Cabe a Belém retomar a trilha da transição gradual para longe dos combustíveis fósseis, aprovar um novo número para o financiamento climático e avançar na agenda de adaptação
São muitas as consequências, para a geopolítica do clima, da retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris, promessa de campanha de Donald Trump cumprida em seu primeiro dia no novo mandato presidencial. Para além da retórica de negação da emergência climática, que já está em curso, a postura do atual presidente norte-americano embaralha o jogo de cartas em que hoje está baseada a diplomacia ligada às mudanças climáticas. Maior economia do mundo, os EUA lideram em emissões de carbono per capita e na responsabilidade histórica pela concentração na atmosfera de gases de efeito estufa. Com o desafio de limitar o aumento da temperatura global a 1,5°C, objetivo primordial do tratado assinado em Paris, cada vez mais distante, a retirada de cena desse importante ator torna a tarefa mais hercúlea.
O apetite trumpista por aumentar a produção de combustíveis fósseis como o petróleo e o gás natural, expresso no bordão “drill, baby, drill” pode esconder, na realidade, o fato de que os EUA, embora seja relevante na corrida das tecnologias de baixo carbono, está bem longe de liderá-la. Em 2024, o mundo ultrapassou, pela primeira vez, a marca de US$ 2,08 trilhões em investimentos em transição energética – metade foi alocada pelos países da região da Ásia-Pacífico, sendo que a China, sozinha, responde por um investimento de US$ 818 bilhões, ou 4,5% do seu PIB – mais do que o dobro de qualquer outra economia e quase quatro vezes o investimento dos EUA, que foi de US$ 338 bilhões, o equivalente a 1,2% do PIB. Os dados fazem parte do estudo Energy Transition Investment Trends 2025 da BloombergNEF.
No ano anterior, a China já havia alcançado a marca de ter 85% de sua nova capacidade de geração de energia proveniente de fontes renováveis. Na geopolítica não existem lacunas de poder, de modo que a segunda posição no ranking de investimentos em tecnologias de baixo carbono, hoje ocupada pelos EUA, pode ser superada por outros países dispostos a aumentar o aporte de recursos nas atividades de baixo carbono. Importante lembrar que, embora recorde, o investimento anual nessas tecnologias está em apenas 37% dos níveis necessários para o resto da década para se alcançar a neutralidade de emissões, o net zero, até 2050.
Assim, colocar o mundo na rota da ambição climática vai demandar um ajuste de curtíssimo prazo, sendo que os próximos 3 a 5 anos são a janela de oportunidade para isso. Isso aumenta a responsabilidade da COP30. A conferência de Belém representa para o Brasil a chance de redefinir o caminho da diplomacia climática, de modo a fomentar avanços concretos, de curto prazo, capazes de acelerar o ritmo das transformações que precisamos.
Depois de duas COPs climáticas baseadas em países que são grandes produtores de petróleo, a COP30 carrega forte simbolismo porque será sediada no coração da Amazônia e em um país com uma matriz predominantemente renovável. Cabe a Belém retomar a trilha da transição gradual para longe dos combustíveis fósseis, proposta em Dubai, e esquecida em Baku, aprovar um novo número para o financiamento climático e avançar na agenda de adaptação. O Brasil, que só tem a ganhar com a descarbonização, tem de assumir o papel de catalisar essa mobilização que hoje está dispersa.
Segundo estudo conduzido pelo Net Zero Industrial Policy, da Universidade Johns Hopkins, o Brasil está entre os quatro países com maior capacidade para liderar a transição energética em âmbito global. O estudo destaca sete áreas em que o país tem vantagens competitivas nessa seara: minerais estratégicos, baterias, veículos elétricos híbridos com biocombustíveis, SAFs (combustíveis sustentáveis de aviação), produção de equipamentos para produção de energia eólica, aço de baixo carbono e fertilizantes verdes.
O curto prazo importa, e os negócios, naturalmente mais ágeis na tomada de decisão, podem contribuir para alavancar e acelerar as soluções para a crise climática. As empresas sabem melhor do que os governos que terão de lidar com um novo contexto relacionado à sua dependência de recursos naturais e às mudanças climáticas. Sabem que é preciso mitigar e, mais ainda, que é preciso adaptar-se a esse novo normal de um mundo em que as temperaturas já romperam a perigosa barreira do 1,5ºC. Há um clamor genuíno que vem não só de uma parte significativa dos consumidores, investidores e reguladores, mas de toda a sociedade que está imersa numa grande crise de confiança nas instituições.
A recente pesquisa Edelman Trust Barometer 2025, realizada com mais de 33 mil pessoas em 28 países, corrobora a percepção que o índice de confiança da população nas instituições é baixo – 6 em cada 10 pessoas estão descontentes e ressentidas com a ação dos governos, das empresas e da parcela mais rica da sociedade. As pessoas temem por seus empregos, e afirmam na pesquisa que os líderes empresariais não têm feito esforços suficientes para promover maior seguridade.
O mesmo ocorre quando o assunto é a crise climática: 62% dos entrevistados revelaram-se descontentes com a forma como o os negócios estão lidando com essa questão. Para eles, as empresas não estão empenhadas o suficiente no enfrentamento da emergência climática. Superar esse ressentimento vai exigir mais ação por parte das empresas, sugere o estudo.
A COP30 será uma oportunidade para que o setor empresarial reforce seu compromisso com a ambição climática, e se organize em uma agenda de ação, como foi acordado em Dubai, na COP28, a partir de quatro pilares prioritários: finanças climáticas, transição energética, pessoas e natureza e inclusão. Retomar essa agenda e implementá-la com celeridade é uma das tarefas de Belém – e também a de reaquecer a esperança no multilateralismo e na diplomacia climática. Não será uma COP fácil, mas as decisões e ações que sairão dela vão ditar a direção e o ritmo das transformações que o planeta precisa.
* Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), entidade com 27 anos de atuação e mais de 110 grandes empresas associadas

