Por Marina Grossi (CEBDS) e Juliana Lopes (AMAGGI)
O Brasil produz alimentos para o mundo. Mas pode fazer mais do que isso — pode mostrar ao mundo como produzir contribuindo para o clima. E, ao contrário do que muitos imaginam, as soluções para isso já existem. O que faltava era organizar esse conhecimento disperso, dar escala a ele e transformá-lo em política. Foi exatamente isso que a Coalizão para Descarbonização do Agronegócio se propôs a fazer.
Criada pelo CEBDS — Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável —, a iniciativa reuniu 43 entidades e empresas associadas – entre elas, AMAGGI, Bayer, Citrosuco, Nestlé, Syngenta e Tereos, com o apoio de instituições científicas como Embrapa, Fundação Getúlio Vargas, Fundação Dom Cabral e Universidade de São Paulo (USP). O resultado: um relatório entregue à Presidência da COP30, em outubro de 2025, com 15 alavancas concretas para descarbonizar o setor agropecuário brasileiro.
O que o estudo revela surpreende, e para o bem. Cerca de 80% da redução de emissões projetada até 2050 pode ser alcançada com práticas que os produtores já conhecem: sistema de plantio direto, integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), cobertura do solo, recuperação de pastagens degradadas e aumento da produtividade do rebanho. Não é ficção científica. É agronomia aplicada, com décadas de pesquisa por trás.
Juntas, essas alavancas têm potencial para eliminar entre 500 e 600 milhões de toneladas de CO₂ equivalente até 2050 — uma contribuição decisiva para que o Brasil cumpra suas metas climáticas e se afirme como referência global em agricultura de baixo carbono.
Mas há um obstáculo que não pode ser ignorado: o financiamento. O estudo aponta que a transição demanda um volume total de recursos que os programas existentes não são suficientes para cobrir. Embora iniciativas como o Plano Safra e o Ecoinvest tenham capacidade de mobilizar até US$ 190 bilhões, o investimento necessário é significativamente maior — e a lacuna identificada supera US$ 100 bilhões. Fechar essa brecha exige amplas frentes atuação: capital catalítico, regulamentação do mercado de carbono, valorização de ativos naturais e incentivos reais para quem adota práticas regenerativas.
A boa notícia é que o caminho está desenhado. A Coalizão entregou não apenas um diagnóstico, mas um roteiro de ação — com soluções de financiamento, tecnologia e governança prontas para serem implementadas em escala.
Para o setor privado, o recado é claro: empresas que investirem em bioeconomia e tecnologias regenerativas não estão apenas cumprindo uma obrigação climática. Estão se posicionando na liderança de um mercado em transformação. Propriedades mais resilientes a secas e inundações significam menor risco operacional. Cadeias produtivas mais sustentáveis significam acesso a mercados cada vez mais exigentes.
A 12ª Carta da Presidência da COP30, lançada este ano pelo embaixador André Corrêa do Lago, reforça que o momento pede tanto negociações formais quanto ação imediata. A Coalizão do Agronegócio responde às duas frentes: apoia o cumprimento das metas climáticas brasileiras e estimula, agora, a adoção voluntária de práticas que fazem diferença real.
Nos próximos dez anos, o Brasil tem uma janela única. Pode ser o país que prova que é possível alimentar o mundo e, ao mesmo tempo, ser parte da solução climática. O mapa está feito. O campo está pronto. E o setor produtivo está pronto para dar o próximo passo.
* Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), entidade com 28 anos de atuação e 120 grandes empresas associadas, Enviada Especial da Presidência da COP30 para o Setor Empresarial.
*Juliana Lopes é diretora de ESG e Comunicação da AMAGGI, empresa multinacional brasileira presente em toda a cadeia produtiva de grãos e fibras e uma das empresas colíderes da Coalizão do Agronegócio.

