Limites planetários e pontos de inflexão: como evitar?

Por Marina Grossi*

Em um mundo cada vez mais quente, temos vivenciado na pele os riscos que a ciência chama de pontos de inflexão, ou de não retorno. Dois relatórios lançados às vésperas da COP30 evidenciam o impacto da ação humana sobre o planeta. A Terra já rompeu sete dos nove limites planetários, que são os indicadores que medem se o planeta ainda opera em condições seguras para sustentar a vida. Entre  eles, está a demanda crescente por água doce, a acidificação dos oceanos e as mudanças no uso da terra, segundo o estudo publicado pelo Instituto Potsdam para Pesquisa sobre Impacto Climático.

Já o Relatório Global de Pontos de Inflexão 2025, elaborado por 160 cientistas de 23 países, publicado em outubro, constatou seis pontos de não retorno de sistemas terrestres que se encontram em iminente ameaça com a alta na temperatura média global. O mais sensível deles diz respeito aos recifes de corais: a perda em massa desses organismos é considerada o primeiro ponto de não retorno já ultrapassado. Vulneráveis ao aumento da temperatura dos oceanos, com 1,2ºC de alta os corais já iniciaram um processo irreversível de branqueamento, fenômeno que causa a perda de algas que vivem em seu interior, levando-os à morte por falta de nutrientes. Os cientistas estimam que 80% dos corais de águas quentes já tenham sido afetados.

Aumentos da temperatura média global entre 1,5ºC e 2ºC – os limites estabelecidos como objetivo no Acordo de Paris – já colocam a floresta amazônica sob risco de savanização; essas temperaturas levam ao derretimento do gelo dos glaciares das cordilheiras, do permafrost, das calotas de gelo da Antártida Ocidental, além de promover a alteração da corrente marítima do giro subpolar, responsável por levar o calor dos trópicos ao Atlântico Norte, que regula a temperatura na Europa e América do Norte. Mais 2,5ºC de aquecimento global é ingrediente certo para o colapso da circulação meridional do Atlântico, conhecida pela sigla em inglês AMOC, conjunto de correntes marítimas que distribui calor e nutrientes por todo o planeta.

O cenário é desafiador, mas a comunidade científica também trouxe a receita de como evitar – ou estancar – os pontos de não retorno. E isso passa necessariamente por conter as mudanças climáticas. As emissões globais de gases de efeito estufa precisam ser reduzidas pela metade até 2030, em comparação com os níveis de 2010, e depois alcançar emissões líquidas zero, o chamado net zero, até 2050. Nos anos seguintes, será preciso um esforço global dedicado a remover carbono da atmosfera com o objetivo de estabilizar o aumento da temperatura em 1,5ºC, ou menos, até o final do século. Para acelerar esse passo, serão necessárias reduções de 5% ao ano a partir de 2026, que podem vir da recuperação massiva de florestas e outros ecossistemas e de tecnologias limpas.

Os cientistas lançam luz ainda sobre os pontos de inflexão positivos. Desde 2023, houve uma aceleração na adoção de tecnologias limpas em todo o mundo, notadamente a energia solar fotovoltaica e os veículos elétricos; e de iniciativas de regeneração da natureza, juntamente com o surgimento de padrões de consumo e produção mais sustentáveis ​​nas cadeias de suprimentos de alimentos e fibras. Outro ponto de destaque é o crescimento do litígio climático, ou seja, os processos judiciais relacionados ao clima: mapeamento do Sabin Center for Climate Change Law, da Universidade Columbia (EUA), aponta para 3,8 mil ações nas cortes de todo o mundo. Os pontos de inflexão positivos podem se propagar em um efeito cascata entre diferentes setores da sociedade e da economia, afirma o estudo – sugerindo que, sim, é possível superar a beira do colapso em que a humanidade se colocou.

Assim, catalisar a ação coletiva da sociedade – como evoca o espírito do mutirão global, proposto pela COP30 – é fundamental para desencadear mais pontos de inflexão positivos e dar aos formuladores de políticas públicas um mandato para agir. Somente com uma combinação de políticas de mitigação e adaptação, empresas comprometidas com a agenda climática e mobilização da sociedade civil, o mundo poderá mudar sua trajetória, deixando de enfrentar riscos existenciais dos limites planetários para aproveitar as oportunidades trazidas pelos pontos de inflexão positivos.

* Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), entidade com 28 anos de atuação e 120 grandes empresas associadas, Enviada Especial da Presidência da COP30 para o Setor Empresarial

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