Por Marina Grossi*
Mulheres têm feito história na agenda da sustentabilidade. Gro Harlem Brundtland, ex-primeira-ministra da Noruega, encabeçou em 1987 o Relatório Brundtland, que trouxe a definição que conhecemos de “desenvolvimento sustentável” – aquele capaz de atender às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atenderem às suas próprias necessidades. A diplomata francesa Laurence Tubiana é conhecida como a arquiteta do Acordo de Paris e liderou a negociação do tratado ao lado da costarriquenha Christiana Figueres. No Brasil, a liderança de Marina Silva levou a uma redução histórica nos índices de desmatamento; e Ana Toni, como CEO da COP30, foi peça fundamental na promoção de soluções climáticas inovadoras e na mobilização das partes.
Há muitos outros exemplos de mulheres protagonizando essa agenda. Por uma razão muito simples: a crise climática não afeta mulheres e homens da mesma forma. Os impactos dos eventos climáticos extremos amplificam desigualdades já existentes entre os gêneros, ameaçam meios de subsistência e trazem riscos à saúde e à segurança. O relatório Gender Snapshot 2025, da ONU Mulheres, indica que, até 2050, as mudanças climáticas podem levar até 158,3 milhões de mulheres e meninas a mais para a extrema pobreza (situação em que sobrevivem com até US$ 2,15 por dia) em todo o mundo. A perspectiva feminina está pouco presente nos planos climáticos dos países: apenas 25 países estabelecem mecanismos, como forças-tarefa ou grupos de trabalho, para integrar a igualdade de gênero na formulação de políticas públicas ligadas ao clima.
A COP30 sinalizou um importante avanço nessa direção, com a aprovação do Plano de Ação de Gênero de Belém (GAP 2026-2034), que vai orientar as decisões da próxima década em relação à justiça de gênero. O plano reforça que os impactos da mudança do clima não são neutros e atingem de forma desproporcional mulheres e meninas, em especial indígenas, negras, ribeirinhas, quilombolas, agricultoras e migrantes. O documento reconhece grupos estruturalmente excluídos, destaca o papel das defensoras ambientais como agentes centrais da ação climática e abre espaço para que os países que fazem parte da Convenção do Clima da ONU (UNFCCC, na sigla em inglês) apresentem propostas que abordem temas como o trabalho do cuidado, saúde das mulheres e a violência contra mulheres e meninas no contexto da crise climática.
O objetivo é que, ao longo da década, o GAP 2026-2034 contribua para a formulação de diretrizes que reconheçam o papel das mulheres na adaptação, mitigação e governança climática. O plano é resultado de uma articulação sem precedentes na história das COPs de clima, que envolveu organizações e movimentos de mulheres, Itamaraty e Ministério das Mulheres.
Paralelamente, Belém representou um espaço de conexão entre várias iniciativas sob a perspectiva feminina. Um exemplo foi o projeto Vozes dos Biomas, que reuniu três Enviadas Especiais da COP30 – Janja Lula da Silva (Mulheres), Denise Dora (Direitos Humanos e Transição Justa) e Jurema Werneck (Igualdade Racial e Periferias) que, ao longo do ano passado, visitaram os seis biomas brasileiros para conhecer soluções climáticas desenvolvidas por mulheres.
Outro destaque foi a Declaração das Mulheres Líderes pelo Clima (Women Leading on Climate – WLOC), articulação inédita que reúne lideranças femininas para garantir que a agenda de gênero, justiça e equidade fosse levada à COP30. O movimento internacional surgiu sob a liderança de Catherine McKenna, ex-ministra do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Canadá, e María Mendiluce, CEO da We Mean Business Coalition, e no Brasil é representado por mim, e pela presidente do Instituto Clima e Sociedade (ICS), Maria Netto.
Em outubro, durante a pré-COP, o WLOC apresentou uma declaração resultante de um esforço de consulta e mobilização que durou seis meses, com a participação de mais de 300 mulheres atuantes nos setores público, privado, acadêmico e da sociedade civil, que identificou 250 iniciativas lideradas por mulheres em diversas frentes de transição climática no país. O objetivo da Declaração foi semear a pauta em nível estratégico na COP30, de modo a ampliar a participação e o poder decisório das mulheres na governança climática, garantir acesso equitativo a financiamento, fortalecer a produção de dados com recorte de gênero e valorizar soluções locais e baseadas na natureza conduzidas por mulheres e comunidades.
O clamor das mulheres na COP30 por maior participação e poder de decisão ecoa em um momento desafiador – e não apenas na agenda de clima. O Brasil vive um surto alarmante de violência contra a mulher, figurando em um nada honroso quinto lugar entre os paises que mais matam pessoas do sexo feminino. Entre janeiro e novembro de 2025, 1.357 mulheres foram vítimas de feminicídio, uma média de quatro casos por dia. Se somadas as tentativas, o número ultrapassa 4.790 casos no período, de acordo com o Ministério da Justiça.
Esses dados reforçam a necessidade de fortalecer políticas públicas, mecanismos de proteção e espaços de participação que garantam segurança, dignidade e igualdade às mulheres. A transição para um modelo de desenvolvimento sustentável, inclusivo e próspero depende diretamente da equidade de gênero, condição essencial para enfrentar de forma integrada os desafios climáticos, sociais e econômicos. Avançar nessa agenda requer compromisso coletivo e mudanças estruturais que ampliem a efetividade das soluções e assegurem resultados duradouros.
* Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), entidade com 28 anos de atuação e 120 grandes empresas associadas, Enviada Especial da Presidência da COP30 para o Setor Empresarial.

