Resiliência urbana, criatividade e adaptação

Por Marina Grossi para o Um Só Planeta*

O mundo caminha para encerrar a atual década ainda mais quente: a projeção da Organização Meteorológica Internacional é de uma alta entre 1,2ºC e 1,9ºC na temperatura média, acima da era pré-industrial, até 2029. Ano passado já havia sido o primeiro da série histórica a registrar uma temperatura média acima de 1,5ºC, limite estabelecido como seguro pela comunidade científica para elevação da temperatura da Terra. Assim, o Planeta experimenta os impactos dos eventos climáticos extremos que já se tornam mais frequentes e mais intensos, e são uma das maiores causas de deslocamentos no mundo. Só em 2024, 45,8 milhões de pessoas perderam suas casas e tiveram de buscar outro lugar para viver em razão do clima extremo. Esse número é mais do que o dobro se comparado à década anterior. 

Além disso, uma nova pesquisa do World Resources Institute (WRI) mostra que, para cada dólar investido em adaptação, podem ser gerados mais de US$ 10,50 em benefícios ao longo de dez anos. O estudo analisou 320 projetos de adaptação e resiliência em setores como agricultura, água, saúde e infraestrutura, em diversas partes do mundo, incluindo o Brasil. 

Por todas essas razões, já não é possível deixar de falar em adaptação às mudanças climáticas, que será um dos grandes temas da COP30. A Conferência de Belém buscará alcançar um equilíbrio entre mitigação e adaptação, até então inédito nas COPs, com os dois eixos recebendo a mesma atenção e priorização. A diplomacia brasileira tem, entre suas missões, o desafio de avançar na agenda de adaptação climática, especialmente com o Objetivo Global de Adaptação (GGA, na sigla em inglês), estabelecido pelo Acordo de Paris e que contou com algum progresso nas duas últimas COPs, com a construção de uma estrutura e indicadores. Em Belém, espera-se que os países entreguem seus Planos Nacionais de Adaptação – o do Brasil está em processo de elaboração. 

Tragédias vividas pelo país, como a ocorrida no ano passado no Rio Grande do Sul, mostram o tamanho do desafio da adaptação – não basta reconstruir localidades afetadas pelos eventos climáticos extremos, é preciso fazê-lo sob uma ótica de infraestruturas mais resilientes e de um planejamento urbano integrado, com articulação entre as políticas de meio ambiente, habitação e mobilidade.  E mais do que isso: é necessário voltar o olhar para a natureza e nela buscar a inspiração para soluções criativas e eficientes. 

Historicamente, nossas cidades foram erguidas desconsiderando a natureza – o fluxo dos rios, as áreas de várzea, o tipo de solo, o bioma em que estão inseridas e sua biodiversidade. Aprendemos a construir cidades alheias às condições e ciclos naturais, e esse afastamento agora começa a ser corrigido a partir do conceito de soluções baseadas na natureza (SBN), que vem sendo aplicado em diferentes regiões do mundo.

Exemplo são as chamadas “cidades esponja”, ideia propagada pelo arquiteto e paisagista chinês Kongjian Yu em mais de 600 projetos pelo mundo. Este modelo urbano é centrado em uma infraestrutura ecológica, que permite reter a água em suas fontes e sumidouros e desacelerar seu fluxo em caso de chuvas muito fortes, a partir da criação de zonas úmidas, jardins de chuva e aumento das áreas verdes nas cidades. No Brasil, o conceito já está presente em cidades como Curitiba, com parques alagáveis e lineares para gerenciar as águas dos rios e preservar as faixas de drenagem em operação; e Salvador, onde o Parque das Dunas, a maior reserva urbana de restinga do Brasil permite a formação de lagoas intermitentes entre dunas, que assumem verdadeiramente o papel de esponjas, ajudando a prevenir alagamentos no restante da cidade nos períodos de fortes chuvas.

Os exemplos seguem pelo mundo. Da Europa, vêm bons exemplos como em Roterdã, na Holanda, metrópole que tem 80% de seu território abaixo do nível do mar. Lá, foram criados espaços públicos multifuncionais como o Water Square Benthemplein, que combina arquitetura urbana moderna com funcionalidade hidrológica – nos dias secos, são praças; nos dias chuvosos, atuam como reservatórios de água. Copenhague, na Dinamarca, adotou um plano de gestão de chuvas intensas, com soluções como ruas em declive para condução da água até áreas de infiltração, além de parques urbanos com depressões que funcionam como bacias de retenção temporária durante as tempestades. 

Esse modelo serviu de inspiração para o bairro do Brooklyn, em Nova York, nos EUA, que tem investido em “ruas esponja”, canteiros pluviais e parques após a devastação causada pelo furacão Sandy, em 2012. Medellín, na Colômbia, implementou corredores ecológicos urbanos que ajudam a reduzir a temperatura local, aumentam a infiltração de água no solo e melhoram a qualidade do ar. As intervenções foram pensadas em conjunto com políticas de mobilidade e segurança. 

O estudo Global Snapshot 2024, desenvolvido pelo Pacto Global de Prefeitos pelo Clima e Energia (GCoM) e o Carbon Disclosure Project (CDP), aponta que mais de 600 cidades em 75 países têm projetos de resiliência urbana frente às mudanças climáticas, com uma necessidade de investimento da ordem de US$ 86 bilhões.  O estudo revelou que a demanda por financiamento climático urbano cresce a cada ano, com um aumento de 23% na necessidade de investimentos em 2024. Embora o fluxo desse tipo de financiamento tenha mais que dobrado entre 2017 e 2022, ele ainda está muito aquém dos US$4,5 trilhões anuais necessários até 2030 para mitigação e adaptação climática nas cidades. 

Nessa equação, o setor empresarial pode ser parte da solução para cidades e comunidades mais resilientes – seja com novas tecnologias escaláveis, apoio a políticas públicas, seguros para infraestruturas urbanas verdes ou financiamento. A adaptação é um tema que diz respeito a todos os setores da sociedade, não somente aos governos. Cada um de nós precisa voltar a se compreender como parte da natureza, nos sensibilizando e agindo a partir de um paradigma centrado nas pessoas e na cooperação com o meio ambiente. 

 * Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), entidade com 28 anos de atuação e 120 grandes empresas associadas

compartilhe:

Assine nossa newsletter

Informe seu e-mail e receba os nossos conteúdos. Respeitamos a privacidade das suas informações não compartilhando-as com ninguém.

Notícias relacionadas

Confira as notícias mais atuais e relevantes para ficar por dentro do que está em debate na agenda do Desenvolvimento Sustentável.

Publicações relacionadas

Quer se aprofundar ainda mais neste assunto? Confira aqui outras publicações relacionadas a esta mesma temática.

Eventos relacionados

Confira nossos próximos eventos relacionados a este tema e junte-se a nós para debater e compartilhar melhores práticas.