Cerrado e Amazônia: rumo a paisagens regenerativas

Por Marina Grossi*, Marcelo Behar (WBCSD), e Shalini Unnikrishnan (BCG)***

Inovador, o conceito de paisagens regenerativas propõe a adoção de práticas com foco na recuperação dos ecossistemas, a partir da restauração da saúde do solo, da água e das espécies cultivadas e nativas, criando ambientes mais resilientes para as pessoas e a natureza. Ele vai além da conservação em si, buscando integrar múltiplas propriedades Rurais e comunidades em uma mesma região, diferentes setores e interesses para que o uso do solo funcione como um sistema autorrenovável capaz de sustentar a biodiversidade, restaurar processos naturais e melhorar a qualidade de vida, mesmo recebendo atividades antrópicas que poderiam atuar como estressores ambientais, tais como a agricultura e a urbanização. 

Esse tema ganhou os holofotes na COP28, em Dubai, em 2023, quando foi lançada a Agenda de Ação para Paisagens Regenerativas (AARL, na sigla em inglês), um movimento que busca catalisar investimentos em agricultura regenerativa e uso sustentável da terra, em cadeias ligadas a mais de 90 commodities agrícolas em mais de 110 países. A ambição da iniciativa é facilitar a transição para práticas agrícolas regenerativas até 2030, agregando esforços do setor privado para melhorar a saúde do solo, aumentar a resiliência climática dos sistemas de produção agrícola e melhorar os meios de subsistência de milhões de agricultores.

Por abrigar a mais rica biodiversidade global e assumir uma posição de liderança mundial na produção agrícola e em setores ligados ao uso da terra, o Brasil foi escolhido para ser o primeiro piloto de aceleração da AARL, com foco no Cerrado e na Amazônia. 

Para viabilizar a iniciativa, o país conta com o LAB (Acelerador de Paisagens Regenerativas Brasil, na sigla em inglês), um programa que reúne governo, empresas e sociedade civil para impulsionar a adoção de práticas de agricultura regenerativa a partir de três pilares-chave: financiamento, métricas de performance e políticas públicas. O objetivo é claro: catalisar a transição para paisagens regenerativas a partir de mecanismos de blended finance. Segundo estudos do Boston Consulting Group (BCG), alcançar o potencial regenerativo do Cerrado e da Amazônia exigirá cerca de US$55 bilhões e US$62 bilhões em investimentos, respectivamente.

Além do BCG, que desenvolveu estudos para amparar o LAB, a iniciativa é liderada pelo World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) e pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), e tem como um dos principais parceiros o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Assim, a união de expertises será fundamental para compor um mosaico de paisagens que conciliam produção, conservação e restauração a partir de uma ótica regenerativa. 

Iniciar o projeto no Cerrado e na Amazônia é estratégico, pois ambas as regiões combinam urgência socioambiental com grande potencial econômico e climático. O Cerrado, com quase 200 milhões de hectares, é a savana mais biodiversa do planeta e um importante polo agropecuário, tornando-se um território-chave para acelerar modelos de uso do solo mais sustentáveis. Com quase metade de sua vegetação nativa já convertida e expansão agrícola crescente, há oportunidade de direcionar o crescimento para áreas já abertas, conciliando produtividade, conservação e regeneração, enquanto se aumenta a resiliência frente às mudanças climáticas. Na Amazônia, o Pará, que abriga 30% do bioma e sedia a COP30, concentra 24 milhões de hectares convertidos e até 8,8 milhões de hectares com potencial para sistemas regenerativos, representando uma oportunidade de investimento de até US$21 bilhões até 2040. O sucesso nesta região demonstrará que desenvolvimento e conservação podem caminhar juntos.

Em 2025, o LAB nasce ancorado nos mais de US$100 milhões em investimentos individuais já realizados por seus membros corporativos e financeiros em paisagens regenerativas, demonstrando que o setor privado vem implementando seus compromissos públicos de sustentabilidade mesmo diante de barreiras estruturais. Nesse primeiro ciclo, o LAB atuou como um hub de alinhamento multissetorial, identificando oportunidades e entraves ligados a políticas públicas, finanças e métricas. O Plano de Ação recém-lançado detalha esse trabalho, apresentando as condições necessárias para avançar na agenda de regeneração em larga escala no Brasil.

