Por Marina Grossi*
A transição energética tornou-se um tema central das finanças globais. Em 2025, os bancos obtiveram mais receitas com o financiamento de projetos de baixo carbono do que com operações ligadas a combustíveis fósseis, mostra um levantamento da Bloomberg Green. Os empréstimos verdes e a emissão de títulos de dívidas ligadas à sustentabilidade – conhecidos como green bonds – alcançaram pela primeira vez o patamar próximo a US$ 1 trilhão, somando US$ 947 bilhões, no mundo. Isso vem ocorrendo também nos grandes bancos dos Estados Unidos, que, pelo quarto ano consecutivo, ganharam mais financiando projetos ligados a clima: as receitas com financiamentos e títulos verdes somou US$ 3,7 bilhões, 28% a mais do que os US$ 2,9 bilhões obtidos com operações ligadas a petróleo, carvão e gás natural.
No caso dos EUA, vale destacar que a maior presença de investimentos sustentáveis nos portfólios dos bancos ocorre justamente em um momento em que o governo do republicano Donald Trump estimulou grandes instituições de Wall Street a desembarcarem oficialmente da agenda climática. Isso levou ao fim da Net Zero Banking Alliance, coalizão lançada na COP26, em Glasgow, Escócia, em 2021, com o objetivo de estimular investimentos em mitigação dos gases de efeito estufa. Além disso, Trump retirou os EUA do Acordo de Paris e da Convenção sobre Mudança do Clima da ONU, desmontou programas e subsídios que estimulavam investimentos em fontes limpas e veículos elétricos e suspendeu obras de parques eólicos offshore licenciados na gestão de seu antecessor.
Apesar da ofensiva, o apetite dos investidores por tecnologias sustentáveis não dá mostras de que irá arrefecer. E isso pode ser explicado por uma razão muito simples: essa corrida é irrefreável, pois as tecnologias limpas são o futuro, a despeito da importância que a energia fóssil ainda representa para a matriz energética global. Algumas projeções da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) apontam para um cenário em que o crescimento da oferta de petróleo comece a desacelerar por volta de 2028, refletindo a diminuição da produção em campos mais antigos – a IEA estima uma queda na produção de 8% ao ano até a próxima década.
No cenário de políticas declaradas (com os países efetivando seus compromissos climáticos e de segurança energética), a sinalização é ainda mais clara: a demanda por petróleo atinge o pico de 102 milhões de barris/dia por volta de 2030, e depois começa a declinar gradualmente. Nesse horizonte, a fatia das vendas globais de veículos elétricos (VEs) sobe de mais de 20% atualmente para mais de 50% até 2035, apesar da queda nas vendas desses carros nos EUA, influenciadas pelas políticas de Donald Trump. Em 2035, mais de 840 milhões de VEs deixarão de utilizar 10 milhões de barris de petróleo por dia, principalmente na Ásia e na Europa. Tendo em vista que a instalação de capacidade de geração de energia de baixo carbono acelerou desde 2010 e as vendas de VEs ganharam impulso a partir de 2020, com a China liderando esse movimento, é clara a movimentação financeira que está dando suporte a essas frentes tecnológicas. Em 2025, a China, sozinha, respondeu por um recorde de US$ 138 bilhões em emissões de green bonds, puxadas por seus maiores bancos.
A aposta em tecnologias sustentáveis dá retorno financeiro às empresas e instituições financeiras, que não estão dispostas a renunciar a esses ganhos. Ao mesmo tempo, o mundo precisa dar escala a essas soluções – o financiamento da transição para uma economia de baixo carbono, especialmente para os países em desenvolvimento segue sendo um dos principais desafios das COPs do clima. “O futuro já está aqui, só não está distribuído” – a frase, do escritor de ficção científica William Gibson, tem sido utilizada pelo ex-vice presidente dos EUA Al Gore para mostrar que soluções climáticas já existem, funcionam e são mais baratas, mas ainda não chegam aos países que mais precisam.
Gore, que ganhou o Nobel da Paz em 2007 por seu ativismo climático, tem dito que o problema não é tecnológico, e sim financeiro: o sistema global de investimentos superestima riscos em países em desenvolvimento, bloqueando o acesso ao capital para tecnologias emergentes que podem auxiliar na mitigação dos gases estufa. Para “distribuir o futuro”, é essencial corrigir essa falha, criar mecanismos que reduzam riscos e permitir que o capital privado financie a transição energética onde ela mais importa, especialmente no Sul Global.
Alguns caminhos começam a se desenhar, como ficou evidente na COP30, em Belém. O Mapa do Caminho Baku-Belém parte do reconhecimento de que mobilizar os US$ 1,3 trilhão anuais necessários aos países em desenvolvimento até 2035 não é apenas um desafio financeiro, mas institucional e político. O desafio do nosso tempo é garantir que esse futuro chegue a todos. As finanças sustentáveis são a ponte entre o que já é possível e o que ainda precisa ser feito. Corrigir as distorções do sistema financeiro global é o passo decisivo para transformar inovação em impacto, crescimento em inclusão e a transição energética em prosperidade compartilhada.
* Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), entidade com 28 anos de atuação e 120 grandes empresas associadas, Enviada Especial da Presidência da COP30 para o Setor Empresarial.

