Por Marina Grossi*
A corrida global pela descarbonização já está redefinindo investimentos, cadeias produtivas e prioridades estratégicas. Em 2025, os investimentos em tecnologias voltadas às energias de baixo carbono bateram recorde no mundo, somando US$ 2,3 trilhões, segundo a BloombergNEF.
Para avançar, porém, essa transição exige um elemento estrutural: minerais essenciais. Turbinas eólicas, painéis solares e baterias demandam uma variedade maior de minerais do que tecnologias carbono-intensivas, como motores a combustão e termelétricas. Eletrificar e descarbonizar o sistema energético passa, inevitavelmente, por uma cadeia mineral mais robusta e eficiente.
A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que a demanda por minerais essenciais para a transição energética deve triplicar até 2030 (crescimento de 3,5 vezes) e quadruplicar até 2040, em linha com o cenário de emissões líquidas zero. Em meio a essa corrida global, o Brasil ocupa posição estratégica: reúne uma das maiores diversidades geológicas do mundo, setor mineral desenvolvido e matriz elétrica renovável — combinação que pode diferenciá-lo não apenas por volume, mas por competitividade climática.
Foi nesse contexto que surgiu a Coalizão de Minerais Essenciais. A iniciativa nasceu a convite do presidente da COP30, o embaixador André Corrêa do Lago, e é liderada pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), pela Vale e pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), com a participação de empresas como Alcoa, Anglo American, CBA e Michelin, entre outras. Ao longo de 2025, workshops e análises técnicas consolidaram recomendações entregues à Presidência da COP30 e ao governo federal.
O principal mérito desse processo foi transformar um tema fragmentado em estratégia compartilhada, em um esforço colaborativo e pré-competitivo. A Coalizão permitiu maior coesão do setor diante de um cenário geopolítico em rápida transformação e organizou um caminho técnico para descarbonização e agregação de valor.
Há um marco que traduz essa coordenação em consequência prática: a partir do trabalho da Coalizão, o IBRAM, presidido à época por Raul Jungmann, estabeleceu como metas setoriais as reduções de emissões apontadas no estudo, com compromissos para 2035 e 2050. Em um ambiente global que exige rastreabilidade e metas verificáveis, esse alinhamento fortalece a credibilidade do setor e sinaliza previsibilidade para investimentos.
A Coalizão integra, ainda, um conjunto mais amplo de articulações conduzidas pelo CEBDS — Transportes, Energia e Agronegócio. Juntas, as quatro coalizões reuniram 270 entidades, entre empresas, governo e sociedade civil, para construir consensos alinhados à ciência e às metas climáticas brasileiras.
No caso dos minerais essenciais, o relatório destaca três grandes frentes de contribuição do setor mineral para a mitigação de gases de efeito estufa. A primeira é a expansão da produção de minerais críticos, fundamentais para tecnologias como baterias, veículos elétricos e painéis fotovoltaicos. Em terras raras, por exemplo, hoje no centro de disputas geopolíticas, o Brasil possui a segunda maior reserva do mundo, mas ainda tem baixa capacidade de exploração e refino. O governo vem buscando acordos que impulsionem essa capacidade, como o investimento americano em uma mineradora brasileira e o acordo bilateral entre Brasil e Índia, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em fevereiro.
A segunda frente é a descarbonização da mineração. O estudo indica que é viável reduzir significativamente as emissões do setor até 2050, combinando biocombustíveis, eletrificação de frotas, energia renovável e recuperação de áreas degradadas. Por contar com uma matriz elétrica renovável, o Brasil reúne condições para construir uma das minerações de menor intensidade de carbono do mundo, desde que assegure escala e investimentos.
A terceira frente é a contribuição via cadeia do minério de ferro. Como segundo maior produtor mundial, o Brasil pode apoiar a descarbonização da siderurgia internacional ao ampliar a oferta de soluções de menor intensidade de carbono, como pelotas e briquetes produzidos no país. Ao reduzir as emissões na produção do minério, o país contribui para diminuir também as emissões da cadeia global do aço que utiliza esse insumo.
Esse potencial, no entanto, depende de cinco condições habilitadoras: ambiente regulatório e econômico que viabilize a descarbonização, inclusive com instrumentos como precificação de carbono; avanço tecnológico e P&D; infraestrutura adequada; instrumentos financeiros verdes que reduzam riscos; e mecanismos de mercado que valorizem produtos de menor intensidade de carbono.
Raul Jungmann, ex-presidente do IBRAM e ex-ministro que nos deixou em janeiro, afirmava que “a mineração é um pilar essencial da solução para a crise climática”. Seu legado reforça a direção apontada pela Coalizão: uma mineração capaz de responder à transição energética com competitividade, governança e ambição climática.
A transição energética exigirá mais minerais — e exigirá também mais responsabilidade, coordenação e visão de longo prazo. O Brasil reúne ativos naturais, capacidade produtiva e matriz energética que o colocam em posição diferenciada nessa agenda. Transformar essa vantagem em liderança efetiva depende de alinhar estratégia empresarial, políticas públicas e investimento. A Coalizão demonstra que o setor mineral brasileiro está disposto a assumir esse desafio e a contribuir para uma transição energética competitiva, sustentável e compatível com as metas climáticas globais.
* Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), entidade com 29 anos de atuação e mais de 110 grandes empresas associadas, Enviada Especial da Presidência da COP30 para o Setor Empresarial.

