O papel da B3 na agenda climática

Por Janaina Vilella*

A poucos meses da COP30, o Brasil assume um papel estratégico no debate climático global, não apenas como anfitrião do evento, mas também como protagonista na transição para uma economia de baixo carbono. No centro desse processo estão o
setor produtivo, que precisa adaptar seus modelos de negócio às metas climáticas globais, e os mercados financeiro e de capitais, que emergem como peças-chave para financiar essa transformação. Neste cenário, o Brasil tem uma oportunidade única de se projetar internacionalmente, aproveitando a sua rica biodiversidade para transformar ativos ambientais em investimentos financeiros.


Um dos exemplos práticos da materialização dessa agenda é a aprovação da lei que instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) em 2024, marco importante para a criação de um mercado regulado de carbono no país. Ao
estabelecer metas regulatórias claras — diferentes do mercado voluntário —, o sistema promove um maior comprometimento nacional com a descarbonização, com as primeiras negociações ocorrendo após a definição da governança. A atuação proativa da B3 fortalece sua posição como infraestrutura preparada para apoiar o desenvolvimento das negociações de carbono tanto no mercado voluntário como no regulado, contribuindo diretamente para a transição climática. Em 2024, foram registrados e negociados 3,3 milhões de créditos de carbono na plataforma fruto da parceria entre a ACX Brasil e a B3. A iniciativa reúne a infraestrutura robusta e regulada da bolsa do Brasil com a expertise na negociação de ativos ambientais da ACX para conectar desenvolvedores de projetos e compradores a um mercado de carbono confiável, eficiente e integrado à agenda global.


Esse posicionamento da B3 como infraestrutura estratégica para a agenda da descarbonização não é recente. Há 20 anos, a criação do ISE B3 (Índice de Sustentabilidade Empresarial) foi determinante para que os participantes de mercado identificassem as boas práticas das empresas listadas. Desde então, a B3 tem ampliado sua atuação na pauta por meio de iniciativas como o ICO2 B3, índice voltado à gestão eficiente de carbono. Recentemente, uma revisão metodológica no ICO2 reduziu em 88% a pegada de carbono da carteira ao priorizar empresas com melhor eficiência na relação entre emissões e receita. Hoje, o índice possui 61 empresas de 23 subsetores e ajuda a dar ainda mais clareza para a tomada de decisão dos investidores. São empresas atentas e comprometidas com a eficiência de suas emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE). Dentro da carteira, 92% das empresas já mapeiam os riscos e oportunidades das mudanças climáticas para seu negócio. Para compensar suas emissões, 77% das empresas fazem uso de créditos de carbono e 97% têm inventário verificado por terceira parte. Já 72% das empresas que compõem o ICO2 quantificam os impactos financeiros de suas emissões.


Além de transparência, a viabilidade econômica da descarbonização depende diretamente de inovação tecnológica e de instrumentos financeiros. No Brasil, já temos exemplos concretos dessa integração. No mercado da renda fixa, é possível destacar os títulos temáticos como importantes instrumentos financeiros que apoiam no direcionamento de capital para projetos e metas de ESG das empresas. Esses produtos oferecem aos investidores alternativas de alocação que conciliam retorno financeiro com métricas rigorosas de sustentabilidade. Os títulos temáticos respondem à crescente demanda por investimentos de impacto e reforçam o papel da B3 como agente catalisador da transição para uma economia de baixo carbono. A B3 realiza as emissões desses ativos desde 2018 e, até agosto de 2025, o estoque contava com mais de R$ 140 bilhões em títulos temáticos.


Um aspecto relevante na agenda da descarbonização é o uso de dados para auxiliar os stakeholders na tomada de decisões fundamentadas. Para facilitar o acesso a essas informações, a B3 desenvolveu o ESG Workspace, uma plataforma que reúne mais de 240 empresas listadas. Ao exibir mais de 75 mil dados públicos ESG das companhias, a plataforma oferece uma base comparativa para que as empresas avancem em suas jornadas, além de possibilitar que as partes interessadas incluam esses critérios em suas análises de investimento e avaliem a evolução da pauta no mercado.


O Brasil tem ativos ambientais únicos e um mercado de capitais com infraestrutura evoluída para financiar a transição. Para acelerar o fluxo de capital verde dependemos ainda da integração efetiva entre políticas públicas, regulação e engajamento real dos stakeholders — do regulador ao investidor institucional. Um avanço significativo nesse sentido foi para o Brasil que precisamos valorizar é o estabelecimento das regras da taxonomia sustentável. Trata-se de uma, ferramenta fundamental para estruturar uma base confiável de informações e critérios, capaz de orientar para os investimentos sustentáveis e destravar oportunidades concretas de financiamento para empresas com metas de descarbonização. A B3 é o ponto de convergência dessas iniciativas. É onde o discurso ganha forma, e a estrutura necessária para que o fluxo de capital ocorra com credibilidade, transparência e excelência operacional.


Com a COP30 em Belém, temos a chance de amplificar o entendimento, para todos os esses públicos, que sustentabilidade não é apenas um valor: é uma vantagem competitiva — e uma urgência inadiável.

*Diretora de Comunicação e Sustentabilidade da B3

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