Por Marina Grossi*
Questões como contexto geopolítico turbulento, conflitos armados, a escalada da desinformação e mudanças profundas nos modelos de trabalho figuram, ano após ano, entre as principais ameaças à estabilidade econômica global apontadas pelos relatórios de riscos globais elaborados pelo Fórum Econômico Mundial. Essas crises se desenrolam tendo ainda como pano de fundo aquela que eu chamo de “a tríade das crises socioambientais”: o avanço das mudanças climáticas, a perda recorde da biodiversidade e o agravamento das desigualdades sociais, especialmente no contexto pós-pandemia.
A necessidade de lidar com questões ambientais prementes e o desafio do desenvolvimento são discussões que foram ganhando relevância a partir da década de 1970, tendo como marco inicial a Conferência de Estocolmo, em 1972, onde foi cunhada a definição do desenvolvimento sustentável – sendo aquele que supre as necessidades da geração atual sem comprometer a capacidade das futuras gerações de suprir as suas próprias, conciliando o progresso socioeconômico com a preservação do meio ambiente e o uso racional dos recursos. Na ocasião, parte dos 113 países que enviaram representantes à primeira conferência das Nações Unidas sobre meio ambiente e desenvolvimento foram veementes na defesa de seus “direitos de poluir para se desenvolverem” – e isso inclui o Brasil, à época açodado pelo chamado milagre econômico. Estocolmo, contudo, forneceu as bases para essa discussão global, que vinte anos depois, desembarcaria com maior peso e maturidade na Rio-92.
Em solo brasileiro, mais precisamente no Rio de Janeiro, representantes de 179 países se aprofundaram nas discussões sobre desenvolvimento sustentável. Do encontro, nasceram as convenções-quadro da ONU sobre Mudança do Clima, Diversidade Biológica e Combate à Desertificação, que estabeleceram a realização de encontros periódicos (anuais ou bianuais) para tratar desses temas, as Conferências das Partes, ou COPs. A Cúpula da Terra, como também ficou conhecida, marcou ainda uma mudança de postura das empresas em relação ao entendimento do conceito do desenvolvimento sustentável.
Essa semente não tardou a germinar, dando origem a movimentos empresariais que nasceram do entendimento de que as empresas têm um papel essencial para transformar a economia e gerar prosperidade de forma sustentável. Exemplo disso é o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), que foi criado em 1997 por um grupo de empresários visionários e atentos ao zeitgeist, inspirados também pela formação do Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável – World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), dois anos antes. Assim, a vanguarda empresarial global, composta por mais de 200 empresas, criou um movimento para integrar os princípios do desenvolvimento sustentável às práticas de negócios, por meio da conciliação das dimensões econômica, social e ambiental.
A partir daí, a década seguinte foi pródiga em iniciativas que engajaram empresas em compromissos e estratégias visando a sustentabilidade. Exemplos são o Pacto Global da ONU; os Princípios do Equador; os indicadores da Global Reporting Initiative (GRI); a criação das primeiras carteiras de sustentabilidade das bolsas de valores – Dow Jones Sustainability Index (DJSI), em Nova York; e o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) na então Bovespa; entre outras. É importante destacar que, ainda na década de 1990, o conceito de sustentabilidade nos negócios surge a partir de alguns teóricos, como o sociólogo britânico John Elkington, que cunhou o termo ‘triple bottom line’, que examina o impacto social, ambiental e econômico de uma empresa.
Para Elkington, os três pilares Profit-People-Planet (Lucro-Pessoas-Planeta) sustentam a interação entre empresas e comunidades, e o teórico propõe que o impacto dos negócios da empresa não fique restrito à dimensão econômica – de gerar receita e empregos e pagar impostos -, mas também às dimensões social e ambiental, de modo que as empresas não podem consumir recursos naturais ao ponto de prejudicar as gerações futuras – dialogando diretamente com a linha de pensamento que emergiu a partir de 1972.
Em 2004, emerge pela primeira vez o termo ESG, a sigla em inglês para Environmental, Social and Governance (Ambiente, Social e Governança), que corresponde às práticas ambientais, sociais e de governança de uma organização. O termo foi cunhado em um relatório do Pacto Global em parceria com o Banco Mundial, chamado Who Cares Wins. Surgiu de uma provocação do então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, a 50 CEOs de grandes instituições financeiras, sobre como integrar fatores sociais, ambientais e de governança no mercado de capitais. A tese do relatório é de que as pressões enfrentadas nesses campos tenderão a transformar o ambiente de negócios, de modo que as empresas que não incorporarem essas variáveis ao seu jeito de fazer negócios tendem a perder espaço, enquanto as que tiverem bom desempenho serão valorizadas pelo mercado.
Assim, a agenda ESG passa a ser vista como um orientador da gestão das empresas, convergindo para o objetivo global de um modelo de desenvolvimento sustentável. Isso coloca as empresas e os investidores como parte da solução e delineiam seu papel como promotores de uma sociedade próspera econômica e socialmente justa, equitativa e ambientalmente responsável. Hoje, essa visão está consolidada. As empresas compreenderam que as graves crises ambientais, especialmente a emergência climática, são um risco direto à competitividade, pois afeta suas cadeias de suprimentos, seus custos e sua reputação. Ao mesmo tempo, a ação na agenda ESG se tornou um motor de inovação e investimento.
Um exemplo disso está no relatório Business Breakthrough Barometer 2025, do WBCSD: mais da metade dos líderes empresariais em 50 países já ampliam investimentos em metas de redução das emissões de gases de efeito estufa voltadas à neutralidade de carbono, as chamadas políticas ‘net zero’, para garantir competitividade de longo prazo. Ou seja, o engajamento das empresas na agenda climática deixou de ser resposta a pressões regulatórias e passou a expressar uma visão estratégica de futuro, baseada em inovação, eficiência e valor compartilhado.
