Um catálogo vivo de soluções verdes para o mundo

Por Marina Grossi para o Estadão*

Embora frequentemente tratadas como crises distintas, a emergência climática e a perda de biodiversidade estão interligadas e são catalisadoras de um mesmo desequilíbrio sistêmico. Ambas decorrem de atividades humanas que comprometem os ciclos naturais essenciais à vida na Terra. Segundo o IPBES (Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos), cerca de um milhão de espécies estão ameaçadas de extinção, enquanto o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) alerta que um aumento de 2°C pode colocar até 18% das espécies terrestres em alto risco. As florestas, que abrigam 80% da biodiversidade terrestre e desempenham papel crucial na regulação do clima, são a linha de frente desta crise. 

No entanto, apenas conservar as florestas não é suficiente: é preciso regenerá-las, com reflorestamento e restauração em larga escala. Aumentar a presença de infraestrutura verde nas cidades e adotar práticas que sequestram carbono na agricultura, como os sistemas produtivos agroflorestais – tudo isso faz parte de um amplo leque de possibilidades, conhecidas como as soluções baseadas na natureza (SbN). Essas tecnologias andam de mãos dadas com a bioeconomia, o modelo de desenvolvimento que utiliza recursos de forma responsável e inovadora, a partir do uso sustentável da biodiversidade e de saberes tradicionais e científicos. 

Para um país megadiverso como o Brasil, com seus ricos biomas e experiência em agricultura e conservação, ambos os conceitos trazem incontáveis oportunidades, que começam a ser aplicadas em diferentes iniciativas, ainda que em pequena escala. De acordo com o estudo Soluções Baseadas na Natureza para os Negócios, publicado em 2021 pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), o país concentra cerca de 20% do potencial global não explorado de SbN, com destaque para conservação de florestas naturais (63%), reflorestamento (21%) e práticas regenerativas na agropecuária (14%). Empresas de setores variados já desenvolvem projetos com práticas restaurativas em bacias hidrográficas, florestas e comunidades locais, gerando benefícios socioambientais e econômicos. Temos ainda iniciativas de agricultura regenerativa no Brasil que aumentam a produtividade, sequestram carbono e promovem a conservação do solo e da biodiversidade. 

O desafio corrente é justamente amplificá-las, e para isso é necessário mobilizar capital. Não à toa, o financiamento de programas voltados tanto às SbN quanto à bioeconomia tem sido tema tanto nas COPs de clima quanto de biodiversidade – e a COP30, em Belém, será um grande palco para esse debate. O setor produtivo tem um papel importante em destravar essa pauta: globalmente, apenas 18% dos investimentos em SbN vêm de investimentos privados – em 2022, alcançaram US$ 35 bilhões, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP, na sigla em inglês). Esse volume de recursos precisaria chegar a pelo menos US$ 200 bilhões até 2030 para se alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) ligados à proteção da biodiversidade.

Aumentar a escala de investimentos em biodiversidade é um dos objetivos da Coalizão Brasileira de Finanças para Restauração e Bioeconomia (BRB Finance Coalition). Lançada durante a Cúpula do G20 no Brasil, em novembro de 2024, por lideranças dos setores público e privado, a Coalizão tem a meta de mobilizar US$ 10 bilhões até 2030 para acelerar os esforços de conservação e restauração das florestas do país, por meio do apoio a iniciativas voltadas à restauração de pelo menos 5 milhões de hectares de floresta, ao sequestro de pelo menos 1 gigatonelada de emissões de CO₂ até 2050, e ao investimento de US$ 500 milhões em projetos que beneficiem povos indígenas e comunidades locais, com foco especial na região amazônica.

O Brasil também deu um passo importante ao lançar, no ano passado, a Estratégia Nacional de Bioeconomia, que agora se desdobrará nos Planos de Bioeconomia e Sociobioeconomia. Como apoio ao governo brasileiro, um consórcio formado pelo CEBDS, Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura, Instituto Arapýaú e The Nature Conservancy (TNC) está oferecendo suporte técnico para a Secretaria de Bioeconomia na elaboração desses planos. Há muito trabalho a ser feito para enfrentar obstáculos para o desenvolvimento do setor, tais como a insegurança jurídica, a ausência de uma taxonomia oficial para essas atividades, pipelines de projetos imaturos, a escassez de instrumentos financeiros adequados e a baixa articulação entre setor público, iniciativa privada e agentes comunitários. 

O papel do setor privado e das instituições financeiras no fomento a um novo modelo de desenvolvimento, focado na conservação e restauração da natureza, é múltiplo – mas precisa aterrissar. Fortalecer o acesso a crédito e arranjos de cofinanciamento para a bioeconomia a partir do potencial dos biomas, apoiar a capacitação e infraestrutura regionais e adotar modelos de avaliação de risco e retorno que levem em conta os impactos sistêmicos positivos de longo prazo dos investimentos sustentáveis são alguns exemplos de ações que podem ser tomadas.

O agravamento da crise climática que temos presenciado – 2025 segue em um ritmo alarmante de aumento da temperatura média global – nos obriga a olhar para além das fragilidades de um modelo econômico vigente que movimenta o PIB a partir da exploração predatória dos recursos naturais. O Brasil tem atributos tangíveis para se posicionar como um provedor de soluções – um catálogo vivo de tecnologias verdes para o mundo – que nascem tanto do nosso patrimônio natural (biomas e biodiversidade) quanto sociocultural (povos, culturas e saberes extremamente diversos). Para efetivarmos esse lugar de liderança, precisamos de uma abordagem integrada que combine proteção ambiental, inovação tecnológica, respeito aos direitos humanos e a promoção de uma economia sustentável. 

* Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), entidade com 28 anos de atuação e 120 grandes empresas associadas

compartilhe:

Assine nossa newsletter

Informe seu e-mail e receba os nossos conteúdos. Respeitamos a privacidade das suas informações não compartilhando-as com ninguém.

Notícias relacionadas

Confira as notícias mais atuais e relevantes para ficar por dentro do que está em debate na agenda do Desenvolvimento Sustentável.

Publicações relacionadas

Quer se aprofundar ainda mais neste assunto? Confira aqui outras publicações relacionadas a esta mesma temática.

Eventos relacionados

Confira nossos próximos eventos relacionados a este tema e junte-se a nós para debater e compartilhar melhores práticas.