Guia sobre a Avaliação dos Impactos na Água Doce

Com base no recém-lançado Guia sobre a Avaliação dos Impactos na Água Doce desenvolvido pelo WBCSD no ano de 2021 (Guidance on the assessment of freshwater impacts by food and agriculture sector companies – World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), elaboramos este artigo para o blog do CEBDS, elencando as principais ferramentas e metodologias para maior conhecimento e aplicabilidade pelas empresas.

As empresas necessitam de ferramentas práticas para medir e valorar seus impactos na água doce. Esse guia fornece um caminho padronizado para que as empresas entendam, valorizem e gerenciem seus principais impactos relacionados à água doce.

As empresas têm usado estudos de avaliação de impacto de água doce para informar riscos de longo prazo para seus negócios, para desenvolver seu planejamento estratégico e para ajudar as estratégias de ação coletiva e engajamento com seus principais stakeholders. Uma das principais barreiras que as empresas enfrentam na condução de uma avaliação robusta dos impactos da água doce é a falta de dados localizados e fatores de avaliação ou monetização.

Valor justo – A falta de pesquisas relevantes de valorização da água coloca um desafio na determinação de um fator justo de valorização da água para verificar o impacto do uso da água. Impactos relacionados à água doce são difíceis de valorar. Muitas vezes, o valor real da água doce para diferentes partes interessadas está além do que as medidas típicas de avaliação podem explicar. Certas limitações, como a falta de dados precisos da linha de base ou a incerteza na medição do capital natural, também podem limitar a eficácia das metodologias e abordagens de avaliação.

O Guia do WBCSD pode fornecer um suporte na tomada de decisão das empresas, além de ser útil para que os investidores entendam onde estão os principais impactos relacionados à água doce nas operações e cadeias de suprimentos. Para as empresas, a criação de valor verdadeiro ajuda a ganhar a confiança dos stakeholders, garante melhores retornos financeiros e mantém a licença social para operar.

Metodologia:

Foi criado um processo com 5 etapas, onde se torna possível:

  1. medir o driver de impacto;
  2. medir mudanças no estado do capital natural;
  3. verificar os impactos de valor;
  4. definir metas;
  5. gerenciar impactos

Os princípios-chave, a fonte de dados, as metodologias e as principais saídas (outputs) são detalhadas em cada uma das 5 etapas. É fornecido um caminho de impacto hídrico (high level) para que as empresas usem como ponto de partida para sua avaliação e que possam personalizar para sua situação e necessidades.

Para medir o impacto relacionado à água doce, as empresas devem medir:

1- O volume de água consumida, para entender os impactos relacionados à quantidade de água

2- A quantidade de poluente descarregada, para entender a qualidade da água dispensada ou os impactos relacionados à poluição.

O consumo de água = retirada total de água (de todas as fontes) – águas residuais dispensadas. Essas taxas de consumo variam significativamente mesmo dentro do mesmo tipo de operação, dependendo da tecnologia utilizada, clima local e outros parâmetros. Por exemplo, as taxas de consumo de água associadas à irrigação podem variar significativamente dependendo do tipo de tecnologia (gotejamento, irrigação, inundação de campo, etc.) e clima.

Algumas ferramentas específicas de gestão de água estão disponíveis para setores ou atividades específicas. Exemplos:

– Ferramenta Cool Farm: desenvolvida pela Cool Farm Alliance permite uma estimativa dos requisitos de irrigação e pegadas de água azul e verde de uma variedade de culturas cultivadas em diferentes geografias em todo o mundo.

– Mesa Redonda Ambiental da Indústria de Bebidas: Empresas do setor de bebidas podem consultar uma metodologia de gestão de água adaptada à indústria de bebidas.

– Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO): Empresas do setor pecuário podem consultar as diretrizes leap da FAO para avaliação do uso da água nos sistemas de produção pecuária e cadeias de suprimentos.

Volumetric Water Benefit Accounting (VWBA): método desenvolvido pelo WRI, LimnoTech, Quantis e Valuing Nature fornece um conjunto de metodologias práticas que correlacionam a economia de água das empresas com os principais indicadores relacionados ao impacto hídrico que podem levar a impactos sociais, econômicos e ambientais. As metodologias determinam em termos de volume como as empresas podem reduzir seu impacto e gerar benefícios para bacias hidrográficas nas quais operam por meio de atividades como a redução do uso da água ou a melhoria das práticas de descarga.

