De Dubai a Belém – e além

Na COP 28, Brasil terá a chance de mostrar ao mundo seus esforços e progresso em relação aos compromissos assumidos no Acordo de Paris e assumir posicionamento consistente frente à agenda climática

Por Marina Grossi*

“A era da ebulição global chegou” – foi com essas palavras que o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, definiu, em julho deste ano, a atual fase da crise climática. Com recordes de temperatura sendo quebrados mês após mês, 2023 caminha para ser o ano mais quente da história. De acordo com o Serviço de Mudanças Climáticas do observatório europeu Copernicus, de janeiro até setembro a temperatura média global ficou 1,4ºC superior à média pré-industrial; só no mês de setembro, os termômetros ficaram 1,75ºC acima do que marcaram antes da industrialização.

O Brasil acompanha a tendência: uma forte onda de calor se espalhou pelo país e fez com que as temperaturas atingissem marcas extremas em algumas capitais, muito acima do que poderia ser considerado normal para a entrada da primavera – São Paulo, por exemplo, alcançou 36,5ºC; Rio, 39,9ºC, e Cuiabá atingiu 42ºC. Além disso, o Brasil entrou no mapa dos eventos climáticos extremos. As fortes chuvas que desde setembro afetam a região Sul do país já causaram mais de 40 mortes e prejuízos a mais de 80 municípios; já na região Norte, a seca severa colocou 58 municípios em situação de emergência e deve afetar 500 mil pessoas, com prejuízos sociais e econômicos incalculáveis.

A emergência climática se impõe. Estamos às vésperas da COP 28, a Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, que neste ano será realizada em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, no final de novembro. O senso de urgência para uma ação climática ambiciosa nunca foi tão crítico. Na COP 28, pela primeira vez, os países que fazem parte da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês) farão um balanço da implementação dos compromissos climáticos assumidos no Acordo de Paris.

Esse mecanismo de transparência é chamado de Global Stocktake. No início de setembro, foi divulgado o primeiro relatório da iniciativa, que confirmou o que já era esperado: o mundo está muito distante de evitar que a temperatura média global se eleve acima de 1,5ºC. No ritmo atual de cumprimento das NDCs (contribuições nacionalmente determinadas), a humanidade caminha na direção de atingir entre 2,4ºC e 2,6ºC até 2100.

Com empenho, frisa o documento, seria possível reduzir o aquecimento a uma faixa entre 1,7ºC e 2,1ºC, caso os compromissos net zero sejam cumpridos à risca. Assim, a COP 28 deverá ser um grande palco de discussões sobre os passos necessários para se evitar os cenários mais drásticos das mudanças climáticas.

O Brasil terá a chance de mostrar ao mundo seus esforços e progresso em relação aos compromissos assumidos no Acordo de Paris e assumir um posicionamento consistente frente à agenda climática por parte de todos os segmentos da sociedade – governo, setor empresarial e sociedade civil organizada.

Entre as entregas que o Brasil levará para a COP estão as medidas anunciadas no Plano de Transformação Ecológica do governo federal, com o qual o CEBDS vem contribuindo ativamente e que inclui a regulamentação do mercado de carbono, um tema com o qual o setor empresarial tem trabalhado desde 2016 e que apresentou avanços recentemente, com a aprovação de um projeto de lei no Senado no dia 4 de outubro.

Temos uma trajetória a construir que parte desta COP 28, passa pela COP 30 em Belém em 2025 – a primeira em solo amazônico e carregada de simbolismo para o país, visto que a Amazônia é peça chave para o enfrentamento das duas graves crises ambientais que ameaçam a vida na Terra – a emergência climática e a perda da biodiversidade. E segue adiante, com o intuito de nos tornarmos um país protagonista de um novo modelo de desenvolvimento, baseado em uma economia de baixo carbono e com inclusão social, em uma transição justa para todas as pessoas.

O setor empresarial brasileiro está engajado na busca por soluções e na articulação com governos e sociedade civil para que temas importantes avancem, tais como o mercado regulado de carbono, a taxonomia sustentável e a neoindustrialização verde, além de um novo modelo de economia para a Amazônia, que permita gerar prosperidade com a floresta em pé. Até 2030, temos uma janela de oportunidade única para fazer isso acontecer.

* Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), entidade com mais de 110 empresas associadas cujo faturamento somado equivale a quase 50% do PIB brasileiro

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