Esse estudo, com a visão de mais de 300 lideranças empresariais do mundo todo, traz achados importantes no que tange às motivações das empresas para perseguirem objetivos ESG, especialmente em seu pilar ambiental de resposta às mudanças climáticas. O grau de reconhecimento de sua importância é elevado: 56% dos líderes apontaram a competitividade de longo prazo como principal motivação para os investimentos em neutralidade climática, sendo que 91% deles mantiveram ou aumentaram o aporte de recursos nessas políticas em 2024; outros 94% consideram as políticas públicas de apoio à transição para uma economia de baixo carbono fatores críticos para decisões de investimentos; e 92% já reconhecem que o custo da inação será superior ao custo da transição. Por fim, para 61%, é certo que os custos decorrentes dos impactos climáticos irão aumentar e impactar seus negócios.
O estudo mostrou que as empresas estão se concentrando em tecnologias que oferecem sustentabilidade e retorno comercial, como energias renováveis, veículos elétricos e outras soluções de baixo carbono com forte impulso de mercado e custos decrescentes. Em setores mais difíceis de descarbonizar, como aço e cimento, as empresas estão adotando uma abordagem mais direcionada, investindo onde veem sinais claros de demanda e potencial para políticas de apoio. Mas, em todos os setores, a direção é clara: as empresas veem cada vez mais o foco na descarbonização como uma necessidade estratégica para se manterem competitivas em mercados em constante evolução. É nítida a percepção das empresas sobre os crescentes impactos ambientais e climáticos e elas estão clamando aos governos que mantenham o rumo, pois as empresas não podem arcar com o fardo sozinhas.
ESG como instrumento de gestão da reputação
Para além do argumento da competitividade e inovação, o comprometimento com políticas ESG deve ser compreendido como um modelo robusto de gestão de riscos e oportunidades e também como um instrumento de gestão da reputação das empresas que buscam a perenidade. Mais do que atender a regulamentações ou políticas de compliance, as empresas com visão de futuro entendem as políticas ESG como estratégicas para fortalecer suas marcas e como catalisadoras de valor para consumidores, investidores e demais stakeholders. Em plena “Era da Reputação”, como postulado pela consultoria Caliber, confiança e transparência são atributos fundamentais, e a integração ESG nas operações é uma forma assertiva de demonstrar impactos positivos na sociedade – mostra, sobretudo, que a empresa olha para além dos seus próprios muros.
Isso é ainda mais significativo quando se olha para o contexto das empresas brasileiras. O Brasil tem vantagens competitivas concretas quando o assunto é sustentabilidade: somos detentores de uma matriz elétrica com alta renovabilidade (cerca de 90% de fontes limpas) e abrigamos a maior biodiversidade do planeta, além de contarmos com um clima tropical, solos férteis e abundância de recursos naturais em nosso vasto território. Dessa forma, as empresas brasileiras já entenderam que buscar uma gestão em sintonia com a agenda ESG e com o desenvolvimento sustentável traz benefícios inegáveis às suas marcas, sedimentando sua reputação.
As empresas brasileiras de vanguarda entenderam o ESG como um ativo de negócios: as companhias que incorporaram a sustentabilidade ao seu planejamento estratégico não apenas se diferenciam no mercado, mas ampliam sua capacidade de competir no cenário global. Hoje, com cerca de 115 grandes empresas associadas, o CEBDS é testemunha desse avanço no Brasil. Mais do que incentivar a adoção de políticas ESG dentro das empresas, o CEBDS tem sido um articulador também na formação de coalizões empresariais para descarbonização, movimento que já vinha se robustecendo desde a assinatura do Acordo de Paris, em 2015, e ficou evidente na COP30, em Belém.
A partir do chamado da Presidência da COP30 para um “mutirão global” contra as mudanças climáticas, o CEBDS capitaneou a formação de quatro grandes coalizões em setores estratégicos (Transportes, Energia Elétrica, Agricultura e Minerais Essenciais), movimento que reuniu 270 empresas e organizações que, de forma convergente, elaboraram mapas para mitigação das mudanças climáticas em seus setores, contribuindo para a política pública (Plano Clima) e deixando um legado real de continuidade. Este é, sem dúvida, o maior movimento empresarial de implementação de ações de combate às mudanças climáticas já construído no Brasil, que renderá muitos frutos.
Apesar de todos os avanços ao longo dos anos, a agenda ESG ainda enfrenta desafios relevantes, entre eles os efeitos da crescente polarização política. Esse contexto tem provocado ajustes e reposicionamentos no curto prazo, mas não altera os fundamentos econômicos que sustentam essa agenda. Um estudo recente da Bloomberg mostra que, pelo quarto ano consecutivo, os maiores bancos de Wall Street obtiveram mais receita com o financiamento de projetos ligados à transição climática do que com operações associadas a combustíveis fósseis. Em 2025, empréstimos e emissões de títulos voltados a iniciativas verdes somaram cerca de US$ 3,7 bilhões.
Esses dados reforçam que, apesar dos obstáculos e das disputas do curto prazo, o ESG não representa uma agenda passageira ou ideológica, mas um vetor estruturante de competitividade, gestão de riscos e geração de valor no longo prazo. O engajamento das empresas com critérios ambientais, sociais e de governança reflete uma visão estratégica alinhada à inovação, ao acesso a capital e à construção de reputações sólidas e resilientes, consolidando o ESG como um elemento central para a perenidade dos negócios em um mundo em transformação.
* Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável) e Enviada Especial do Setor Empresarial para a COP30.

