Com estimativa de até 9 milhões de toneladas de CO₂ geradas, a Copa do Mundo de 2026 coloca em xeque as promessas climáticas da FIFA e acende um debate urgente sobre o papel dos megaeventos esportivos na agenda ambiental global.
Cinco bilhões de pessoas acompanham a Copa do Mundo. É o evento mais assistido do planeta, capaz de paralisar países, movimentar economias e dominar conversas por um mês inteiro. Toda essa grandiosidade, porém, tem um custo que raramente aparece nas transmissões ao vivo: uma pegada de carbono capaz de rivalizar com a emissão anual de países inteiros.
A edição de 2026, realizada em conjunto por Estados Unidos, México e Canadá, promete ser a maior da história. Com 48 seleções disputando jogos em 16 cidades espalhadas por três países, a Copa deste ano está projetada para gerar entre 7,8 e 9 milhões de toneladas de CO₂ equivalente. Para efeito de comparação, os Jogos Olímpicos de Paris 2024 emitiram aproximadamente 1,75 milhão de toneladas. A Copa de 2026 pode ser até quatro vezes mais impactante.
O vilão principal é o transporte aéreo. Cerca de 87% de todas as emissões previstas virão de voos, o que representa aproximadamente 7,7 milhões de toneladas de CO₂. A lógica é simples: quando os jogos acontecem em cidades separadas por milhares de quilômetros, fãs, comitivas, jornalistas e equipes técnicas precisam cruzar o continente repetidamente ao longo de quase dois meses de torneio. A expansão de 32 para 48 seleções, decisão tomada pela FIFA em 2016, significa mais jogos, mais deslocamentos e, inevitavelmente, muito mais emissões.
O peso das promessas
A FIFA não ignora o tema. A Estratégia de Sustentabilidade e Direitos Humanos da Copa do Mundo de 2026, publicada pela entidade, prevê o uso prioritário de estádios já existentes, incentivo a hospedagens com práticas sustentáveis, promoção do transporte público nas cidades-sede e uma campanha de gestão de resíduos chamada “Gol por el Ambiente”. São iniciativas reais, mas que não tocam na principal fonte de emissões: as viagens aéreas.
Há um padrão que se repete. No Qatar 2022, a FIFA comprometeu-se publicamente a realizar a primeira Copa neutra em carbono da história. A promessa foi ampla, a repercussão foi positiva. Mas o regulador suíço de publicidade concluiu, em 2023, que as afirmações de neutralidade carbônica do torneio eram infundadas, em uma decisão considerada histórica por ter sido a primeira sentença formal de greenwashing contra uma organização esportiva global. O que se apresentava como compensação real de emissões era, na prática, uma contabilidade que não fechava.
Para 2026, a FIFA adotou uma postura diferente ao não estabelecer uma meta explícita de neutralidade de carbono. Isso evita o risco de uma nova condenação por greenwashing, mas também torna os compromissos climáticos da entidade menos tangíveis e mais difíceis de cobrar.
Estrutura contra intenção
O problema central não está na falta de vontade declarada, mas numa tensão estrutural: a lógica comercial que orienta a expansão do torneio é incompatível com qualquer trajetória séria de redução de emissões. Mais times significam mais jogos, mais patrocinadores, mais receita. Também significam mais carbono.
Organizações como a Scientists for Global Responsibility apontam que o modelo atual do torneio é, por definição, insustentável do ponto de vista climático. A Copa de 2026 gerará quase o dobro da média das últimas quatro edições. Sem mudanças estruturais no formato do evento, as iniciativas de sustentabilidade operam nas margens de um sistema que continuará crescendo em emissões.
Isso não significa que as ações sejam irrelevantes. Estádios com eficiência energética, cadeia de fornecedores responsável, gestão adequada de resíduos e mobilidade urbana integrada são frentes que constroem capacidade local e deixam legados concretos para as cidades-sede. Mas tratá-las como solução para o problema climático do evento é um equívoco que o mercado, os investidores e a sociedade civil já não aceitam com facilidade.
O que os megaeventos têm a ensinar
A Copa do Mundo, que começa hoje (11 de junho) é um espelho amplificado dos desafios que qualquer organização enfrenta ao tentar conciliar crescimento e sustentabilidade. A tensão entre expansão e responsabilidade climática que a FIFA vive em escala global é a mesma que muitas empresas enfrentam em seus próprios processos de planejamento estratégico.
O que diferencia uma abordagem genuína de uma cosmética é a disposição de questionar as próprias premissas de crescimento. No esporte, como no setor corporativo, as metas climáticas só ganham credibilidade quando influenciam decisões de negócio concretas.
Sobre o CEBDS
O Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) é uma associação civil sem fins lucrativos que promove, desde 1997, o desenvolvimento sustentável no Brasil por meio da articulação junto aos governos e à sociedade civil, além de divulgar os conceitos e práticas mais atuais do tema. Voz do setor empresarial, o CEBDS reúne mais de 110 dos maiores grupos empresariais do país e é o representante brasileiro do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), presente em 36 países com 200 empresas associadas no mundo.

