Global Risk Report: dos riscos ambientais e da análise da perda da biodiversidade

Por Vanessa Pereira e Henrique Luz

 

O Relatório de Risco[1] Global de 2021 (Global Risk Report 2021) publicado recentemente traz uma ampla perspectiva sobre as principais ameaças que podem afetar a prosperidade mundial neste ano e na próxima década.

O relatório é um estudo qualitativo e quantitativo dos riscos globais fruto de um processo multissetorial realizado em parceria com membros das comunidades empresarial, acadêmica e do setor público.

O seu desenvolvimento este ano foi conduzido pelos parceiros estratégicos grupo Marsh & McLennan, seguradora Zurich Insurance Group, Grupo SK,  e pelos parceiros acadêmicos Universidade Nacional de Cingapura, “Oxford Martin School” da Universidade de Oxford, Centro de Processos de Decisão e Gerenciamento de Risco Wharton da Universidade da Pensilvânia, além dos insights de um amplo conjunto de especialistas dos setores público e privado.

O Global Risks Report 2021 apresenta os resultados da última Pesquisa Global de Percepção de Riscos (GRPS), seguido pela análise do crescimento social, econômico e divisões industriais, suas interconexões e seus implicações na capacidade humana de solução dos principais riscos globais por meio da coesão social e cooperação mundial.

Em suma, o relatório deste ano centra-se nos riscos e consequências do aumento das desigualdades e da fragmentação da sociedade. Em alguns casos, as disparidades nos resultados de saúde, tecnologia ou oportunidades da força de trabalho são o resultado direto da dinâmica criada pela pandemia. Em outros, as divisões sociais já existentes se amplificaram, sobrecarregando as fracas redes de segurança e as estruturas econômicas.

 

Riscos que viram realidade

O estudo destacou que o relatório de 2006 alertou a comunidade internacional sobre possíveis impactos advindos de uma pandemia e outros riscos relacionados à saúde. Na época foi destacado que uma gripe letal, com sua propagação facilitada pelos padrões de viagens globais e não contida por mecanismos de alerta insuficientes, representaria uma ameaça aguda para humanidade.

Como prognóstico apontou que os impactos advindos da suposta pandemia incidiriam no “grave comprometimento de viagens, turismo e outros setores de serviços, bem como cadeias de abastecimento de manufatura e varejo”, enquanto “o comércio global, o desejo de risco dos investidores e a demanda de consumo” poderiam sofrer danos a longo prazo.

Um ano depois, o relatório apresentava um cenário de pandemia que ilustrava, entre outros efeitos, o papel amplificador dos “infodêmicos” na exacerbação do risco central. As edições subsequentes enfatizaram a necessidade de colaboração global em face da resistência antimicrobiana (8ª edição, 2013), a crise de Ebola (11ª edição, 2016), ameaças biológicas (14ª edição, 2019) e sistemas de saúde sobrecarregados (15ª edição, 2020), entre outros.

No entanto, o que antes era uma conjectura, em 2020, se tornou uma realidade. Nesse sentido, a edição do relatório do corrente ano aponta que o custo econômico e humano da pandemia é alto, ameaçando, assim, anos de progresso no combate à pobreza mundial e desigualdade, além de enfraquecer à coesão social e cooperação a nível global.

Apesar de termos vistos alguns exemplos notáveis ​​de determinação, cooperação e inovação, a maioria dos países enfrentou problemas relacionados a gestão de crises durante a pandemia.

A COVID-19 acelerou a Quarta Revolução Industrial, transformando as relações humanas e expandindo a digitalização de nossas interações sociais, e-commerce, educação online e trabalho remoto. Essas mudanças transformarão a sociedade muito depois da pandemia e prometem deixar como legado enormes benefícios, como a capacidade de teletrabalho e o rápido desenvolvimento de vacinas são dois exemplos. Por outro lado, tais mudanças podem amplificar as desigualdades já existentes e até mesmo serem responsáveis pela criação de novas disparidades sociais.

A redução da empregabilidade no mundo, a ampliação digital, a divisão social das interações e as mudanças abruptas na forma de regulação dos mercados são alguns dos exemplos dos impactos da pandemia para grande parte da população mundial.

Nesse contexto, os entrevistados que participaram do GRPS classificaram a “desigualdade digital”, a “desilusão juvenil” e a “social erosão de coesão” como ameaças críticas de curto prazo.

 

Dos Riscos Ambientais

Com o título de “sem vacina para o meio ambiente” o relatório apontou no capítulo 1, na sessão sobre os riscos ambientais, que na ausência de coesão social e plataformas internacionais estáveis as crises transfronteiriças farão parte do nosso futuro impactando diretamente nossa sociedade.

Nesse sentido, o estudo chama a atenção para pontos cegos nas respostas coletivas a uma série de riscos, como crises de dívida, deterioração da saúde mental, falha de governança tecnológica, desilusão da juventude, falha da ação climática e perda de biodiversidade.

A falha da ação climática e a perda de biodiversidade[2] são apontados como os pontos cegos mais preocupantes.

Para destacar a importância da implementação de ações ambientais o relatório relembrou pontos significativos abordados na edição de 2020 destacando que ano passado foi a primeira vez em 15 anos que o estudo apontou questões ambientais em todos os cinco riscos mais prováveis ​​de longo prazo. Tais considerações foram analisados ​​no capítulo intitulado “A Década Restante e Salve o Axolote”.

Destacou, ainda, que a COVID-19 Risks Outlook do Fórum Econômico Mundial, publicado em maio de 2020, apontou como a crise poderia paralisar os avanços realizados para conter as mudanças climáticas.

