado em 25/11/2014

James Beresford, Diretor Sênior, CISL (University of Cambridge Programme for Sustainability Leadership), Aris Vrettos, Diretor do BSP (Business and Sustainability Programme) do CISL, e Marina Grossi, Presidente do CEBDS. O CISL e o CEBDS trazem novamente ao Brasil o segundo curso BSP de 24 a 27 de novembro em São Paulo.

Mudanças no planeta Terra: seriam as transformações tão grandes, complexas e imperceptíveis para que nós possamos considerá-las?

Em 12 de maio de 2014, os pesquisadores da NASA publicaram evidências de que partes da camada de gelo da região oeste da Antártica estão derretendo rapidamente, e passaram do “ponto sem retorno”. O derretimento inexorável destas vastas geleiras vai demorar, mas elas contém gelo suficiente para eventualmente aumentar o nível de mar em 1.2 metros. Em nove de setembro a Organização Meteorológica Mundial (OMM) informou que os oceanos estão acidificando em um nível não visto nos últimos 300 milhões de anos. No mesmo dia, a organização anunciou que o ano de 2013 teve o maior aumento de CO2 na atmosfera dos últimos 30 anos.

O que podemos concluir a partir destas evidências? Dependendo da sua perspectiva, esses sinais podem despertar um interesse passageiro, ou você pode achar que eles são altamente perturbadores.

Para a maioria de nós, esses acontecimentos tem pouca relevância diante das preocupações e pressões do dia-a-dia. E ainda assim é o impacto cumulativo daquilo que fazemos no nosso dia-a-dia que nos trouxe a um estágio aonde os seres humanos são a força dominante que modela o ambiente natural – uma nova era geológica que os cientistas chamam de “Antropoceno”. Nossa influência coletiva sobre os processos naturais vai além do sistema climático e impactam outros sistemas, como o hidrológico e os ciclos de nutrientes. Chegar à era do Antropoceno significa que nossa atividade econômica gera consequências dramáticas. Já virou um clichê dizer que vivemos em um mundo cada vez mais interconectado, mas uma verdade é incontestável: nossas economias e sociedades são agora intimamente ligadas ao meio-ambiente global. Dada essa complexidade, como você define sua visão em relação a como o futuro pode se desenvolver?

Dialogando com a ciência para construir sua visão

O Painel Intergovernamental para Mudanças Climática (IPCC), organismo internacional que reúne milhares de cientistas que trabalham e tem acesso ao que há de mais recente em termos científicos e apresentam os resultados de suas pesquisas aos governos, recentemente lançaram uma síntese de seu quinto relatório. Compilando a ciência física por trás das mudanças climáticas, conclui que as transformações no Clima são incontestáveis e que as atividades humanas, particularmente as emissões de dióxido de carbono, são muito provavelmente a causa dominante. Se as emissões continuarem a aumentar no atual ritmo, no final do século, teremos temperaturas médias de 2.6–4.8 graus Celsius (°C) acima das atuais, e níveis do mar 0.45–0.82 metros maiores do que os existentes.

O último relatório do IPCC não é uma leitura agradável e pode ser difícil aceitar suas conclusões. Essas constatações tem um alto grau de confiança científica. Vale parar para refletir sobre o quão notável é o nível de consenso. A ciência é, por natureza, permeada por pontos de vistas antagônicos – sua evolução é baseada no contínuo processo de conjeturas e refutações–, então quando a vasta maioria dos cientistas que estão na vanguarda tem a mesma opinião, realmente deve haver uma evidência concreta. É seguro concluir que seguir o mesmo caminho – cegamente ou passivamente- irá nos levar a mudanças sem precedentes no habitat humano.

Claro que ações estão sendo tomadas. Para prevenir os impactos mais devastadores das mudanças climáticas, os governos concordaram em limitar o aumento da temperatura média global a um máximo de 2o Cacima dos níveis pré-industriais.

Entretanto, mesmo que nós possamos pôr fim às emissões imediatamente- CO2 suficiente já foi emitido na atmosfera e novas infraestruturas que usam combustíveis fósseis já foram planejadas de modo que as temperaturas continuarão a subir.

Inevitavelmente, as empresas devem se preparar para um futuro mais turbulento – se adaptando a novos extremos climáticos (como podem ser vistos nestes relatórios do clima para 2050), a novas políticas, a novas preferências de consumo e alterando a opinião pública. Está em curso um esforço para ajudar as empresas a entender isso melhor. Por exemplo, um projeto chamado Ação 2020 propõe um roteiro para que as empresas possam influenciar positivamente tendências ambientais e sociais enquanto reforçam sua própria resiliência para enfrentar questões como mudanças climáticas, dinâmicas demográficas e escassez de competências.

