O setor empresarial e o oceano: a biodiversidade marinha como oportunidade de negócios

A biodiversidade tem recebido destaque nos processos produtivos de diferentes setores empresariais. Porém, apesar do oceano concentrar a maior biodiversidade do planeta, muito menos atenção temos dado ao ambiente marinho em nossas discussões. Para promover a discussão das metas da Agenda 2030, a ONU declarou a ‘Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável’, onde ações em prol de todos os 17 ODS podem ser realizadas considerando os mares, oceano e a zona costeira. A Década do Oceano, como é popularmente conhecida, não é mais uma agenda ou demanda para os grupos. Ela é uma oportunidade de organizar os processos existentes, inovando em ações que se relacionam com todos os ODS em um cenário costeiro onde se concentram as maiores cidades, fluxos turísticos e oportunidades de negócios. Este é o primeiro texto da série “o setor empresarial e o oceano”, um convite para o engajamento do setor empresarial na Década do Oceano. 

A Década considera o papel fundamental da ciência para a tomada de decisão, dos indivíduos, governos e empresas, uma característica essencial destacada durante a pandemia e presente nos discursos de lideranças globais, como o presidente Joe Biden dos EUA. E como isso se relaciona com a biodiversidade? É no oceano que está a maior biodiversidade e de serviços ecossistêmicos no planeta e, por consequência, o maior potencial de novos negócios sustentáveis. Além da manutenção do funcionamento dos ecossistemas, fluxo de energia, regulação climática, alimentos (17 a 50% do consumo de proteína animal mundial vem do oceano), bem estar humano e aspectos culturais, existe um enorme potencial de uso sustentável da biodiversidade marinha, em especial de aspectos biotecnológicos que trazem oportunidade de inovação e ampliação de negócios sustentáveis. 

O Brasil possui a Amazônia Azul, com uma estimativa de que mais de 20% do PIB nacional venha do oceano e zona costeira. Esta economia azul necessita de ações interdisciplinares, que integre diferentes setores da sociedade e que desenvolva a ciência, tecnologia e inovação, como a inteligência artificial associado a coleta de dados, contribuindo para a conservação e uso sustentável do oceano. Porém, existe muito sobre a biodiversidade marinha a ser descoberto, e as empresas podem investir neste conhecimento que será a base para o desenvolvimento sustentável. 

Conhecer mais sobre a biodiversidade e seus serviços ecossistêmicos amplia também as fontes de obtenção de recursos e as oportunidades de inovação de produtos ao mesmo tempo que minimiza os impactos de sobre-exploração das mesmas espécies. A biodiversidade marinha é uma das mais impactadas pelo acúmulo de impactos ambientais costeiros, como a sobrepesca, poluição e perda de habitats. A avaliação de como os processos produtivos impactam na biodiversidade e, por consequência, no funcionamento dos ecossistemas, é uma etapa essencial para atingir a meta da Década do Oceano de termos ‘um oceano limpo’ em 2030. Enquanto a poluição por plásticos é a mais abordada na discussão atual, muitos outros poluentes (fertilizantes, resíduos químicos, efluentes industriais) impactam a zona costeira. Um desafio dado pela ONU é apresentar soluções inovadoras que integrem as ações empresariais em prol da biodiversidade às agendas globais e demandas sociais. 

Para o setor empresarial, alinhar suas ações sobre biodiversidade e biotecnologia à Década do Oceano é uma oportunidade de destaque em um movimento global. Este alinhamento não traz mais uma demanda, ele traz a oportunidade de atualizar os processos existentes junto à principal agenda global mundial.      Este é o momento para que as empresas possam avaliar as oportunidades e assumir o papel destaque em um movimento global que está se iniciando. No Brasil, inúmeras ações têm sido realizadas sob a liderança da UNESCO e Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações que envolvem desde políticas públicas a programas de engajamento social. Considerar o oceano, a biodiversidade costeira e marinha e a economia azul são oportunidades que farão a diferença na recuperação após a pandemia e ao longo da próxima Década. O setor empresarial brasileiro tem o potencial de assumir a liderança e destaque nesse processo a partir das ações que já realiza e que podem se alinhar aos objetivos da Década do Oceano.  

 

Esse texto é resultado da parceria entre o CEBDS, UNESCO e Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, ambos os órgãos que estão liderando a implementação da Década da Ciência Oceânica da ONU no Brasil. 

 

Texto de autoria de:

Ronaldo Christofoletti

Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo

Coordenador do Programa Maré de Ciência

Membro do Communication Advisory Group for the UN Ocean Decade – IOC UNESCO

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