Resumo da Metodologia do Guia WBCSD

1- Medir o driver de impacto

Dados e informações necessários:

– Limites da cadeia de valor

– Consumo total de água/retirada total de água

– Água total dispensada

 

Ferramentas:

Water Footprint Network

– Métricas de água da ferramenta da Cool Farm

– Metodologia de gestão da água pela Mesa Redonda Ambiental da Indústria de Bebidas

FAO LEAP Guidelines

 

Outputs:

– Consumo total de água

– Quantidade de efluentes descarregados

 

2- Mudança de medida no estado de capital natural

Dados e informações necessários:

– Consumo total de água

– Quantidade de efluentes descarregados

– Informações hidrológicas e geológicas sobre a bacia hidrográfica

– Usuários de água concorrentes na bacia hidrográfica

 

Ferramentas:

Inventários de ciclo de vida padronizados ou modelos hidrológicos, tais como:

– AWARE (Água disponível restante)

– Índice de Escassez de Água

MIT Shift Capital Toolkit – criada pela Iniciativa de Sustentabilidade da MIT Sloan School of Management.

Volumetric Water Benefit Accounting (VWBA) – método desenvolvido pela WRI e pelos parceiros da Quantis, LimnoTech e Valuing Nature

 

Outputs:

– Mudança relacionada à quantidade de água: mudança no fluxo ambiental, esgotamento da água superficial, esgotamento das águas subterrâneas, escassez de água

– Mudança relacionada à qualidade da água: eutrofização, crescimento de algas, ecotoxicidade

 

3- Impactos de valor

Dados e informações necessários:

– Medidas de mudança no estado do capital natural

– Fatores de caracterização para avaliação quantitativa e monetária dos impactos

 

Ferramentas:

– Avaliações do ciclo de vida e medidas monetárias específicas baseadas no tipo de impacto

 

Outputs

– Valor monetário ou econômico dos impactos nos serviços ecossistêmicos, na saúde e na sociedade

4- Definir metas

 Dados e informações necessários:

– Outros grandes usuários de água e projetos de ação coletiva na bacia hidrográfica

– Medidas de nível máximo permitido de mudança no capital natural na bacia hidrográfica

 

Ferramentas:

Science Based Targets Network guidance

 

Outputs:

– Consumo máximo permitido de água pela atividade da empresa/cadeia de valor

– Máxima descarga de efluentes permitidas pela empresa/cadeia de valor ativação

 

 

5- Gerenciar impactos

 Dados e informações necessários:

– Valores-alvo de consumo de água e descarga de efluentes

– Impacto da intervenção de manejo de bacias hidrográficas existente

 

Ferramentas:

Science Based Targets Network guidance

 

Outputs:

– Principais ações de gestão que reduzem impactos

– Plano de monitoramento e avaliação para acompanhar o progresso

 

Observações relevantes:

Capital Natural – as empresas devem estabelecer metas para o driver de impacto com base em um nível de mudança pré-determinado permitido no capital natural. O nível pré-determinado de mudança no capital natural é a quantidade de pressão que a captação de água doce pode tomar enquanto permanece no estado desejado. As empresas devem seguir essa abordagem tanto para os indicadores de quantidade de água quanto de qualidade. Por exemplo, a empresa deve definir sua meta em termos do volume de água que pode retirar, mantendo os requisitos mínimos de fluxo ambiental da captação.

ODS 6 – o documento de orientação técnica número 2 para o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 6.3.2 para Água Limpa e Saneamento expande o conceito de valor-alvo para a qualidade da água e fornece orientações sobre como estabelecer metas significativas de qualidade da água. A qualidade da água depende da localização e condições de medição, e os valores-alvo devem levar em consideração o ecossistema e a saúde humana. O documento de orientação fornece valores-alvo opcionais para parâmetros-chave de qualidade da água que muitas vezes estão próximos aos valores-alvo que os países relatam. Para fósforo, por exemplo, o valor-alvo opcional para os rios é de 20 microgramas por litro para fósforo total.

Autoria: Beatriz Sigaud

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