Por Marcelo Altieri, presidente da Yara Brasil
No ano em que recebe a COP30, o Brasil, uma das principais potências agrícolas mundiais, tem uma oportunidade ímpar de posicionar o agronegócio no centro das discussões. O setor é parte importante da solução para a redução das emissões, captura de carbono, segurança alimentar e segurança energética. Graças à aposta e ao avanço tecnológico de sua agricultura, o país possui modelos sustentáveis escaláveis. Eles precisam ser vistos e reconhecidos pelo mundo. E o momento é agora.
O salto que o Brasil deu nos últimos 40 anos, passando de importador de alimentos a exportador, é parte de um movimento de modernização que resultou em aumentos significativos na produção e produtividade. De acordo com dados do estudo “Visão de futuro do agro brasileiro”, da Embrapa, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, entre 1974 e 2021, a área cultivada com grãos, por exemplo, aumentou 1,42% ao ano, enquanto a produção cresceu à taxa muito maior, de 4,11%, e o rendimento a 2,69%.
Hoje se produz muito mais sobre uma mesma área, diminuindo a pressão sobre ecossistemas sensíveis e recursos naturais. Isso já faz com que o sistema agrícola brasileiro seja um modelo de menor emissão comparado a outros ao redor do mundo. Além disso, práticas regenerativas, que melhoram a microbiota e a saúde do solo, permitem ao agronegócio não apenas reduzir as emissões do processo produtivo, mas também capturar mais CO 2.
O fertilizante tem sido componente chave no sucesso desta equação. Além de seu papel fundamental para a produtividade dos cultivos e a garantia da segurança alimentar, as novas tecnologias no desenvolvimento de adubos estão respondendo aos desafios impostos pelas mudanças climáticas. O esforço é significativo haja visto que a produção e aplicação de fertilizantes nitrogenados correspondem a algo próximo de 2% das emissões globais de gases de efeito estufa, conforme informações da FAOSTAT, plataforma de dados da FAO, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura.
Neste aspecto, o Brasil também se destaca, já que a adoção de fertilizantes especiais no país cresce muito acima da média global. Isso inclui, por exemplo, as novas soluções de alta performance com componentes de matriz orgânica, como extrato de algas, substâncias húmicas e aminoácidos, que contribuem para uma nutrição balanceada e melhor resposta da planta ao que na agronomia chamamos de estresse abiótico, efeitos adversos de fatores ambientais, como seca e temperaturas extremas.
Tais soluções nutricionais estão ajudando a construir resiliência para as lavouras, conciliando produtividades com o desenvolvimento sustentável das culturas.
Recentemente, o Brasil também se tornou apto a produzir fertilizante a partir de amônia renovável, feita com biometano originado de resíduos de cana-de-açúcar. Essa é uma solução na qual o país tem grande oportunidade de liderança devido ao enorme potencial produtivo de biomassa não somente derivado de cana como de diversas outras agroindústrias dado a diversa e extensa produção agrícola brasileira. A partir de investimento e regulação adequadas, tais iniciativas podem crescer significativamente, transformando o resíduo em riqueza produtiva.
Instrumentos como o RenovaBio e a RenovaCalc, que já vinculam créditos de carbono à eficiência energética e ambiental na produção de biocombustíveis, incluindo o uso de fertilizantes mais sustentáveis, mostram que o Brasil também dispõe de exemplos de mecanismos de reconhecimento eficaz, que não só valorizam a contribuição dos produtores de cana-de-açúcar e milho para a expansão dos biocombustíveis na matriz energética brasileira, como também os esforços de transição que empregam para diminuir a pegada de carbono de seus cultivos.
Cuidar da saúde do solo é a melhor apólice de seguros que temos contra as mudanças climáticas. Mas, para regenerar o solo também é necessário regenerar as relações humanas. Como bem pontuou o presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, em sua primeira carta pública, é preciso um mutirão contra a mudança do clima, “um esforço global de cooperação entre os povos para o progresso da humanidade”.
Fazer com que essas soluções sejam escaladas e cheguem a cada vez mais produtores e culturas depende de uma ação coletiva, do engajamento de todos os elos da cadeia de valor para apoiar os agricultores no processo de descarbonização e valorizar o trabalho que fazem no campo. O agronegócio brasileiro é uma vitrine de soluções para o clima e a COP30 nossa janela de oportunidades para exportar essas tecnologias para o mundo. O Brasil não pode deixar que ela se feche.

