Empresas e COP30: setor privado terá de colocar soluções em prática

Por Marina Grossi para o Estadão*

A COP30, que terá início em dois meses, representa um marco decisivo para a agenda climática global. Realizada no Brasil, em plena Amazônia, a Conferência simboliza a transição de promessas para entregas concretas, inaugurando um novo ciclo em que a mitigação, adaptação e o desenvolvimento sustentável devem ganhar escala e se tornar tangíveis. Mais do que um espaço de negociação entre países, será uma oportunidade histórica para criar mecanismos financeiros inovadores e ampliar investimentos em setores estratégicos como bioeconomia, energia e agricultura sustentável, áreas nas quais o Brasil e a América Latina reúnem condições singulares para exercer liderança global.

Nesse contexto, a presidência brasileira da COP30 tem reforçado a relevância de atores não estatais, como empresas, cidades e governos subnacionais, reconhecendo que, enquanto as nações constroem políticas públicas que orientam a transição, cabe muitas vezes a esses atores colocar em prática as soluções.

Nesse espírito, o setor empresarial brasileiro está engajado em fazer desta Conferência a mais mobilizadora da história das COPs. E, para materializar as muitas iniciativas já desenvolvidas e escaláveis lideradas pelas empresas, o CEBDS estruturou o Brasil de Soluções, um portfólio pioneiro que reúne 135 projetos de alto impacto socioambiental e climático, conduzidos por 58 empresas associadas que representam 18 setores estratégicos da economia nacional. Esse conjunto de iniciativas cobre biomas fundamentais como a Amazônia, o Cerrado e a Mata Atlântica e revela a capacidade do setor privado de acelerar a construção de uma economia de baixo carbono.

A consistência desse portfólio é evidente: mais da metade das iniciativas adota metodologias internacionalmente reconhecidas de mensuração de resultados, como o GHG Protocol, o que assegura transparência e credibilidade. Além disso, 79% dos projetos estão diretamente ligados à redução de emissões, à adaptação climática e à geração de créditos de carbono. O Brasil de Soluções, contudo, vai além do mapeamento de práticas exemplares. Ele mostra como o setor empresarial tem integrado seus compromissos a planos de transição corporativos, metas Net Zero e Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, promovendo um ecossistema colaborativo que envolve comunidades locais, instituições de pesquisa e parcerias interinstitucionais. Esse movimento amplia a escalabilidade das ações e consolida práticas sustentáveis que, em sua essência, preparam o país para ser protagonista da nova economia verde.

A expectativa em torno da COP30 está na sua capacidade de ser lembrada como a “COP da ação”. A presidência da Conferência tem destacado que este será o momento de superar a era da negociação para inaugurar, de fato, a era da implementação. É nesse espírito que coalizões empresariais vêm sendo mobilizadas de forma inédita, sob a liderança do CEBDS, demonstrando que compromissos podem e devem se traduzir em resultados concretos. Mais de 150 empresas e associações representativas já integram essas frentes colaborativas e pré-competitivas, que buscam acelerar a descarbonização de setores-chave da economia brasileira.

Entre os avanços já conquistados, a Coalizão de Transportes consolidou metas em conjunto com mais de 50 entidades e entregou suas propostas à presidência da COP30. Em paralelo, outras frentes estratégicas estão em curso, como a Coalizão do Setor Elétrico, que reúne 57 empresas e 8 associações; a Coalizão de Minerais Essenciais, liderada ao lado da Vale e com a participação de 20 empresas; e a Coalizão da Agricultura, que conta com grandes players globais como Amaggi, Bayer, Nestlé, Syngenta e Tereos. O resultado desse trabalho será a produção de relatórios robustos, capazes de identificar oportunidades e desafios estratégicos e de fornecer subsídios concretos para políticas públicas nacionais e internacionais, além de servir de base para os debates que ocorrerão durante a Conferência.

Esse esforço conjunto revela a capacidade do Brasil de articular uma agenda climática não apenas ambiciosa, mas também viável e de alto impacto, reforçando o papel do CEBDS como catalisador da transição sustentável. A COP30 deve ser encarada não como um ponto de chegada, mas como o início de uma nova década de ação climática. É a oportunidade para o Brasil consolidar sua posição como líder global em soluções empresariais, socioambientais e climáticas, com um setor privado mobilizado e pronto para transformar compromissos em resultados concretos.

*Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), entidade com 28 anos de atuação e 120 grandes empresas associadas. É também Enviada Especial da Presidência da COP30 para o Setor Empresarial.

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