Mapas do caminho: a tríade da transformação climática

Por Marina Grossi

A expressão “mapa do caminho” sintetiza uma percepção cada vez mais evidente: compromissos climáticos genéricos já não bastam. É preciso traduzir ambição em trajetória concreta, com marcos, instrumentos e responsabilidades claras.

Esse imperativo ganha contornos ainda mais urgentes diante do atual cenário geopolítico. O conflito no Irã reacendeu o debate sobre segurança energética e os limites da cooperação multilateral. Como observou o embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, em recente entrevista ao Valor Econômico, a agenda climática foi construída como uma agenda de tempos de paz — e a guerra, com suas consequências imprevisíveis, pressiona todas as outras agendas ao mesmo tempo em que reabre, de forma acelerada, o debate global sobre a dependência dos combustíveis fósseis.

Dessa inflexão nasceu uma tríade estratégica: o mapa de Baku a Belém para mobilizar US$1,3 trilhão anuais em financiamento climático até 2035; o mapa para a transição energética e o afastamento gradual dos combustíveis fósseis; e o mapa para zerar o desmatamento global até 2030. Três dimensões interdependentes de uma mesma equação.

O mapa do financiamento é fruto da construção conjunta das presidências da COP29 e da COP30 — o chamado Mapa do Caminho de Baku a Belém (BB). Na COP29, os países desenvolvidos concordaram em mobilizar US$300 bilhões por ano até 2035. A ciência, porém, indica que o volume necessário para viabilizar a transição é muito superior, da ordem de US$1,3 trilhão anuais. O mapa nasce para enfrentar essa diferença, buscando organizar como capital privado, bancos, organismos multilaterais e instrumentos financeiros inovadores podem ser mobilizados para alcançar a escala necessária.

Esse compromisso ganhou reconhecimento formal na COP30, sendo incorporado na Decisão Mutirão, conforme documentado no COP30 Executive Report, publicado pela Presidência brasileira e pela UNFCCC em março de 2026, que endossou a ambição coletiva de mobilizar pelo menos US$1,3 trilhão anuais até 2035, sendo ao menos US$300 bilhões para países em desenvolvimento. O Mapa está estruturado em torno de cinco frentes de ação, conhecidas como “os 5R’s”: 

  • recomposição dos recursos concessionais; 
  • reequilíbrio do espaço fiscal;
  • redirecionamento do capital privado;
  • reforço das capacidades dos países em desenvolvimento; e 
  • reforma da arquitetura financeira internacional. 

Em fevereiro de 2026, o CEBDS reuniu, em parceria com o Itaú e o BCG, representantes do setor financeiro, empresarial e da sociedade civil para continuar o debate sobre a implementação desse arcabouço a partir da experiência brasileira, para incorporar recomendações que possam contribuir com a ampliação do fluxo de recursos globalmente — uma primeira articulação concreta do setor privado em torno da agenda de implementação do Mapa do Caminho no período pós-COP30.

No âmbito do Plano de Transformação Ecológica, o Ministério da Fazenda estruturou o EcoInvest, mecanismo com juros subsidiados e proteção cambial para destravar investimentos privados. No terceiro leilão, a demanda superou amplamente a previsão: seis instituições se habilitaram para acessar R$ 15,2 bilhões do Tesouro, ante expectativa de R$ 4 bilhões, com a condição de captar R$ 52,8 bilhões em recursos privados.

O setor privado, contudo, identifica barreiras relevantes: o alto custo de capital, a insuficiência de pipeline de projetos atrativos e a necessidade de ampliar ferramentas de redução de risco . A perspectiva é consolidar, até a COP31, uma contribuição estruturada do setor privado brasileiro ao BB1.3T — com propostas concretas, baseadas na agenda nacional, e com capacidade de replicação internacional.

Se o financiamento é condição necessária, a transição energética é o eixo estruturante. Na COP28, o texto incorporou, de forma inédita, uma menção ao “transitioning away from fossil fuels”, reconhecendo a necessidade de reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, que ainda respondem por cerca de 80% da matriz global e por aproximadamente 47% da brasileira. A direção está dada; o caminho precisa ser construído.

A Presidência da COP30 assumiu, ao fim da Conferência, o compromisso de desenvolver esse Mapa do Caminho para a Transição Energética Justa, Ordenada e Equitativa, iniciativa que avançará ao longo de 2026 em articulação com governos, setor privado e sociedade civil, com vistas à COP31. Paralelamente, o presidente Lula determinou a elaboração de um mapa nacional para a transição energética, envolvendo os ministérios de Minas e Energia, Fazenda, Meio Ambiente e Casa Civil, com o objetivo de conciliar descarbonização, segurança energética e desenvolvimento.

O terceiro pilar da tríade é o mapa para o fim do desmatamento até 2030, onde clima e biodiversidade convergem de forma incontornável. Cerca de metade das emissões brasileiras decorre da mudança do uso da terra. A redução recente do desmatamento contribuiu para a queda de 16,7% nas emissões nacionais em 2024, segundo o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), atingindo o menor nível desde 2009, demonstrando que políticas consistentes produzem resultados mensuráveis.

Financiamento em escala, transição energética estruturada e proteção das florestas são engrenagens de um mesmo sistema. Nesse contexto, os mapas do caminho cumprem um papel estratégico: alinhar direção e execução. Na energia, o desafio é acelerar uma transição já em curso. O custo das renováveis caiu de forma significativa, e a expansão da matriz elétrica já reflete essa mudança. O problema não é mais tecnológico — é de velocidade e escala. Nas florestas, o ponto é ainda mais direto: florestas tropicais armazenam volumes massivos de carbono e continuam sob pressão, ao mesmo tempo que oferecem uma das formas mais custo-efetivas de remoção via restauração, especialmente por regeneração natural. Os caminhos existem. O momento de percorrê-los é este.


Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), entidade com 29 anos de atuação e mais de 110 grandes empresas associadas, Enviada Especial da Presidência da COP30 para o Setor Empresarial.

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