Estudo sobre relatórios aponta que proporção de empresas com metas net zero mais robustas caiu de 46% em 2023 para 16% em 2025, refletindo cenário global mais complexo
Quantas empresas brasileiras conseguem publicar, com transparência real, não apenas suas conquistas em sustentabilidade, mas também seus resultados abaixo do esperado? A resposta, até recentemente, era desconfortavelmente baixa. Mas algo está mudando, e os números confirmam.
É nítida a evolução dos relatórios de sustentabilidade das empresas. De início, eram publicações de caráter voluntário com grande apelo de marketing; depois, passaram a receber maior rigor técnico e hoje os relatórios são considerados estratégicos para a gestão das empresas: cada vez mais conectados a indicadores, metas e desempenho.
Quando as companhias começaram a dar os primeiros passos no reporte de sustentabilidade, entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2000, a preocupação era demonstrar boas intenções e modernidade: relatar informações sociais, ambientais e sobre governança, além dos balanços financeiros, despontava como algo inovador, coisa de empresa conectada ao espírito do tempo.
A chegada dos primeiros padrões internacionais, expressos nos indicadores da Global Reporting Initiative (GRI), referência para reportes de sustentabilidade, marcou a virada para uma abordagem mais técnica e padronizada. Ao longo dessas duas últimas décadas, a agenda ambiental, social e de governança (ESG) evoluiu dentro das companhias, e a divulgação de informações desses temas passou por ajustes regulatórios.
O que vemos hoje é um esforço consciente na direção de relatórios mais estratégicos e mais integrados às demonstrações financeiras. Para além de seus feitos e avanços na agenda da sustentabilidade, hoje as empresas buscam comunicar a complexidade que é operar em um planeta exposto a pressões como a emergência climática, a perda de biodiversidade, as persistentes desigualdades sociais e tensões geopolíticas profundas.
A terceira edição do Reporting Matters Brasil, elaborado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), traz dados que ilustram essa trajetória. O estudo, feito a partir de metodologia do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) e com apoio técnico do Grupo Report, analisou 82 relatórios brasileiros, publicados em 2025 com dados de 2024. Foram 9.986 páginas avaliadas com base em 16 critérios e 76 subcritérios, o que traz uma visão estruturada sobre como companhias brasileiras organizam, priorizam e comunicam informações ESG em um ambiente regulatório e de mercado cada vez mais exigente.
Chama a atenção o grau de adesão à padronização – 97% dos relatórios utilizam a metodologia GRI – e ao conceito da dupla materialidade, adotado por 75%. Em linhas gerais, a dupla materialidade explica como a sustentabilidade impacta o negócio, e como o negócio impacta o ambiente e a sociedade. É um indicador importante de maturidade e de transparência – porque obriga as empresas a olhar nos dois sentidos, e não apenas para dentro.
Ao mesmo tempo, o estudo evidencia desafios relevantes na agenda da transição: a proporção de empresas com metas net zero mais robustas caiu de 46% em 2023 para 16% em 2025, e 35% ainda não declaram esse compromisso, refletindo um cenário global mais complexo e exigente. Soma-se a isso o fato de que apenas 32% dos relatórios passam por auditoria completa, o que indica espaço para avançar na confiabilidade e na profundidade das informações divulgadas.
Esses dados revelam que o avanço técnico dos relatórios ainda convive com desafios importantes de consistência e credibilidade. É nesse ponto que a transparência se torna central: trata-se de expor a estratégia real da empresa, seus riscos, suas metas e seus resultados – inclusive os insucessos. Embora ainda exista uma abordagem predominantemente celebratória, com poucos relatos reconhecendo de maneira aberta os resultados abaixo das expectativas, já é possível observar uma evolução relevante na disposição das empresas em reconhecer suas limitações. Esse movimento não é retórico: é um sinal de que as companhias estão entendendo que credibilidade se constrói com consistência, não com vitrine.
Um dos casos que o estudo Reporting Matters Brasil traz, de uma empresa do setor da mobilidade urbana, exemplifica essa nova postura. O relatório é honesto ao trazer um balanço entre as realizações do ano e as oportunidades de melhoria. Em tom sóbrio e realista, a empresa relata que, mesmo com investimentos em infraestrutura, ainda enfrenta gargalos operacionais e desafios de expansão em algumas regiões; reconhece os impactos de projetos em andamento e as necessidades de adaptação para garantir a qualidade dos serviços prestados. Também aborda desafios climáticos e sociais de suas concessões, que demandam melhorias em engajamento comunitário e eficiência operacional. Ao demonstrar o compromisso com uma comunicação madura e responsável, a companhia reforça a credibilidade do relato.
O amadurecimento na qualidade dos relatos também se revela na apresentação de séries históricas, na análise de impactos na cadeia de valor, na explicitação de metas e na menção a pontos de melhoria. Os relatórios estão deixando a superficialidade para trás e alinhando gestão, estratégia e transparência de forma consistente. Isso é reflexo, em grande parte, da evolução da regulação. No Brasil, um marco foi a Resolução 193 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que incorporou os padrões IFRS S1 e S2 do International Sustainability Standards Board (ISSB). A medida aproximou a sustentabilidade da lógica contábil e exigiu mais rigor na divulgação de informações relacionadas ao ESG.
Com a internalização dessa agenda, as empresas estão hoje mais preparadas para medir, organizar e integrar a sustentabilidade ao cerne dos seus negócios. Cabe avançar para que o relatório seja cada vez mais uma peça voltada a orientar decisões dentro das companhias. É fato que hoje eles estão mais conectados à gestão e menos restritos à comunicação institucional, mas as empresas precisam caminhar para que os relatórios sejam ferramentas gerenciais.
Há boas notícias nessa direção. Estão em construção novos passos para apoiar a evolução das empresas em seus relatórios quanto à materialidade de suas ações e aos impactos em seus negócios. Exemplos são os Parâmetros CEBDS de Sustentabilidade Corporativa, iniciativa que apoia a estruturação da gestão nos temas ESG, ajudando empresas a entender seu nível de maturidade e identificar caminhos de evolução. E o Reporte da Natureza, parceria do CEBDS com a Report, é outra frente que vai ajudar as companhias a compreender como incorporar os temas materiais de biodiversidade e natureza em suas divulgações, conectando-os à gestão de riscos e oportunidades em resposta à demanda de investidores e stakeholders-chave, expressa na Força Tarefa de Divulgação de Informações Financeiras Relacionadas à Natureza, do inglês TNFD.
Essas iniciativas, somadas ao que o Reporting Matters Brasil já documenta como referência consolidada do mercado, apontam uma direção concreta para as empresas: usar seus próprios indicadores não apenas para prestar contas, mas para tomar decisões melhores. O relatório de sustentabilidade mais valioso não é o mais bonito nem o mais volumoso – é o que alimenta o planejamento estratégico, informa a alocação de recursos e antecipa riscos antes que eles se materializem. Em um mundo em que os riscos associados ao colapso dos ecossistemas já afetam cadeias produtivas, acesso a capital e a própria viabilidade de negócios, sairão na frente as empresas capazes de transformar transparência em critério de decisão, e o relatório, em instrumento real de gestão.