Já em 2026, o LAB evoluirá para uma plataforma de ação voltada ao co-investimento, dedicada a implementar recomendações dentro de paisagens específicas. Seu papel será catalisar os investimentos coletivos de seus membros corporativos, em colaboração com o setor financeiro, o poder público e a sociedade civil, ao mesmo tempo em que busca destravar barreiras identificadas em 2025. Com a ambição de mobilizar US$5 bilhões de investimento até 2030, o LAB projeta o Brasil como um modelo global de transformação regenerativa, conforme demonstrado no nosso Plano de Ação. Trata-se de um verdadeiro mutirão pela regeneração das paisagens brasileiras, que encontra na COP30 em Belém a oportunidade histórica de mostrar ao mundo que desenvolvimento econômico, conservação ambiental e inclusão social podem caminhar de mãos dadas. A verdadeira questão não é se a transição para paisagens regenerativas vai acontecer, mas sim em que velocidade o Brasil assumirá a liderança global que sua biodiversidade e o setor produtivo demandam. O momento de somar esforços é agora, para construir um legado de prosperidade e equilíbrio para as futuras gerações.

* Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), entidade com 28 anos de atuação e 120 grandes empresas associadas, Enviada Especial da Presidência da COP30 para o Setor Empresarial

 ** Marcelo Behar é conselheiro sênior do CEBDS e WBCSD (Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável) e Enviado Especial da Presidência da COP30 para a Bioeconomia

*** Shalini Unnikrishnan é Managing Director & Senior Partner no Boston Consulting Group e copresidente da Agenda de Ação da COP28 para Paisagens Regenerativas.

O World Business Council for Sustainable Development (WBCSD, Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável) é a principal comunidade empresarial formada por mais de 250 empresas globais que fazem da sustentabilidade um motor de competitividade. Fundado em 1995, o WBCSD é uma organização sem fins lucrativos liderada por suas empresas associadas, que conecta líderes empresariais de todos os setores e das principais economias do mundo, criando ferramentas e estruturas para ampliar o impacto coletivo, impulsionar a inovação intersetorial e moldar uma agenda de políticas públicas ambiciosa e facilitadora. Operamos em sete escritórios ao redor do mundo — Genebra, Nova York, Chicago, Amsterdã, Londres, Cingapura e Wuhan — promovendo colaboração em cadeias de valor e geografias. Junto aos nossos membros, estamos reestruturando os sistemas econômicos e financeiros para apoiar a transição para um futuro de emissões líquidas zero, positivo para a natureza e inclusivo, que gere valor para os negócios.

O Boston Consulting Group estabelece parcerias com líderes em negócios e da sociedade para lidar com os mais importantes desafios e capturar grandes oportunidades. O BCG foi pioneiro em estratégia de negócios quando foi fundado em 1963. Hoje, trabalhamos de maneira próxima aos clientes para adotar uma abordagem transformadora que busca beneficiar todos os stakeholders, empoderando as empresas para crescer, desenvolver vantagens competitivas sustentáveis e causar um impacto positivo na sociedade. Nossas equipes diversas e globais oferecem expertise técnica e uma série de perspectivas que questionam o status quo e motivam mudanças.

O BCG entrega soluções por meio de consultoria de ponta, tecnologia, design e iniciativas corporativas e digitais. Trabalhamos com um modelo de colaboração único em toda a empresa e em todos os níveis da organização cliente, motivados pelo objetivo de ajudar nossos clientes a serem bem-sucedidos e os ajudando a tornar o mundo melhor.

O Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) é uma associação civil sem fins lucrativos que promove, desde 1997, o desenvolvimento sustentável no Brasil, por meio da articulação junto aos governos e à sociedade civil, além de divulgar os conceitos e práticas mais atuais do tema. Voz do setor empresarial, o CEBDS reúne cerca de 120 dos maiores grupos empresariais do país, além de ser o representante brasileiro do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), que está presente em 36 países e conta com 200 empresas associadas no mundo.

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