Este ano, os participantes do estudo classificaram os riscos ambientais como quatro dos cinco principais riscos em ternos de impactos. Tais risco foram categorizados como: ação climática; perda de biodiversidade; crise nos recursos naturais; crises de meios de subsistência humanos; danos provenientes de ações antrópicas.

No primeiro semestre de 2020, as emissões globais de CO2 diminuíram 9% por conta das medidas de restrições adotadas pela maioria dos países no combate à COVID. Neste contexto, o relatório destacou a necessidade – e o desafio – de anualmente, durante a próxima década, serem realizadas reduções semelhantes no intuito de manter o aquecimento global a 1,5 ° C.

A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26), prevista para acontecer em novembro de 2021, será um momento crucial para os países considerados maiores emissores do mundo se comprometerem com metas nacionais mais expressivas, além de alinharem regras para o comércio de carbono (artigo 6º do Acordo de Paris) a fim de acelerar os investimentos na transição para uma economia global de baixo carbono.

A Conferência da ONU sobre Biodiversidade (COP15) e a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (COP15) devem traçar metas mais ambiciosas para a proteção das espécies e o manejo sustentável da terra. A omissão dessas ações levará inevitavelmente a impactos físicos catastróficos e graves danos econômicos que exigirão respostas políticas dispendiosas.

 

Da análise da Perda da Biodiversidade

Destaca-se que 51,2% dos entrevistados apontaram a perda da biodiversidade como uma das ameaças críticas para o mundo a longo prazo (5-10 anos).

O relatório identificou 7 principais riscos em termo de probabilidade na seguinte ordem: (i) eventos extremos climáticos, (ii) falha na ação climática; (iii) danos ambientais causados ​​pelo homem; (iv) doenças infecciosas; (v) perda da biodiversidade; (vi) concentração de poder digital (vii) desigualdade digital.

Já os 7 maiores riscos em termos de impacto foram classificados na seguinte ordem: (i) doenças infecciosas; (ii) falha na ação climática; (iii) armas de destruição em massa; (iv) perda da biodiversidade; (v) crise nos recursos naturais; (vi) danos provenientes de ações antrópicas, (vii) crises de meios de subsistência humanos.

Quanto a metodologia para base de classificação dos riscos de probabilidade, vale destacar que os participantes da pesquisa foram solicitados a avaliar a probabilidade do risco global individual em uma escala de 1 a 5, sendo 1 representando um risco que é muito improvável e 5 um risco que é muito provável de ocorrer ao longo dos próximos dez anos. Para a avaliação de risco, os entrevistados avaliaram o impacto de cada risco global em uma escala de 1 a 5, sendo 1 representando um impacto mínimo e 5 um impacto catastrófico.

         No Gráfico interativo da Rede de Riscos Globais a perda da biodiversidade foi classificada como o 5º risco que mais preocupa a humanidade a nível global. Nessa etapa do estudo, os entrevistados foram convidados a classificar os três riscos que considerassem como os mais preocupantes para o mundo. Sequencialmente, foram convidados a selecionar até cinco riscos que considerassem como suas principais preocupações ao longo dos próximos 10 anos, sem qualquer ordem em particular.

 

Da preparação para o futuro para riscos globais

À medida que governos, empresas e sociedades avaliam os danos infligidos no último ano, o fortalecimento da previsão estratégica acaba sendo mais importante do que nunca. Com o mundo mais sintonizado com o risco, há uma oportunidade de chamar a atenção e encontrar maneiras mais eficazes de identificar e comunicar o risco aos tomadores de decisão.

A redução das lacunas hoje existentes dependerá diretamente das ações tomadas no combate ao COVID-19 e no pós-COVID visando reconstruir a dinâmicas socioeconômicas priorizando a acessibilidade e a inclusão. A inação sobre as desigualdades econômicas e a divisão da sociedade pode paralisar ainda mais as ações de combate as mudanças climáticas que, por sua vez, continua sendo uma ameaça existencial para a humanidade.

A resposta ao COVID-19 oferece quatro oportunidades de governança para fortalecer a resiliência dos países, empresas e da comunidade internacional: (i) formulação de estruturas analíticas que adotam uma visão holística e baseada em sistemas dos impactos de risco; (ii) investir em “campeões de risco” de alto perfil para encorajar a liderança nacional e a cooperação internacional; (iii) melhorar as comunicações de risco e combater a desinformação; (iv) explorar novas formas de parceria público-privada na preparação para riscos.

Nesse contexto, embora os riscos globais descritos no relatório sejam terríveis, as lições advindas do período de pandemia oferecem uma oportunidade de aprendizado para o futuro, de modo que possamos nos preparar melhor para a próxima pandemia evitando-se, assim, o aumento dos processos de risco, capacidades e cultura.

Evidencia-se, portanto, que através da experiência atual o mundo estará apto para se planejar diante de situações de crise em vez de apenas antecipar as crises que estão por vir.

 

[1]Um risco global é definido no relatório como um evento ou condição incerta que, se ocorrer, pode causar um impacto negativo significativo para vários países ou indústrias nos próximos 10 anos.

[2]O relatório aponta o risco global da perda da biodiversidade como sendo as consequências irreversíveis para o meio ambiente, a humanidade e a atividade econômica, e uma destruição permanente do capital natural, como resultado da extinção/ redução de espécies.

 

Os dados quantitativos apresentados nesse documento foram extraídos dos seguintes gráficos presentes no GRPS 2021:

 

 

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