Pode a ciência ajudar a construir cenários de negócios? Uma série de breves infográficos da Universidade de Cambridge, extraído do relatório IPCC, visa guiar tomadores de decisão em direção aos temas-chaves dos seus setores. Produzido pelo CISL (Cambridge Institute for Sustainability Leadership), pelo Cambridge Judge Business School e pela European Climate Foundation, esses resumos condensam as principais conclusões do relatório do IPCC em sínteses objetivas e específicas por setores, sendo considerados 11 setores. A seguir temos um exemplo do infográfico “Mudanças Climáticas: Implicações para as cidades”.

Cidades concentram os impactos, riscos e oportunidades de investimentos

A maioria da população do mundo agora vive nas cidades (53% em 2013). Muitos riscos emergentes de mudanças climáticas estão concentrados nas áreas urbanas, devido à concentração da população, empreendimentos construídos e atividades econômicas. Os impactos das mudanças climáticas em cidades estão aumentando em severidade. Temperaturas crescentes causando estresse térmico e problemas de saúde, perda de recursos hídricos, aumento do nível do mar e da quantidade de tempestades afetando cidades costeiras, eventos extremos de clima como inundações e secas, e riscos à segurança alimentar.

A exposição a estes riscos vai aumentar, uma vez que a previsão é que a população urbana mundial dobre de tamanho até 2050. Quase todo o crescimento irá acontecer em regiões menos desenvolvidas, aonde vive hoje uma população de 5,3 bilhões em países em desenvolvimento, que deve atingir os 7,8 bilhões em 2050. A rápida urbanização em países de renda baixa e média já aumentou o número de comunidades urbanas vulneráveis que moram em habitações informais, muitas delas a um alto risco de eventos de clima extremos. É exatamente isso que temos observado na situação da seca em São Paulo e suas implicações para a sociedade e para a economia brasileira. Hoje por volta de 150 milhões de pessoas vivem em cidades com escassez de água, e é esperado que esse número atinja até 1 bilhão de pessoas até 2050, de acordo com alguns cenários. Cidades costeiras – particularmente aquelas com grandes portos, instalações petroquímicas e de energia – são particularmente vulneráveis ao aumento do nível do mar e de tempestades. O valor dos bens expostos a esse tipo ao risco de inundação em 2050 foi estimado em US$5 trilhões ou por volta de 5% do PIB global. Nos próximos 60 anos, esse valor é projetado para atingir 9% do PIB global.

Essas mesmas áreas de rápida urbanização que estão em risco, são as que oferecem as maiores oportunidades para bons investimentos em mitigação e adaptação. Construindo uma infraestrutura de baixo carbono que seja resiliente às perturbações climáticas e permitindo o desenvolvimento sustentável em áreas urbanas pode acelerar o sucesso da adaptação global as mudanças climáticas. Na prática, isso ocorrerá através de investimentos significativos em construções, energia, transporte e novas indústrias. Por exemplo, cidades com crescimento dinâmico oferecem uma maior oportunidade de reduzir emissões a partir do uso da energia, assim como emissões de gases de efeito-estufa podem ser praticamente eliminadas para novas construções. Modernizar construções existentes também pode alcançar dramáticas reduções de emissões e economias substanciais de energia. Uma estimativa indica que as necessidades de aquecimento central podem ser reduzidas de 50 a 90% anualmente em condomínios com um custo de US$100 a 400 por metro quadrado.

 

Esteja preparado

Costuma-se destacar que evitar uma crise climática e suas implicações não está acima de nossa habilidade e que empresas podem gerar significativas economias de custo e oportunidades de inovação– se elas conseguirem desenvolver, a tempo, uma boa estratégia. A realidade é que dado a atual situação e trajetória, nós podemos esperar que haverá – e já há- ganhadores e perdedores na corrida em direção a uma economia de baixo-carbono e resiliente às alterações climáticas.

Apesar de muitas empresas terem desenvolvido objetivos e indicadores de sustentabilidade, poucas têm uma visão de baixo-carbono. Muitas indústrias irão requerer mudanças transformadoras para conseguir se adaptar e sobreviver, sem falar em manter-se competitiva. Por exemplo, a indústria de serviços Europeia já está vivendo uma grande ruptura, conforme a ciência força os tomadores de decisão a criar incentivos de energia renovável, o qual assim que mercados e consumidores se adaptarem, irão, por fim, destruir os modelos atuais de negócio de produção de eletricidade.

Nesse contexto, a única estratégia viável é se valer da ciência para reforçar o grau de preparo e reposta. Entendendo onde e como os impactos multifacetados afetam as decisões dentro do contexto operacional empresarial, líderes de negócios e sustentabilidade podem antecipar riscos, tendências de mercado e de políticas públicas, adotar novas estratégias e testar os modelos de negócios que irão prosperar em um mundo em aquecimento que tenta caminhar para uma trajetória de baixo-carbono.

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